domingo, 21 de fevereiro de 2016

Justiça sem igualdade

Quando tratamos de política e de ética, uma das questões fundamentais que devem ser respondidas é " existe alguma meta universal para todos os seres humanos, de tal forma que se um indivíduo for corrigido para se adequar a esse objetivo, ele não estará sendo injustiçado? ". Observe qualquer um dos grandes sistemas políticos e éticos presentes nos debates sobre essas questões e você perceberá que essa pergunta é respondida de uma ou outra maneira. Alguns exemplos: Kant respondeu que a razão é universal, e que dela decorre o dever. Muitos dos cientistas contemporâneos que participam desses debates costumam enfatizar que nós somos uma espécie animal, e que é possível estudar cientificamente a distinção entre comportamentos que beneficiam a espécie e aqueles que a prejudicam. Aqueles que questionam o objetivo de criar um sistema ético e que adotam em vez disso uma espécie de ética artística, como Nietzsche, quase sempre argumentam no sentido de mostrar que a tentativa de universalizar algum valor além da própria afirmação do indivíduo, interpretada por ele mesmo, é inútil e prejudicial para a humanidade como um todo.
A meritocracia e as demais noções associadas como " esforço" e " oportunidade " são também uma resposta para aquela pergunta.

Na maioria dos casos, ao menos nas sociedades liberais, cada indivíduo acredita ou gostaria de acreditar que suas ações são escolhas, e que sua insistência em determinadas ações é esforço. Através dessas duas crenças o indivíduo pode acreditar que de alguma maneira merece aquilo que possui, e que de alguma forma escolheu não ter aquilo que não possui. Mesmo com a popularidade da noção de que " o livre arbítrio é uma ilusão " em determinados espaços, é fácil observar que no nível psicológico mais básico, naquilo que o indivíduo faz e pensa em sua rotina, as crenças mencionadas persistem. O apelo ético e político da meritocracia parte do fato de que muitos indivíduos querem sentir que são livres que e conquistam metas, e da noção de que uma sociedade que recompensa o esforço e de alguma maneira pune sua ausência satisfaz essa demanda psicológica básica. Nessa lógica, não é injusto que aquele que não se esforça seja deixado em condições piores que aquele que se esforça. A exceção dessa regra ocorre quando é de alguma maneira comprovado que faltam oportunidades para alguns indivíduos. Essa é a forma racional da meritocracia.

Você já se perguntou por quê as discussões políticas e éticas tendem a ser tão violentas, confusas e no geral desagradáveis ? Alguns dizem que é porque " o povo é ignorante " , como se existisse algum grupo especial de humanos entre os quais a situação é diferente. Outros dizem que existe nesses debates um choque de posições contrárias e inconciliáveis que gera esse mal-estar. Mas nada que seja humano é no fundo incompreensível, e opostos tendem a conviver bem uma vez que conseguem se entender mutualmente. Em nossa civilização, que se pretende como orientada pela razão e por debates, é como se tudo precisasse ser de origem racional e dialética para ser válido. Mas isso é fundamentalmente e psicologicamente impossível. Assim como temos desejos individuais que são racionalizados apenasa posteriori, temos desejos sociais que funcionam da mesma forma. Por exemplo, eu sou bastante simpático ao feminismo, na maioria de suas formas. É verdade que eu penso que seja imoral que mais da metade da população humana seja desfavorecida, e é verdade que eu penso que os indivíduos não devem ser julgados como homens ou mulheres mas apenas como indivíduos, etc. Mas essas são racionalizações posteriores à minha experiência de vida em geral positiva com as mulheres. Entenda que eu poderia dizer ( e frequentemente digo ) que é imoral que as mulheres sejam consideradas a princípio menos capazes que os homens, mas minha expectativa pela igualdade civil entre os gêneros parte verdadeiramente do fato de que eu convivi com mulheres que foram extremamente capazes e agradáveis e que, por conta dessas experiências, o machismo não é uma inclinação minha. Eu digo em nossos debates hipócritas " o machismo é imoral ! ", mas em linguagem mais honesta eu teria que dizer " eu não gosto de machismo nem de ser machista . "

Nós construímos socialmente os conceitos de subjetividade e objetividade, sendo a subjetividade o domínio intocável e inatingível que cada indivíduo tem em sua consciência e a objetividade o domínio da realidade e das coisas sérias. A partir dessa divisão do mundo, não é aceitável em nossa hipocrisia que um indivíduo diga " eu quero que isso mude, a situação atual me desagrada ". O indivíduo precisa provar que o que ele sustenta é uma tese sobre a realidade que foi encontrada com bons raciocínios e que pode ser defendida com argumentos ainda melhores. A verdade objetiva, que deve ser obtida na conclusão desses nobres debates intelectuais, só pode ser uma, e assim fica decidido qual demanda social merece ser atendida. Você já deve ter percebido o quanto isso é insustentável. Pessoas diferentes têm desejos diferentes e experiências diferentes. Essas diferentes vidas poderiam se entender através da empatia e de negociações, mas o debate racional como conhecemos é claramente uma competição, na qual a empatia não é possível porque a subjetividade precisa ser mascarada com argumentos improvisados e a negociação não é possível porque apenas um lado pode ser vitorioso -- ou correto, na nossa linguagem social. Um indivíduo precisa provar que acredita no que acredita e não em outras crenças possíveis porque as outras crenças são de alguma maneira incorretas ou maldosas, e por extensão isso significa que ele precisa provar que quem não pensa como ele e não deseja o que ele quer é incorreto ou maldoso. Essa segunda parte fica nas entrelinhas -- por isso as brigas e desafetos nos debates muitas vezes parecem repentinos e sem explicação. Cada palavra dita nesse tipo de debate obscurece a razão das partes envolvidas, especialmente pela abundância de estratagemas como a tentativa de provar que a natureza humana é desta ou daquela forma, como um método tolo e inseguro de se coagir um interlocutor a uma determinada opinião.

Devo deixar claro que compreendo bem que razões também afetam nossos desejos e inclinações. Ainda naquele exemplo que dei sobre minha simpatia ao feminismo, essa inclinação talvez desaparecesse ou não tivesse efeito prático se eu não tivesse também encontrado razões para isso. Mas é notável que nossa civilização comete o erro de tentar excluir o fundo subjetivo das discussões, sob efeito do dogma de que a subjetividade não é fonte de conhecimento e não faz parte dos assuntos sérios. Os valores e desejos não são excluídos com sucesso, apenas mascarados com sofismas. Pessoas com desejos diferentes apenas podem entrar em harmonia através da empatia uma pela outra. Quando uma tenta destruir o desejo da outra, isso cria apenas ódio e violência. Nossos debates com desejos mascarados e que ocorrem como uma disputa polarizada tem exatamente esse resultado. As ideias de nossos debates são carregadas de violência, e as pessoas se habituam a valorar automaticamente determinadas palavras e posições. Por exemplo, se você falar contra ou a favor sobre o sistema de cotas, você terá das pessoas ao seu redor reações emocionais e você será avaliado (a) no formatoad hominem, independentemente do que você diga. Certos debates se tornam gatilhos para esse turbilhão de desejos mal resolvidos e de demandas ocultas, e nossa insistência nesse formato de debate e nessas crenças é o que faz das discussões políticas algo simplesmente insuportável.

Esse fundo subjetivo também existe na noção de meritocracia. Indivíduos muito frequentemente mostram a demanda de que o universo seja justo com eles de alguma forma. Por exemplo, homens que não costumam atrair as mulheres por quem eles se atraem frequentemente acabam pensando coisas como " eu não acredito que ela saiu com aquele imbecil mas não me deu uma chance " ou " é muito injusto que aquele tipo de cara tenha uma chance e eu não ". " Ser um cara legal " deveria fazer com que um indivíduo " tenha uma chance ". Mas essa ou qualquer outra noção de justiça não faz o menor sentido no jogo das paixões, apenas muito posteriormente em uma relação já estabelecida pelo passo anterior, e acredito que quase todo indivíduo entenda isso de alguma maneira. Mesmo assim, indivíduos, quase sempre homens, muitas vezes são surpreendidos reclamando de como o amor é injusto. Poderia ser justo? Quando surge uma relação entre dois indivíduos, isso ocorre em função de suas respectivas vontades. Dizer que um indivíduo conquista o outro implica em afirmar que um é o sujeito da relação enquanto o outro é o objeto. Não há e não faz sentido procurar justiça ou merecimento no amor, como se fosse algo planejável. Mas pessoas insistem nisso, porque organizar memórias no formato " eu fiz X então mereço Y " cria conforto diante da ideia de que aquilo que desejamos ter está fora de nosso controle ( por depender de outros indivíduos ).

Nossa cultura nos ensina que " mulher não se ganha, se conquista ". Uma parte da mensagem é importante: Sua alma gêmea não vai aparecer de surpresa na sua cama um dia desses. Mas a segunda parte da mensagem é enganosa: ninguém " ganha " uma mulher, ou um homem. Relações minimamente saudáveis e positivas sempre começam de ambas as partes, e muitas vezes para a surpresa de ambas, sem nenhum tipo de plano ou tática de conquista. Mas a civilização educa homens narcisistas e mulheres sem conteúdo; o homem devem dar o sentido para a vida de uma mulher e a mulher deve aceitar um homem digno de dar o valor a sua vida. Nesse sistema de crenças, o amor vira um teste -- não se trata de se ter uma boa relação com alguém mas de se satisfazer a necessidade de aprovação social e emocional do ego. Muitos homens não apenas falam de seus encontros sexuais como falam insuportavelmente deles, mendigando a aprovação de suas masculinidades, e muito raramente falam dos atributos não sexuais de suas parceiras. Muitas mulheres, não por coincidência as parceiras dos mencionados anteriormente , fazem todo infeliz ser humano disponível ouvir absolutamente tudo sobre o quanto seus parceiros são os os caras mais fodas do planeta e muito, muito raramente falam com orgulho de algum encontro sexual. Com isso cada um satisfaz as compulsões do superego ; a mulher prova à sociedade que sua beleza e temperamento agradável atraiu um homem virtuoso e o homem prova que sua virtude atraiu uma bela mulher. Quando essa história acaba bem, ela termina em um divórcio antes do terceiro filho. Do contrário ela dura uns quarenta anos e mais uma geração aprende que o amor é uma união entre dois seres superficiais e inseguros, entre um que precisa mandar e outro que precisa obedecer.

" Mas o que isso tem a ver com meritocracia ? " Nada, foi apenas uma digressão. Você continua lendo, então não reclame. Talvez você continue lendo não por tédio mas por ter percebido que eu me aproximo de alguma questão importante...

Podemos construir socialmente a noção de que determinada faixa de preço é justa para determinado produto, ou de que determinada punição é justa como resposta a uma determinada ação. Mas esperar que uma sociedade na qual indivíduos tão diferentes possuem algum grau de liberdade civil resulte em um arranjo particular que possa ser chamado objetivamente de justo é uma expectativa semelhante a exigir que a natureza seja justa no amor. Por exemplo, nossos oficiais de justiça se orgulham de trancafiar assassinos, estupradores, golpistas, traficantes, etc, cada um sendo enjaulado por um tempo proporcional à gravidade do crime e à falta de fatores atenuantes. Nossa sociedade parece satisfeita com isso, levantando objeções apenas à falta de políticos corruptos sendo punidos. Mas pense por um momento: Se esses crimes são qualitativamente diferentes, por quê a punição varia apenas em quantidade ? Ou seja, se um ladrão não causa o mesmo tipo de aversão que um assassino, porque a única diferença no tratamento entre os dois está na quantidade de tempo em cárcere ? Não deveriam ser aplicados também tipos de punição diferentes nesses e em outros casos que são tratados da mesma forma ?

Observe com atenção os discursos nos quais o termo justiça é utilizado, e você perceberá o forte apelo estético do termo -- ele se apoia em afetos tanto quanto em razões. Colecionar criminosos em penitenciárias não faz sentido, mas não deixa de satisfazer o desejo de justiça de muitos, porque não se trata de uma consequência lógica mas de um desejo e de sua construção psicológica e cultural. Essa construção varia entre grupos de indivíduos e uma única sociedade na qual esses grupos distintos convivem nunca poderia satisfazer a demanda por justiça em todos eles ao mesmo tempo, o que levanta sérias dúvidas sobre a demanda em si mesma. Mesmo no plano mais particular, existem vantagens e desvantagens que um indivíduo carrega a partir do momento que nasce onde nasce, assim que nasce com sua herança genética e histórica e não com outras. Sendo a sociedade uma coleção desses indivíduos que não apenas tem vantagens e desvantagens hereditárias mas estão fadados a competir uns com os outros e a ver suas vontades colidindo com outras opostas, a expectativa de que a sociedade seja justa é de fato semelhante àquela de que o universo seja justo com o sujeito.

Supostamente possuímos uma série de " direitos humanos " com a função de colocar os diversos indivíduos na mesma situação básica, uma situação na qual o indivíduo tem oportunidades e um grau suficiente de segurança. Mas o que são efetivamente esses direitos ? Veja aqui a lista de todos os seus direitos. " Todo indivíduo tem direito à vida. " O que isso significa ? O que isso poderia significar? Todas as vezes nas quais um indivíduo evoca seus " direitos " para obter algo, seus interlocutores mostram concepções distintas daqueles direitos, e as autoridades se mostram por completo inflexíveis a esse discurso. O fato de que temos " direitos " não torna a justiça social mais plausível. A filosofia política indiana nos ensina : " A força faz o direito ". " Força " nesse contexto não significa estritamente força militar ou força bruta individual, mas o conjunto geral das qualidades que são capazes de influenciar e coagir, como a inteligência, a riqueza material, a beleza, etc. Se você observar seus professores, por exemplo, você notará que alguns têm naturalmente poder e autoridade enquanto outros não, apesar de todos terem o mesmo título e os mesmos direitos. Uns precisam desesperadamente ameaçar e fazer chantagens emocionais para conseguir alguma coisa dos seus supostos subordinados ( subordinados por direito apenas ), enquanto outros conseguem tudo o que esperam naturalmente daqueles que, por vontade própria, são seus discípulos. A força faz o direito, porque o verdadeiro direito chama-se poder -- convencer a população a pedir direitos em vez de ensiná-la a obter poder é mais um mecanismo de perpetuação do status quo.

Cada indivíduo tem o potencial para ter poder de uma forma que é, se não absolutamente singular, muito rara e memorável. Se todos somos ou deveríamos ser iguais diante da lei, essa é ainda mais uma razão pela qual a lei é algo a ser superado, mais um resto das sociedades arcaicas que insistimos em arrastar para além da vida útil. Muitos indivíduos hoje clamam por uma sociedade mais justa, sem miséria, sem discriminação, etc. Mas na enorme maioria dos casos os indivíduos hoje não cultivam a própria interioridade o bastante, não cultivam a própria criatividade, não sabem ter poder, apenas reclamar e exigir " direitos ". Uma verdadeira superação das relações sociais como são hoje irá exigir um novo conceito de justiça, algo mais vigoroso e recente que as velharias marxistas e iluministas que os intelectuais fracassadosensinam e a juventude aprende a reproduzir como um rebanho -- como a sociedade poderá mudar através da reciclagem infinita das mesmas acusações e reclamações ? Para que a filosofia de um indivíduo tenha poder sobre a realidade, ela precisa ser vivida, mais do que falada e pensada. Kantianos ou hegelianos, por exemplo, que simplesmente leem as obras e escrevem textos de comentário a esses autores nunca poderiam realizar nada na sociedade, porque eles não podem viver a filosofia de alguém que morreu a mais de dois séculos e que deixou apenas os livros e a poeira dos ossos para traz. Os comentadores e seguidores de intelectuais deveriam, se não são inúteis e preguiçosos como eu desconfio, tomar suas obras prediletas como fonte de inspiração para suas próprias obras, que poderiam ser inspiradoras em nosso tempo. Sempre acho profundamente irônico que kantianos tomem Kant como um tutor em vez de pensarem com a própria razão, que eles citem de maneira estagnada e resignada em seus artigos-para-ninguém palavras como " Sapere aude! ". Dizem que os " seguidores " dos filósofos ( e outros tipos de autores ) têm a função de mostrar a relevância de tais obras, mas note que cada palavra que eles escrevem transformam esses maravilhosos e poderosos discursos em apenas palavras e citações. A torre de marfim banaliza o conhecimento, ela está ainda cem metros abaixo do " senso comum " que tanto repreende.

Vou lhe oferecer meu conceito de justiça, como inspiração. Se um indivíduo é admiravelmente inteligente, é injusto tratá-lo como imbecil, subestimando suas habilidades. Se um indivíduo não tem uma virtude, mas é capaz de tê-la, é injusto aprisioná-lo na situação atual e impedir que ele tente realizar seu potencial. Se um indivíduo é sinceramente afetuoso, é injusto tratá-lo com frieza, ferindo seus sentimentos nobres. Se uma autoridade é de direito apenas, sem poder, é tolo e injusto tratá-la como se tivesse ou merecesse poder, alimentando seu narcisismo. Se alguém diz ou faz uma tolice, essa tolice deve ser corrigida e repreendida em justa medida, mas é injusto definir um ser humano com base na observação de uma ação, seja valorosa ou desprezível. Todo ser humano pode se esclarecer e evoluir ( ou decair ) , então suas ações devem ser respondidas com isso em mente. É injusto tratar intelectuais como deuses da sabedoria acima de nós porque isso ao mesmo tempo lhes confere um status não merecido ( Kant racista, Heidegger nazista, etc. ) e nos rebaixa, nos tira da posição de realizar o nosso potencial como eles realizaram o deles. Também é injusto tratar um ser humano, qualquer um que seja, como se nunca fosse possível que ele dissesse algo genial ou fizesse algo valoroso, isso é colocar sobre alguém a nossa visão limitada sobre o seu ser como se fosse uma verdadeira limitação do seu ser e da sua vida, que apenas ele mesmo pode julgar. A balança da justiça pesa as virtudes e vícios de cada um. O entulho conceitual que é arrastado em grande parte das discussões sobre justiça social é desprovido de auto-conhecimento e não diz respeito a nada que possa medir ou elevar a dignidade humana. Justiça não é igualdade, justiça é digna retribuição. Não se encontra o que é justo pela via da demagogia, mas pela via da razão e da empatia.

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Notas:

*1 : Argumentos que se baseiam na natureza humana muitas vezes são falaciosos ou confusos e escondem o verdadeiro ponto da discussão. Por exemplo, nos debates sobre a aprovação do casamento homossexual e do projeto conhecido como " cura gay ", ambos os lados caíram na discussão sobre a homossexualidade ser uma escolha ou algo inato do indivíduo. Aqueles que queriam tratar a homossexualidade como um distúrbio afirmavam que se trata de uma escolha ou de uma corrupção reversível, porque a natureza humana prescreve relações entre sexos opostos, segundo a bíblia. Aqueles que queriam afirmar que a homossexualidade é algo a ser respeitado afirmavam que não se trata de uma escolha, com o respaldo de cientistas que tentavam explicar como na evolução a homossexualidade foi passada de geração e geração, chegando a discussões patéticas ( mesmo de um ponto de vista estritamente científico ) como a do " gene gay ". Ambos os lados queriam provar que a natureza humana é desta ou daquela forma para coagir aqueles que discordavam de suas idiossincrasias. Suponha que fosse provado em absoluto que ser gay é uma escolha. Isso provaria realmente que a homossexualidade é ruim para a sociedade ? E suponha que fosse provado em absoluto que não é uma escolha. Isso provaria que não é imoral ? Se eu faço um piercing ou uma tatuagem ninguém irá afirmar que isso é imoral porque eu me desviei da forma natural do meu corpo. Se um sujeito mata outro por ter alguma doença cerebral que lhe tira o controle sobre seus impulsos, isso não muda o fato de que o sujeito cometeu assassinato, de que ele é perigoso. A discussão sobre a escolha ou determinação da homossexualidade é no fundo irrelevante, porque o que importa nas políticas públicas e mudanças na legislação é avaliar as consequências sociais da prática, não a natureza humana, um objeto que talvez seja em si falso ou irrazoável.

*2 : Creio que o principal papel da racionalidade nessas questões é organizar e examinar as experiências e vivências para que possamos aprender algo a partir delas. Se eu me prendesse simplesmente à inclinação de ver o feminismo de maneira favorável, bastaria uma série de experiências desagradáveis com mulheres ( que de fato tive ) para reverter o quadro. Mas observando mulheres competentes cheguei a fórmulas, noções mais gerais e abstratas sobre em quais situações e com qual base um indivíduo pode ser julgado. A hipocrisia dos debates objetivos está em afirmar que a racionalidade na política é a priori. Por outro lado, também discordo daqueles que tratam as " vivências de opressão " como posição de autoridade, afirmando que ter ou não essas vivências distingue quem entende ou não a questão em discussão. Esse tipo de discurso parece implicar que não existe racionalidade nem empatia possível entre os indivíduos, e não por coincidência essas qualidades faltam nas discussões em que esse discurso surge ou tem que surgir.

*3 : Aqueles que chegam na posição de autoridade intelectual sem obter poder ( no caso, sabedoria ) durante o processo, fracassaram. Isso não é um julgamento, é uma constatação. Se um intelectual não consegue entrar na história que ele estuda, não consegue realizar sua própria obra, ele não tem valor em si na sua profissão, ele é apenas uma ferramenta. Professores com rica sabedoria lotam salas sem cobrar presença, professores com mero acúmulo de conteúdo precisam cobrar presença e fazer chantagens práticas e emocionais . Sábios atraem pessoas interessadas em dialogar com eles sobre questões filosóficas, artísticas e científicas como um fim em si, ferramentas humanas atraem alunos interessados em ganhar um salário para estudar ou em cumprir os requisitos da carreira acadêmica. Os pretensos intelectuais que não conseguem inspirar novas e poderosas ideias e que como agravante transformam palavras de liberdade em citações a serem reproduzidas em uma estrutura autoritária chegaram precisamente nisso -- em um fracasso. " Não julgue, não seja maldoso " me dizem. Será melhor deixar, então, que um indivíduo continue apodrecendo na realidade enquanto contempla sua bela imagem na superfície de um lago de sonhos?
Fingir que ninguém erra ou fracassa não é tolerância nem humildade.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A Grande Obra

A criatividade não é uma ocorrência aleatória, uma espécie de talento com o qual uns indivíduos são abençoados e outros não. Criar consiste em entender e transformar. Compreender a situação atual de um objeto qualquer ( seja concreto ou abstrato ), entender suas propriedades, sua história e, portanto, vislumbrar algumas de suas possibilidades não exploradas. A partir disso, um indivíduo pode transformar o que observa segundo uma ideia sua, como quando um escultor faz de um bloco de mármore uma estátua de mármore, ou quando um cientista organiza experiências e conceitos relacionados na forma de teorias. Ter criatividade significa cultivar o hábito prático e intelectual de conhecer com o desejo de transformar, significa cultivar o amor pela renovação e, talvez acima de tudo, amar as ideias a ponto de se ter o desejo de torná-las vivas, plenamente efetivas na realidade.

As criações artísticas, filosóficas e científicas têm um papel de renovação. Mesmo as melhores ideias, sejam teoremas ou ideologias, se gastam com o tempo, deixam de fortalecer, esclarecer e possibilitar, eventualmente se tornam um fardo. Ideias criam laços entre indivíduos, dão um sentido ao mundo, destacam fenômenos difíceis de perceber, mas esse poder se desgasta e se inverte conforme os tempos mudam, conforme novos indivíduos com novas aspirações nascem, conforme novos entes do mundo são descobertos. Tome por exemplo o marxismo. A teoria marxista que um dia trouxe à humanidade toda uma nova discussão e que uma vez inflamou centenas de milhares de corações com o desejo de transformar o mundo hoje é um entulho conceitual que os acadêmicos arrastam e ensinam a arrastar precisamente para não mudar o mundo, simulando a mudança no discurso, como um prêmio de consolação.

Na área da sociologia, a seguinte afirmação é comum " Um sociólogo precisa conhecer Marx, Weber e Durkheim ". Mas por qual razão? Será porque as ideias importantes desses autores apenas podem ser acessadas lendo a obra dos mesmos -- e não observando a realidade que supostamente eles explicam tão bem? Ou será porque é impossível falar e ser respeitado no meio da sociologia sem se demonstrar extensiva leitura de determinadas obras que são associadas, culturalmente , à expertise nas questões sociais ?
Você realmente acredita que os termos " burguesia " e " proletariado " são suficientes ou mesmo úteis para entender e transformar as relações econômicas da nossa sociedade, hoje ? O materialismo histórico se tornou metafísica pura e de má qualidade, é hoje uma desculpa para se preferir os livros em vez da observação e da introspecção, uma desculpa para se enquadrar indivíduos em categorias ignorando a vontade e a opinião dos mesmos. A maioria dos cientistas sociais e economistas atuais não continua o trabalho de Marx, eles o tomam como coisa terminada, confirmada a priori. Hoje em dia o marxismo aliena e divide -- até mesmo gera lucro fácil.

Aqueles que são contaminados pelo cientificismo norte americano ou que persistem no positivismo desenvolvem um enorme apego por algum conjunto específico de argumentos e teorias, como se a verdade tivesse que ser expressa por aquelas palavras, como se aquelas palavras fossem a verdade. Uma observação geral da história do conhecimento mostra, porém, o grau de arbitrariedade presente na escolha de uns nomes em favor de outros, de uns argumentos em favor de outros. Dizem por exemplo que a cosmologia geocêntrica de Aristóteles começou a ser contestada na modernidade, porque apenas nessa época o avanço da discussão foi possível. Isso é inteiramente falso. Muitos filósofos já na Grécia antiga afirmavam que o Sol deveria estar imóvel, sem nenhuma evidência empírica, conceito filosófico ou fórmula matemática que estivesse indisponível aos defensores do geocentrismo. Porém, nenhum desses muitos filósofos foi mentor de Alexandre, tampouco tiveram suas teses adotadas como aquilo que melhor explicava a narrativa da bíblia. Não estou afirmando que nossas teorias são regras fúteis ou que não existe verdade. Estou chamando sua atenção para a enorme influência cultural, política e mesmo econômica que existe em uma história do conhecimento que tratamos como se fosse uma pura dialética entre argumentos que temos a obrigação de continuar. Se temos alguma obrigação em relação ao conhecimento, essa obrigação consiste em mantê-lo atual, em mantê-lo a favor dos vivos e da vida, algo que se faz com coragem e auto confiança, e não com adoração ao passado e ao alheio.

Uma resposta comum que alguns acadêmicos têm a essa questão é a convicção de que embora nossos conceitos e teoremas sejam em grande medida arbitrários e substituíveis por outros que poderiam refletir a verdade com igual ou maior potência, a grande maioria de nós cometeria apenas enganos embaraçosos ao divergir da norma, então é melhor que as teorias até então eficientes sejam ensinadas como a algo a ser reproduzido. Se trata de uma opção pela mediocridade geral como forma de prevenir erros graves. Esse tipo de resposta que aparece em todos os centros e cantos de nossa sociedade revela ao mesmo tempo uma enorme covardia e uma forte tendência autoritária. Esse medo mortal do erro dificilmente se trata de um compromisso moral com o bom desempenho, em quase todos os casos se trata do medo da humilhação que se segue quando erramos diante dos outros. Sob o peso desse terror narcisista, esses indivíduos ficam paralisados e envoltos por mentiras que eles reforçam uns nos outros. Qualquer um sabe que não se pode acertar sem se correr o risco de errar, e isso deveria fazer de todo sujeito invicto um objeto de suspeita, não de admiração. O autoritarismo se revela quando esses indivíduos aplicam essa restrição também sobre os outros, censurando com extrema severidade qualquer erro e concedendo muito pouco aos trabalhos que divergiram da norma com sucesso -- a não ser que o autor esteja morto há uns 200 anos ou esteja na moda. Hoje em dia o combate ao autoritarismo em diversos âmbitos está na pauta da maior parte dos movimentos sociais, e também nas discussões que eles provocam, como a do feminismo, por exemplo. Mas creio que enquanto esse cenário no qual temos medo e ensinamos o medo aos outros não for revertido, novas e mais elevadas relações sociais não serão construídas, porque nós ainda não estaremos à altura disso.

Quando eu lhe expliquei que as ideias se gastam ao longo do tempo, você talvez tenha se lembrado de algum texto ou obra antiga que mudou sua vida, e pensado no contraste desse poder com a irrelevância de inúmeras outras obras recentes que você quase se arrepende de ter contemplado. " Os clássicos são imortais ". Falso. Os clássicos são inspiradores. Note como os grandes artistas, cientistas e filósofos citam uns aos outros, como eles fazem de seus antecessores anjos e demônios e depois compare isso com o efeito que as citações têm em trabalhos medíocres. Uma citação de Platão, vinda de um espírito vazio, não vale mais que um anúncio da Coca-Cola ou algo do tipo. Platão está morto, não acessamos " as ideias de Platão " mas sim aquilo que fazemos com as palavras deixadas por ele. Suas obras são hoje uma sepultura, que serve para inspirar em nós a espécie de grandeza que ele atingiu em vida. Se você tem um interesse por resgatar as ideias de Platão ( ou de qualquer outro ) tais como foram, saiba que esse seu espírito arqueológico seria mais útil na procura por fósseis de dinossauros ou na escavação de ruínas -- na busca por algo do passado que você poderia de fato encontrar.

Os espíritos radiantes inspiram uns aos outros, a energia aplicada em uma obra não se dissipa, ela inspira outros indivíduos ao mesmo tipo de esforço, a cultivar o mesmo tipo de energia. A forma imediatamente observável da obra pouco importa na troca entre nós criadores, o que se transmite entre nós não é esta ou aquela opinião, mas o fervor pelas ideias. A inspiração não determina nem influencia, ela liberta. O contato com uma obra divina pode -- se você tiver a coragem -- incinerar seu espírito, reduzir a cinzas aquilo que há de fraco e falso na sua mente e te transformar em uma fonte dessa mesma chama. O contato com as palavras frívolas que consumimos aos montes hoje, seja nos posts do Facebook que repetem a mesma piada de mil maneiras ou nas polêmicas que nos desviam da verdadeira discussão apenas acumula mais entulho mental, mais ideias que gastam seu tempo e sua memória com nada. E, entre nós, é precisamente esse o plano e o objeto de consumo : perder tempo. Maquiavel notou antes de mim que " A virtude é mais admirada que imitada ". As grandes obras não são ignoradas, nós somos ignorados, nós nos ignoramos.

Você nota que eu trato de extremos, como em um mero exercício de pensamento. " Existem os criadores e os perdedores de tempo ". Mas isso não pode ser verdade. Pessoas são influenciadas por grandes obras o tempo todo, diretamente e indiretamente por intermédio de outras pessoas, inclusive nessas trocas que eu chamei de frívolas e nesses espaços acadêmicos que eu chamo de autoritários e covardes. Repare no termo " influência ". Você diria que Platão influenciou Agostinho, que Schopenhauer influenciou Nietzsche. Onde você aprendeu isso? Eis porque eu crio esses extremos, porque carrego os termos de significado com uma narrativa que eu invento. Isso é metafísica, isso pode salvar ou enlouquecer -- e pouco me importa qual dos dois será o resultado final, me importa apenas que o resultado intermediário é a liberdade. Você pode falar em influências e determinar seu universo mental segundo aquilo com o qual você por acaso teve contato, você pode falar em inspiração e cultivar suas próprias ideias a partir do contato com o fervor de certas outras, você pode ignorar todos esses termos e pode criar ainda outros ou carregar outros termos comuns com seus próprios significados arbitrários. A escolha é por inteiro sua, meu papel aqui é apenas lhe lembrar que suas palavras e sua linguagem tem esse poder existencial, que existe uma arte incompreendida do pensamento que podemos chamar de " metafísica " que não é ensinada ( nem bem compreendida ) pelos seus professores de filosofia. " Kant e o fim da metafísica " é uma excelente perda de tempo, entre muitas outras do mesmo tipo, caso você prefira a Matrix.

No texto que considero a primeira parte deste, afirmei que nós não, efetivamente, criamos nada, apenas rearranjamos as possibilidades infinitas do mundo segundo nossas ideias. Agora, depois de mais ou menos um ano, percebo que essa afirmação precisa de um esclarecimento fundamental. Podemos falar em criação no sentido teológico, no qual um ser superior originou a natureza com seu poder, e podemos falar em criação no sentido humanista, no sentido de que um ser humano coloca seu espírito em uma porção dessa natureza para abrir novas possibilidades em si mesmo e nos outros, para ampliar capacidades emocionais, abrir novos horizontes, etc. Creio que está claro agora em que sentido eu afirmei que a criação não é humanamente possível, e em que sentido afirmei que a criação não é nada menos que uma necessidade. A determinação do universo é absoluta, de tal forma em sua escala cósmica que as ações de um indivíduo são irrelevantes para a manutenção dessa determinação, e precisamente essa indiferença permite que exista a liberdade. Se a ordem do universo dependesse de suas ações, você seria determinado(a) a agir da forma que afirma essa ordem ao máximo. Mas não existe tal dependência, então você pode agir desta ou daquela forma, segundo seu arbítrio. A inspiração fortalece justamente esse arbítrio, seja qual for a sua fonte.

Uma última coisa importante de se notar sobre a inspiração é que ela é o total oposto da depressão. Da mesma forma que algumas pessoas, obras e ideias são inspiradas e inspiradoras, existem aquelas que são igualmente deprimidas e deprimentes. Hoje à noite, revisite sua obra favorita, fique com o coração cheio de fogo e luz e, na manhã seguinte, vá ao seu trabalho, veja toda aquela resignação, veja onde sua inspiração vai parar. A histeria era uma doença extremamente comum nas mulheres da Era Vitoriana, mas hoje é bastante rara, sem que nenhum medicamento preventivo tenha sido desenvolvido, sem que a doença tenha sido completamente compreendida. A depressão é uma doença extremamente comum atualmente, sem que a sociedade tenha realmente descoberto novos terrores. Coincidência? Assim como a peste negra não poderia ter sido o que foi se na Baixa Idade Média a esmagadora maioria da população não vivesse praticamente no lixo e a igreja não levasse ninguém a consultar os céus em vez de observar os fatos, a histeria não poderia ter sido tão comum na Era Vitoriana sem aquela peculiar moralização do sexo que criava entre os impulsos e os pensamentos a pior relação possível.

A depressão suicida é tão comum hoje porque por um lado deixamos aquele autoritarismo explícito que designava a cada um seu papel, enquanto por outro mantemos um autoritarismo implícito que impede que cada um faça o que quer fazer com sua liberdade, através do medo da humilhação. Ninguém determina para nós quem somos, mas aprendemos a colocar mil barreiras entre nós e aquilo que queremos ser, e assim passamos os dias sentindo como se fossemos nada. A sensação que se pode notar nos registros do século 20, de um mundo em estado transitório entre a civilização de sempre e um novo mundo livre, se foi. O passado foi destruído e ridicularizado, mas a falta de coragem fez com que o futuro se perdesse de vista, fez com que os sonhos evaporassem. E assim continuamos arrastando este limbo. Nada deprime mais que o tédio. Todos aqueles que são honestos o bastante para ver que os rebuliços das redes sociais são tolices e fachadas podem ver nossa sociedade como está: hipocrisia e tédio, com alguns lampejos de inspiração. Cabe a nós multiplicá-los -- ou entupir todos os depressivos com remédios. " É um distúrbio químico! Não faz sentido de outra forma ! " ...

Somos todos únicos, repletos de potencial e de ideias que podem ser cultivadas ou reprimidas. Quando um indivíduo cria algo, seu potencial se realiza e uma ideia sua se efetiva como parte do mundo. Existe nisso um profundo poder que fortalece o indivíduo e melhora o coletivo. O indivíduo que cria não precisa ser validado por outros, não precisa viver buscando a opinião alheia, mendigando elogios e temendo a humilhação, ele encontra a segurança em seu caminho, naquilo que decidiu fazer. E aquilo que ele decidiu fazer traz beleza ao mundo, traz a sua beleza ao mundo. Alguns tratam a criatividade como instrumento, afirmando que surge periodicamente um tipo excêntrico que cria algo grandioso que compensa os anos de letargia por parte dos demais, que nós podemos ( e devemos ) simplesmente apreciar os resultados dos grandes, sem preocupar-nos com isso tudo. Minha objeção a isso, que poucos parecem entender, é artística e ética. É injusto com os grandes incumbi-los dos tantos sacrifícios que ir contra tudo e todos envolve, e é grotesco organizar a sociedade dessa forma, como um vasto campo frígido no qual explosões vulcânicas ocorrem esporadicamente. A futilidade e a gravidade poderiam ser melhor equilibradas entre os dois lados, não? Os gênios não precisam ser privados das coisas mundanas e as coisas mundanas não precisam ser tão frívolas. O valor absoluto do indivíduo não precisa ser algo abstrato, um " direito " seja lá o que isso for. Esse valor pode se dar através da afirmação artística, filosófica e afetiva do indivíduo.

É neste sentido que a humanidade pode evoluir, no indivíduo e na espécie : Elevando a força, o amor e a diversidade ao limite, e elevando também esse limite. E isso não se realiza entre narcisistas, que cultivam a certeza na própria identidade e nada mais, nem entre aqueles que abandonam a razão em favor da liberdade que é apenas um meio para que a determinação venha de dentro ( isso é poder ), nem entre cínicos que não têm olhos para o que está latente , nem entre fracos que usam a comunicação constante como forma de disfarçar o vazio, nem entre santos que prometem e buscam outro mundo se negando a dar beleza a este, nem entre os examinadores frios e superficiais que querem despojar todas a belezas do mundo chamado-as de ilusões, nem entre os agitadores que escondem o fato de que amam o caos e a violência, e não a sociedade ou " os direitos ", nem entre os mestres da torre de marfim que inventam mil razões para tudo e censuram outras mil, mas nunca fazem ou criam nada de valor, nada honesto, e isso também não se realiza entre os resignados que acreditam que todo desejo de mudança passa com a juventude, uma forma de propagar os próprios erros em vez de corrigi-los. Um mundo livre, forte e belo -- todos temos muito a fazer e mudar em nós e na sociedade até que isso seja completamente criado, nossa Magnum Opus.

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*1 - Sem ofensa, Lebrun! Alguém precisa dizer " o espírito francês chegou à décadence ". Mas os mortos, incluindo aqueles que ainda respiram por aí, podem descansar em paz... Eu vivo.

*2 - Não ignoro que existem barreiras práticas para que nos tornemos quem queremos ser. Certamente uma pessoa criada sem liberdade civil nenhuma, seja por razões políticas ou econômicas, se resigna por uma razão distinta do medo da humilhação. Note, porém, que depressão e sofrimento são diferentes, e que a condição para a depressão é a liberdade sem propósito. Somos educados para cultivar a liberdade como um ideal e como uma necessidade do ego, mas não somos educados para tomar decisões por conta própria e assumir compromissos. Em outras palavras, a sociedade não nos ensina a obter poder, apenas a sonhar com possibilidades, e esse sonhar sem agir nos devora.

*3 - Foi isso que os defensores da ética deontológica, do valor absoluto do indivíduo como causa e fundamento do restante da moralidade, não perceberam ou souberam expressar. Isso também é mal compreendido pelas éticas pragmáticas e utilitaristas, que trocam ouro por cobre, subestimando esse potencial em favor de ganhos simples. O valor do indivíduo não é abstrato nem é uma convenção necessária. A intensidade intelectual e emocional que cada indivíduo pode trazer ao mundo é insubstituível. Disso decorre que a sociedade tem o dever de dar ao indivíduo ferramentas, de não lhe ser uma ameaça, de não lhe tornar vazio, nem lhe dar razões para ser violento e destrutivo com os outros indivíduos, porque desse valor absoluto se segue que o amor é o único caminho para a sociedade, que tudo aquilo que destrói e separa os indivíduos, por dentro ou por fora, é por essência perverso, fraco e grotesco. Nenhuma lei pode substituir esse conhecimento, o fundamento único da justiça.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Verdade como objetividade

Existe uma distinção carregada de profundas implicações que está aceita quase que universalmente nos debates que envolvem alguma espécie de conhecimento científico ou filosófico. Trata-se da distinção entre subjetividade e objetividade. Essa distinção é adotada atualmente nos mais diversos espaços como se fosse algo intrínseco ao pensamento racional, uma compreensão auto-evidente e fundamental para a construção do conhecimento. Os adeptos dessas duas definições e dessa categorização do pensamento costumam, quando engajados em um debate, buscar evidências de que suas teses se baseiam em juízos objetivos e não subjetivos, enquanto seus adversários muitas vezes tentam provar o inverso, como uma estratégia de desqualificação do discurso em questão.

Tudo isso pode nos parecer, por hábito, muito natural. Mas se nos determos por um momento nessas duas importantes palavras e na forma como elas são usadas em distinção, podemos fazer algumas constatações importantes. Subjetividade, no uso corrente*1, significa a experiência da consciência tal como é para cada indivíduo em particular, ou seja, cada indivíduo tem uma subjetividade formada por sua experiência única do mundo, por suas sensações e por seus próprios conteúdos mentais. Objetividade, também no uso corrente, significa o conjunto de informações baseadas em fatos do mundo ou extraídas dos mesmos por um processo confiável de raciocínio, ou seja, a objetividade se refere ao conjunto dos juízos de conhecimento propriamente ditos, ou ao menos à capacidade humana de buscar a melhor aproximação possível disso. Nessa forma comum de pensar essas duas categorias, a subjetividade não constitui conhecimento porque cada indivíduo tem escolha ou a sensação de ter escolha sobre grande parte do que se passa em sua consciência, e nada impede que um indivíduo trate os produtos de sua imaginação como entidades reais. Em contrapartida, a objetividade constitui conhecimento porque é baseada em noções que não dependem da arbitrariedade da imaginação, seja porque essas noções correspondem diretamente a fatos observados no mundo por qualquer indivíduo com suas faculdades mentais intactas ou porque são formadas por um rigoroso procedimento que é aprendido socialmente através de um processo de disciplina intelectual que reprime os caprichos individuais de cada sujeito, os substituindo por "pensamento crítico", como se diz atualmente. A partir disso podemos constatar que as definições por si mesmas resultam na separação entre um domínio e outro. Reconhecemos que existe um domínio interior e reconhecemos que existe um domínio exterior . Uma segunda constatação importante é que esse uso corrente das noções em questão assume que podemos delimitar de alguma maneira esses domínios. Por exemplo, uma afirmação pode ser definida como objetiva e não subjetiva ou pode considerada subjetiva sem ser objetiva. Dessa forma fica estabelecido que a verdade é atingida através da objetividade, isto é, de um certo método lógico e empírico que se adapta a cada área do conhecimento e às suas demandas.*2

Penso que existe uma infinidade de preconceitos e dogmas contida na simples separação entre sujeito e objeto *3. As noções de subjetividade e objetividade são elas mesmas construções suspeitas independentemente de seus usos. Se acreditamos que existe um princípio espiritual onipotente, onipresente e onisciente no universo, que a inteligência humana tem um propósito especial nesse universo e que para que esse propósito possa ser atingido cada ser humano tem um poder intelectual de influência sobre si mesmo e sobre o mundo ao seu redor que chamamos de "livre-arbítrio", não pode existir sujeito nem objeto. Nessa perspectiva, a existência não é dada em dois planos, dentro e fora do indivíduo, mas apenas no plano de uma consciência absoluta e de uma vontade intrínseca ao universo em si mesmo. As ideias são nesse ponto de vista tão efetivas no mundo quanto os fenômenos da matéria, porque tanto a matéria quanto a inteligência, ou a alma, são criações da mesma vontade suprema e são intrinsecamente ligadas. Se acreditamos que não existe nenhum princípio oculto ou propósito geral no universo, que a inteligência humana é um desdobramento complexo da matéria e que, portanto, há tanta liberdade em nós quanto há no mar ou no céu, igualmente não pode existir sujeito nem objeto. A existência é dada aqui também em um único plano, o da matéria, e a conexão entre o interior e o exterior de nossas mentes é de causa e efeito simplesmente. Em outras palavras, se assumimos que existe livre-arbítrio, o universo e as mentes individuais devem estar intrinsecamente conectados, porque apenas assim a consciência individual pode ter poder sobre a matéria, sobre as ideias, sobre os indivíduos e sobre a realidade em geral, e se assumimos que existe apenas um universo material, a conexão entre a matéria exterior e a matéria interior deve ser necessária e direta, um mecanismo. Não existe nenhum abismo entre cada parte e o todo. A separação entre a consciência e o mundo é de qualquer maneira incorreta em qualquer visão de mundo consistente, e levanta uma série de problemas que são no fundo enganos possibilitados pela linguagem.*4Podemos nos servir dos termos "sujeito" e "objeto" para fins de comunicação, como formas de referência, mas não como descrições de uma separação que existe de fato.

Reconhecer que não podem coexistir uma realidade interior com suas regras próprias e outra realidade exterior com outras regras contraditórias com as primeiras elimina tanto o solipsismo quanto o determinismo, posto que os pensamentos , com isso admitido, são resultado do mundo e são partes atuantes no mesmo, nem completamente arbitrários nem completamente determinados. Como, porém, admitimos que cada consciência e seu respectivo exterior são discerníveis, os argumentos anteriores não são suficientes para colocar em questão a separação entre subjetividade e objetividade enquanto estratégia de pesquisa e de organização. Poderíamos ainda considerar que é positivo que afirmações baseadas em uma perspectiva subjetiva não sejam consideradas válidas na construção do conhecimento, e que apenas afirmações constituídas de um rigoroso trabalho de adequação do pensamento espontâneo ao pensamento disciplinado e precavido possam constituir o conhecimento, a objetividade, por razões de comunicação, instrumentalização e progresso.*5

Essa perspectiva pragmática de conhecimento se dissolve quando consideramos que, posto que a existência é dada em um único plano, seja uma criação divina ou um curioso acaso, não faz sentido afirmarmos que aquilo que é objetivo pode ser julgado como falso ou verdadeiro enquanto aquilo que é subjetivo não pode. Existe tanta realidade na sua crença de que você está lendo um texto quanto na sua crença de que a internet existe. De um ponto de vista filosófico e científico, desqualificar aquilo que se manifesta espontaneamente a cada consciência individual como se fosse irreal ou impossível de ser avaliado significa ignorar praticamente metade daquilo que podemos conhecer e falar sobre, dado que nós nunca nos separamos de nossa consciência até o momento da morte. Essa desqualificação da subjetividade é particularmente perigosa na ciência política, na antropologia, na psicologia e na neurociência. Quando se faz uma descrição científica sobre indivíduos tomando suas experiências subjetivas como irrelevantes, como ilusões ou como epifenômenos, não são emitidos juízos de conhecimento mas, simplesmente, preconceitos e imposições. Não se pode esperar nenhum progresso científico ou político dessa postura, apenas confusão e dispersão.

Para além da noção de que invalidar a subjetividade resulta em uma grande perda de informação, podemos considerar também as implicações éticas, políticas e até mesmo econômicas da valorização da objetividade como critério de verdade. A objetividade nada mais é que uma abordagem pragmática que admite como realidade aquilo que pode ser facilmente instrumentalizado e recusa a discussão acerca de tudo aquilo que não pode. Quando essa parte instrumentalizada da realidade se torna o critério de verdade ao qual cada sujeito deve aderir, se desprendendo tanto quanto possível de si mesmo, a verdade se confunde muito facilmente com obediência. Um indivíduo é julgado nas instituições de ensino com base na sua capacidade de obedecer e reproduzir, enquanto sua riqueza interior é ignorada pelas suas figuras de autoridade e por seus colegas, todos interessados apenas nos benefícios práticos de se aderir a uma determinada forma de discurso. Uma vez que o indivíduo nunca é recompensado pelo fortalecimento e aprofundamento de sua subjetividade, apenas pela sua adequação à objetividade, ele é formado pela sociedade como um indivíduo pouco criativo, com uma grande propensão a imitar (afinal, o objetivo é sempre externo) e uma grande dificuldade em conceber ideias e projetos originais. Não se cria nada de valor sem o conhecimento do mundo e não se conhece nada sobre o mundo sem construções e experiências próprias.

É muito comum atualmente que a subjetividade seja tomada como uma ilusão psicológica que deve ser, em todos os espaços sérios, corrigida de acordo com a objetividade. Essa objetividade é estabelecida politicamente e historicamente, e nem sempre racionalmente. Sendo corrigido por essa objetividade que esconde forças políticas, o indivíduo cede seu juízo politicamente. A partir disso se explica a perseverança do forte etnocentrismo europeu na filosofia brasileira, colocado em disputa apenas por um etnocentrismo norte-americano. A educação acadêmica em filosofia consiste no Brasil em um processo no qual o indivíduo aprende que deve louvar os autores norte-americanos e europeus, por consequência a louvar também a cultura da Europa e da America do Norte, e por última consequência a louvar o próprios europeus e norte americanos. Sendo a autoridade baseada principalmente em privações*6, conforme o indivíduo aprende a ceder seu juízo, ele aprende também a se submeter a autoridades. Inversamente, o indivíduo que não admite que sua consciência contém menos valor que as normas que lhe são impostas dificilmente encontra motivos para obedecer, apenas para respeitar e cooperar.

A ideia de objetividade como um critério de verdade organiza e operacionaliza certas noções como racionalidade, disciplina, esforço, eficiência e humildade de uma forma que parece de início bastante satisfatória. Mas eu observo que as consequências da aplicação social desse critério de verdade são uma redução drástica no número de espaços nos quais a criatividade e a riqueza interior são desenvolvidas, a perpetuação da autoridade de umas culturas sobre as outras e a formação de uma lógica corporativa nas universidades que se reflete na forma como o público em geral lida com debates. Se fosse verdade que o conhecimento se constrói objetivamente, a maior riqueza intelectual estaria na legião de comentadores de textos famosos e revisores de literatura científica, e não naqueles poucos indivíduos que criaram obras segundo seus critérios próprios e que testaram hipóteses originais com métodos originais. A separação entre subjetividade e objetividade no conhecimento ignora o principal conselho que a filosofia oferece à humanidade*7 e cobre a realidade com uma névoa de discussões e práticas vazias.


* 1 - O senso comum em relação a esses termos é observável tanto dentro quanto fora do meio acadêmico, e nas mais diversas áreas. Um físico, um antropólogo e um empresário não encontram motivos para divergir sobre a suposta importância de se separar subjetividade e objetividade.

* 2 - Cada grupo em questão encontra diferentes formas de lógica e de base empírica, mas o padrão pode ser observado quase como uma regra universal. Observe que nas ciência humanas não existe para muitos assuntos base empírica possível tal como se encontra nas ciências naturais, mas os acadêmicos em ciências humanas cobrem essa falta chamando a leitura e citação de textos clássicos de "embasamento". É curiosos notar que na neurociência, que une tanto assuntos investigáveis a partir das ciências naturais estritamente quanto assuntos que dependem do tipo de especulação que existe nas ciências humanas, podemos observar ambas as tendências em seus respectivos campos. Quando um neurocientista estuda a forma como os neurônios interagem uns com os outros, ele o faz a partir da observação experimental dos neurônios e daquilo que pode ser inferido dos dados correspondentes. Quando um neurocientista estuda um tipo de percepção (ex. percepção de distância), ele utiliza conceitos propostos por acadêmicos respeitados no meio, como "embasamento" para cobrir a parte de seus objetos que o método anterior não é capaz de acessar atualmente, e que talvez nunca o seja. De qualquer forma persiste a noção de que se está realizando um "trabalho científico objetivo", apesar da grande diferença entre um caminho e outro.

* 3 - Note que afirmar que existe separação entre dois objetos é algo mais que afirmar que existe distinção entre os mesmos. Por exemplo, podemos dizer que ondas e partículas são distintas querendo dizer com isso apenas que se tratam de duas entidades reconhecíveis e diferenciáveis, ou podemos dizer que ondas e partículas são separadas querendo dizer que aquilo que é uma onda não pode nunca ser também uma partícula. Igualmente, podemos dizer que a experiência individual e o mundo são diferenciáveis sem afirmarmos com isso que o indivíduo e o mundo exterior participam de domínios distintos da realidade, ou seja, que há separação entre sujeito e objeto.

* 4 - Visões de mundo que misturam diferentes metafísicas, ou que carecem de qualquer uma, colocam os objetos em questão em uma organização categórica contraditória ou incompleta. Por exemplo, a visão de Descartes de que alma e matéria são inteiramente distintas e não partilham do mesmo tipo de fenômeno. Essa visão aplica à natureza o mecanicismo e ao ser humano o cristianismo, embora o ser humano deva ser, necessariamente, parte da natureza. Dessa forma umas características humanas são explicadas de forma determinista enquanto outras são associadas ao livre-arbítrio, sem que seja possível que se estabeleça qual é o ponto de encontro ou mediação entre esses dois aspectos dos mesmo ser ( a hipótese da glândula pineal não resolve o problema). Disso surge uma distinção entre sujeito e objeto que contém em si o problema " como é possível que mente e matéria se comuniquem? ", ou o problema mente-corpo, como preferirem. Se trata de um problema que nunca teria surgido em uma metafísica consistente, como a de Schopenhauer.

*5 - Por exemplo, é muito comum nas universidades brasileiras o seguinte tipo de discurso por parte de professores: "Não aceito achismos, apenas argumentos embasados em referências bibliográficas e dados empíricos confiáveis.". Note, porém, que se um estudante apresentar em um trabalho um raciocínio extremamente interessante e singular, expressado simplesmente por um texto autoral excelente, seja uma impecável demonstração ou alguns belíssimos aforismos, esse aluno quase certamente terá seu trabalho reprovado, e essa probabilidade atinge 101 % se estivermos falando de um trabalho de doutorado. Isso porque o "embasamento" se refere a um conjunto específico de autores ( e portanto de argumentos) consagrados pela tradição acadêmica, além de dados aceitos pela academia. As regras de "embasamento" não são uma sábia cautela que almeja nos aproximar da verdade, mas apenas uma estrutura criada para padronizar e instrumentalizar obras filosóficas, científicas e artísticas. Nenhum acadêmico com o cérebro em atividade poderia negar que é possível que uma obra diletante supere de longe as obras acadêmicas, inclusive porque grande parte das referências acadêmicas é constituída dessas obras originais, mas é bastante raro encontrar um acadêmico que não utiliza a abordagem instrumental mencionada sob uma perspectiva pragmática, sob a justificativa de que a superioridade da originalidade é possível, mas é também pouco provável. Nisso se mostra uma preferência por poucos riscos e pequenos resultados.

*6 - Um indivíduo ou grupo chega a ser uma autoridade a partir do ponto em que é capaz de oferecer algo exclusivamente ou a partir do ponto em que é capaz de privar indivíduos daquilo que eles têm (ou impedi-los de oferecer algo). Por exemplo, um especialista passa a ser tratado como autoridade em um determinado campo porque ele oferece conhecimentos e serviços que especialistas de outro tipo não são capazes de oferecer. Quanto mais única for a especialização, maior será a sensação de autoridade do indivíduo. O outro tipo de autoridade pode ser exemplificado com a polícia ou com o exército, que realizam o monopólio da violência, através da qual diversas regras são mantidas em prática através das mais diversas sanções .

*7 - "Conhece-te a ti mesmo". Esse passo é anterior e posterior a todos os demais.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Sobre o corporativismo acadêmico (texto da apresentação)

O propósito desta apresentação é expor uma tese e propor um debate sobre a liberdade intelectual no meio acadêmico. A tese que venho apresentar é a de que o meio acadêmico contemporâneo é profundamente corporativista, que nas universidades existe uma estrutura de poder que racionaliza a reprodução cega de um determinado padrão através de noções dúbias de objetividade, subjetividade, rigor, racionalidade, etc. Para explicar essa tese, alguns passos são necessários.

Primeiramente, a definição de corporação. Uma corporação é um grupo de indivíduos ou um conjunto de instituições que partilha de interesses que são privados em relação ao público em geral. Em outras palavras, se trata de uma organização que defende os interesses de seus membros independentemente do que isso possa causar para aqueles que não são membros. A Coca-Cola, por exemplo, é uma corporação, porque é composta por um conjunto de empresas organizadas sob uma direção única. Essas empresas não concorrem entre si, como em um modelo de livre-mercado. Em vez disso, elas garantem que o grupo como um todo permanecerá bem sucedido no mercado através de medidas como a divisão de tarefas entre essas empresas, para que o grupo cubra uma grande quantidade de produtos distintos para ocupar o máximo possível do mercado, e também medidas como a compra de pequenas e médias empresas de fora do grupo que poderiam em algum momento concorrer efetivamente com algumas das empresas do grupo. Esse é o aspecto econômico de uma corporação, o monopólio de uma porção do mercado por parte de um determinado grupo que é capaz de exercer poder sobre o mercado em si. Grupos como esse não apenas atendem as demandas do mercado com seus produtos, eles influenciam a formação das demandas através da propaganda coordenada pelas diversas instâncias aparentemente autônomas que formam uma corporação. O fenômeno do consumismo não pode ser explicado sem a compreensão de que existem grupos de grande influência na esfera pública e no mercado que são interessados, por razões óbvias, na criação de uma cultura de consumo extremo.

Existe também o aspecto ideológico de uma corporação, que é frequentemente ignorado pelos estudiosos do tema. Isso ocorre porque se o lucro ou a obtenção de autoridade fosse o interesse único entre os membros de uma dada corporação, esse egoísmo forçaria esses indivíduos a alguma concorrência, cedo ou tarde. Corporações são mantidas na prática pelos benefícios exclusivos que essas associações oferecem, mas no discurso as corporações são mantidas por ideais homogêneos. Por exemplo, como poderíamos explicar a estranha mas comum associação entre uma determinada forma da religião cristã e uma determinada corrente de ideias liberais? O cristianismo chamado de fundamentalista e o neo-liberalismo são em seus fundamentos mutuamente exclusivos; No neo-liberalismo a caridade é facultativa e a desigualdade é considerada natural, enquanto no cristianismo a caridade é um dever e todos são nada mais e nada menos que filhos de Deus. No cristianismo a moral sexual e "os valores da família" são necessariamente um assunto público, enquanto no neo-liberalismo, muitas vezes chamado de anarcocapitalismo, todas essas questões devem ser deixadas por conta dos indivíduos e suas idiossincrasias. No cristianismo a propriedade é irrelevante diante dos bens do espírito, no neo-liberalismo o espírito somente se mostra em termos de propriedade. A explicação para essa associação que compõe os mais diversos grupos de políticos corporativistas ao redor do mundo variando da bancada evangélica no Brasil ao partido republicano nos EUA está no poder de união que existe em uma ideologia. Um grupo que é unido porque cada membro deseja lucrar e ganhar autoridade se desfaz assim que uns membros encontram uma oportunidade de ter sucesso sem os outros, enquanto um grupo que é unido também em torno de ideais como os cristãos muito dificilmente se dissolve, porque os lucros e os outros benefícios práticos conquistados pelo grupo passam a representar para seus membros e diante da sociedade o sucesso de uma visão de mundo. Assim o dinheiro é associado a uma supremacia moral e intelectual, e a profundidade dessa associação define a força das corporações que dominam o mercado e a política.

Mas como o meio acadêmico onde trabalham as nossas louváveis vanguardas intelectuais poderia ser comparado a uma corporação como a Coca-Cola? Como uma postura corporativista poderia existir na Torre de Marfim sem ser imediatamente criticada e repudiada pela nossa eminente classe de mestres e doutores? Um indivíduo começa a desconstruir a pureza do meio intelectual uma vez que percebe que as universidades são apoiadas em uma infraestrutura, tanto quanto quaisquer outras instituições. Uma universidade existe em um terreno, consome energia elétrica, contrata e rejeita profissionais, financia projetos, depende de parcerias econômicas e políticas, etc. No meio acadêmico ocorre circulação de capital, e esse capital é circulado em torno de determinados interesses – não poderia circular em torno de algo que fosse "um fim em si mesmo".

Qual é a finalidade de uma universidade? Não pode ser o cultivo do conhecimento como um fim em si mesmo, porque é inconcebível que tal finalidade seja financiada em uma sociedade capitalista. Uma instituição é financiada para produzir e regular. Uma universidade produz profissionais, produz tecnologia, produz teoria e produz arte. E que essa produção não seja subestimada! Uma das maiores fontes de renda dos EUA é justamente a propriedade intelectual. Uma produção de tamanha importância não poderia ser desorganizada, ninguém investiria uma quantidade enorme de recursos em uma instituição que apenas talvez alcance seus objetivos. Especialmente por estarmos tratando de uma produção associada ao conhecimento, qualquer instituição de ensino superior atual tem em sua estrutura uma burocracia e uma hierarquia destinadas a garantir os resultados dos cursos, das pesquisas, dos projetos de extensão, etc. Assim temos que um pesquisador deve garantir que seu projeto merece ser financiado, e também que um professor deve garantir que seus cursos resultem na formação de profissionais capazes de dar garantias tal como ele mesmo é.

Eu pergunto: como é possível que alguém dê garantias de que sua pesquisa trará resultados? Uma pesquisa é diferente de um estudo. Em um estudo um sujeito obtém conhecimentos que ele em particular não tinha, mas que já eram disponíveis a muitos outros indivíduos e grupos. Uma pesquisa, porém, tem como objetivo expor algo que até o momento não era conhecido. Se uma pesquisa realmente tem chance revelar algo desconhecido, ela também tem chance de não encontrar absolutamente nada – sua hipótese inovadora pode ser revelada tanto como imbecil quanto como genial, porque precisa ser afastada significativamente daquilo que já foi produzido na área em questão. Do contrário seria um estudo, uma retomada, uma revisão de literatura mas não uma pesquisa. A partir disso, eu repito a pergunta. Como alguém poderia garantir os resultados de sua pesquisa, se uma pesquisa é exatamente uma busca por algo novo, algo a acrescentar? Existem duas respostas, uma honesta e simples e outra que é desonesta e apenas soa complexa. A resposta honesta é que não é possível oferecer essa garantia porque a descoberta e a criação envolvem grande risco de fracasso. A resposta acadêmica é que através do estudo rigoroso das referências indispensáveis do meio intelectual um indivíduo se forma como um profissional metódico que avança o conhecimento sem chance efetiva de fracasso. Essa resposta é desonesta porque ela obscurece a distinção entre estudo e pesquisa; Um doutor em filosofia, por exemplo, publica um artigo comparando a filosofia política de Rousseau e a ética de Kant como se isso fosse o resultado de uma pesquisa. Não importa qual espécie de comparação seja essa, se trata de um estudo, de uma revisão, porque essas são teorias de autores que analisaram fenômenos, teorias já registradas no meio acadêmico. Porém, o fato dessa revisão conter um ou dois parágrafos de interpretação peculiar sobre os textos basta para que esse trabalho seja considerado uma pesquisa, uma pesquisa inovadora (interdisciplinar!) além de tudo. Pense por um momento nisto: Quem pagaria alguém para fazer uma pesquisa se uma pesquisa fosse apenas o estudo de algo já bem conhecido?

Um burocrata que não entende aquilo que está financiando. Nossa cultura, no que concerne ao trabalho e ao estudo, é uma cultura de especialistas. Especialistas se tornam autoridades em seus respectivos campos de atuação por uma questão de privação. Um determinado trabalho ou analise se faz necessário e apenas alguns indivíduos são capacitados para atender essa demanda. Uma vez que os administradores e os burocratas não são especialistas nas áreas que regulam, os critérios de racionalidade, objetividade, ciência, inovação e excelência são definidos pelos especialistas...

Chego com isso a outra pergunta: Como é possível que algum plano de ensino, seja lá qual for, garanta que ao menos um terço dos alunos submetidos a ele serão formados como intelectuais excelentes, criativos, metódicos e virtuosos? Acrescento ainda outra pergunta: Como alguém, seja lá quem for, seria capaz de definir em que consiste ou deve consistir a formação de inúmeros indivíduos? Assim como na pergunta feita anteriormente, existe para essa uma resposta honesta e uma resposta acadêmica. A resposta honesta é que não é possível que um plano de ensino tenha resultados previsíveis e que a própria ideia de formação é um tanto dúbia. Um professor que expõe seu conteúdo durante duas horas a uma turma silenciosa pode imaginar que inseriu determinados conteúdos nas mentes de todos os alunos que prestaram atenção e que um dos desdobramentos dessa inserção de conteúdos – pretensão que também existe em "dinâmicas dialógicas" – é a formação intelectual desses alunos. Pobres alunos e pobre professor! Para que tal transmissão ocorra ela precisa ser uma doutrinação e um esvaziamento, e é justamente a isso que professores e alunos se submetem, por covardia, ignorância e tolice. Como um indivíduo que conclui seu doutorado pode garantir que aquelas regras às quais se conformou durante tantos anos o transformaram em um intelectual do mais alto nível e não simplesmente em um reprodutor cego de uma estrutura de poder? Acredito que não preciso repetir o padrão.

Se a garantia de excelência que toda a estrutura de poder das universidades visa efetivar é fundamentalmente um erro, porque o fracasso faz parte do processo mas não pode ser reconhecido (financiado) o que essa estrutura está de fato garantindo? Qualquer coisa que seja conveniente aos especialistas encarregados de determinar o que significa objetividade e racionalidade em cada área de atuação. Em geral, aquilo que é mais confortável é aquilo que parece mais conveniente. Um sujeito com mestrado ou doutorado se submeteu durante um longo tempo a uma disciplina e a um esforço, sob a promessa explicita de que ele mesmo se tornaria como seus professores algum dia e sob a promessa implícita de que seus professores eram de fato competentes e bons exemplos. Por um lado, os resultados do envolvimento no meio intelectual são necessariamente incertos, sendo o intelecto diretamente conectado à vontade, e por outro a promessa que permeia esse meio intelectual é de uma garantia de que a excelência se encontra na academia.

Uma vez que o sujeito é colocado em uma posição (doutor) que não necessariamente merece ocupar, por ser um grande privilégio em relação a indivíduos que talvez sejam mais competentes, esse sujeito precisa, inclusive para manter a consciência em paz, garantir para si mesmo e para os outros que a hierarquia é válida e necessária e que ele merece sua posição. Como um sujeito, por exemplo, que não foi "formado" como um filósofo pode passar por filósofo? Trabalhando com indivíduos que foram enganados da mesma forma e que agora precisam enganar a próxima geração. Trocando seus trabalhos inférteis com colegas que também produzem trabalhos desse tipo. Formando alunos para que eles reproduzam essa estrutura. Recusando trabalhos que tenham qualidade mas que não se adequem aos critérios que regulam esse teatro. Construindo a ideia de que essa operacionalidade é prova de uma verdade. Mantendo uma posição de privilégio através de uma postura que se pretende como objetiva e científica. Em um conceito, corporativismo acadêmico. Um corporativismo baseado não no acúmulo de capital mas na ocupação de determinadas posições de autoridade intelectual, um corporativismo que faz o monopólio da ciência e da filosofia.

Um indivíduo qualquer que queira propor uma pesquisa de fato na universidade não irá encontrar um orientador, porque os professores irão recusar sua proposta inédita ou, pior, transforma-la em uma proposta comum através de "pequenos ajustes para que o projeto seja aprovado". A mercantilização do conhecimento, através das patentes no campo da tecnologia e da propriedade intelectual no campo das ciências faz com que a reputação e a sobrevivência de inúmeros indivíduos passe a depender, fundamentalmente, de mentiras, e disso se segue a conduta corporativa que preserva a qualquer custo a hierarquia obsoleta do meio acadêmico internacionalmente.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Poder e Linguagem

Nossas relações sociais e possibilidades criativas não são influenciadas apenas por fatores econômicos e biológicos mas também, e talvez de maneira decisiva, por aspectos culturais que são muito mais sutis. A construção da linguagem, as reformas pelas quais cada linguagem passa e a relação entre umas linguagens e outras escondem do observador desatento um vasto domínio de relações de poder. Diante de todas as formas grosseiras de controle que observamos na atualidade, como o sistema carcerário a nível nacional e as campanhas militares a nível internacional, diante de todo o espetáculo das relações internacionais contemporâneas e das mídias locais dominadas pelo sensacionalismo, muitas vezes não olhamos para coisas sutis como as palavras que aprendemos a usar e, principalmente, por quê passamos a usá-las.

Uma das línguas oficiais na Africa do Sul é o Afrikaans, também encontrado em uma variação chamada Africâner. O nome sugere que se trata de uma língua nativa, originada pela cultura local, assim como o português veio de Portugal ou o espanhol da Espanha, etc. Na verdade, o Afrikaans é uma criação européia elaborada no período colonial, principalmente por holandeses, mas com forte influência das línguas alemã e inglesa. Estudamos nos livros que o Afrikaans é um resultado do encontro cultural entre os colonizadores europeus e a população local, mas pense por um momento sobre como esse tipo de "encontro" geralmente ocorria nas colônias de exploração*1. De maneira semelhante ao que se sucedeu no Brasil e na Austrália, a Africa do Sul não era um território único e tanto menos uma nação, mas sim uma multiplicidade de povos separados por fronteiras estabelecidas culturalmente, inclusive por motivos religiosos, em alguns casos. Por exemplo, para os povos que organizavam suas famílias em culturas totemistas, nas quais o parentesco não era dado entre consanguíneos mas sim entre indivíduos categorizados sob o mesmo clã (ex. família do lobo, família da tartaruga,etc.), a organização territorial vigente era fundamental para que se evitasse a desorganização dos costumes e hierarquias locais. Qualquer tentativa externa de reconfigurar a organização territorial desses povos certamente seria um precedente para terríveis conflitos no futuro.

Mas os colonizadores não queriam que essa diversidade permanecesse, pois era difícil de organizar e, portanto, difícil de explorar. Os costumes, as crenças e as fronteiras dessa multiplicidade de povos eram um problema para os exploradores europeus. A solução encontrada foi a unificação dos locais sob uma única linguagem. A unificação da vida espiritual e da moralidade através do cristianismo da igreja católica e a redistribuição dos territórios de acordo com os conhecimentos e interesses europeus foram mudanças efetivadas e consolidadas pela unificação de todos os dialetos tribais sob uma única linguagem.
A transformação de centenas de povos em um único nome, a redução de uma enorme diversidade cultural a um conjunto estrito de palavras, criado por um povo dominador com uma semântica voltada especificamente para seus fins. Não houve uma troca cultural entre as tribos africanas, indígenas e aborígenes e os colonizadores europeus *2, apenas a destruição da cultura política e religiosa desses nativos, realizada pela reforma forçada da linguagem tanto quanto pelo exercício da força bruta. Com essa abordagem dupla se controlava tanto o corpo quanto o pensamento dos povos nativos. O controle da linguagem sempre fez parte das grandes campanhas militares porque os conceitos, as categorias e até mesmo as lembranças são crucialmente dependentes das palavras e das regras de sentido estabelecidas entre elas. A subjugação de uns povos perante outros não é um fenômeno exclusivo do período colonial, evidentemente. Na atualidade, podemos flagrar muitas intrusões de umas línguas em outras, e minha opinião é que deveríamos fazê-lo com grande alarme. Notemos por um momento os anglicismos, modificações que algumas línguas sofrem em adaptação à cultura de países de língua inglesa, quase sempre em reação ao que se observa na cultura estadunidense. Essas estranhas mudanças na língua local em função de uma cultura estrangeira ocorrem em diversos tipos. Vamos discutir três.

O primeiro é, ao menos aparentemente, mais inocente. Se trata da absorção direta de expressões da língua inglesa, como mouse, shopping, etc. Embora a presença constante dessas palavras em conversas e na mídia fortaleçam nossa tendência a imitar o modo de vida americano (como posto pela propaganda), essas mudanças não distorcem a sintaxe ou a semântica das expressões originais de nossa língua e não soam estranhas em frases como "Preciso ir comprar outro mouse". Mesmo assim, é interessante notar que os portugueses não adotam anglicismos, dizendo "Preciso ir comprar outro rato" e, na Espanha, além de muitas de suas ex-colonias, não apenas se recusam anglicismos como nomes estrangeiros são traduzidos para as versões locais*3, para preservar a língua. O segundo tipo é mais grotesco e expressa melhor o objeto que quero expor. Principalmente na academia e no meio artístico, a admiração cega ao estrangeiro chega a um ponto no qual falsos cognatos são popularizados e transformados em jargão. Por exemplo, o termo "revisão de literatura". Nas academias norte-americanas, em uma resposta hipócrita às críticas ao sistema universitário hierárquico que sufocava todo o ímpeto inquisitivo e criativo dos alunos de graduação, o termo "review" passou a ser empregado como nome para os resumos de textos cobrados pelos professores. Esse termo não significa "revisão", nem nada parecido, mas sim crítica ou avaliação de obras, produtos e estabelecimentos. Entretanto, professores de ciências naturais no Brasil, como muitas vezes estudam apenas na lingua franca da ciência contemporânea, importaram além do pensamento norte-americano algumas de suas práticas didáticas, através do termo "literature review" ou , traduzido horrivelmente, "revisão de literatura". O termo "resenha" já cumpria exatamente a mesma função por aqui, inclusive em toda sua hipocrisia*4. Também importamos com isso a tendência de fazer referência à literatura como se fosse uma entidade, com frases como "você deve estudar a literatura". Ora, a literatura? Com esse erro de pensamento e de linguagem professores fingem que os autores a serem lidos não são um recorte arbitrário entre outros mil possíveis, mas, simplesmente, "a literatura". O terceiro tipo é menos acessível, porque requer uma observação atenta, conhecimento profundo da língua inglesa e algum incômodo com essas questões. Se trata de quando podemos observar que, embora um indivíduo esteja falando em português (por exemplo), a sintaxe de suas falas está em inglês. Quando um indivíduo chega a esse ponto, ele muitas vezes já pensa em fazer as malas e migrar para a terra da oportunidade.

Esse tipo de intrusão linguística certamente não ocorre apenas com o inglês, embora esse caso seja um tanto peculiar graças ao fenômeno sem precedentes que é a propaganda internacional da mídia estadunidense. Quem cursou filosofia ou esteve em algum tipo de encontro tipicamente frequentado por acadêmicos em filosofia quase certamente teve a oportunidade de observar os supostos filósofos falando palavras em francês ou alemão com seriedade e orgulho -- geralmente termos pronunciados de maneira incorreta e, muitas vezes, termos que são absolutamente cotidianos nas línguas mencionadas, mas que são tratados pelos acadêmicos locais como se fossem as palavras mágicas do mais poderoso grimório. Esse é um fenômeno muito estranho se levarmos em consideração que toda língua tem seus prós e contras. Por exemplo, o inglês não tem o inconveniente de atribuir inutilmente gênero a praticamente todos os substantivos como o português. Em inglês não se diz a operária ou o professor, mas simplesmente the worker e the teacher. Por outro lado, em português nós temos os verbos ser e estar, enquanto o inglês tem apenas o verbo to be. No português eu posso dizer sem ambiguidades que sou feliz ou que estou feliz, enquanto no inglês e em muitas outras línguas sempre existe ambiguidade entre esses dois tipos de proposição, algo que atrapalha significativamente a comunicação em debates antropológicos e filosóficos. A ideia de que certas línguas são absolutamente superiores, popular por exemplo na Alemanha e entre seus idólatras*5, pode apenas partir de um tradicionalismo cego. Se o alemão permite a união de várias palavras sem perda de sentido, o português permite distinções ausentes em outras línguas, o japonês tem um alfabeto específico para conceitos*6 e outro específico para expressões estrangeiras, etc. A diversidade que há entre as línguas deveria servir como um incentivo a mais para que os intelectuais de cada nação criem obras em suas línguas nativas, para suas línguas nativas.

Não deve ser por coincidência que os acadêmicos que mostram essa tendência mostram também o mais profundo desprezo pela originalidade e pela autenticidade -- quando está próxima. O hábito doente de sempre ceder o próprio juízo a autoridades intelectuais estrangeiras não poderia existir sem ser acompanhado pelo sintoma que é o desprezo pelas palavras nativas em comparação com aquelas das figuras idolatradas. A razão dada pelos acadêmicos locais para essa obsessão é o suposto fato de que ler uma obra na linguagem em que foi escrita é melhor que ler uma tradução. Certamente não é uma justificativa absurda, mas não é completamente correta. Primeiramente tenhamos em mente que ninguém que lê um livro visualiza a mente do autor tal como estava no momento da escrita. Para que alguém possa entender absolutamente o sentido de uma obra, é necessário que o indivíduo seja ninguém além do próprio autor, com todas suas experiências, suas memórias, seus impulsos. Cientistas, filósofos e artistas buscam a obra de outros intelectuais com o objetivo implícito de obter inspiração para a própria obra, nunca com o objetivo de citar as obras alheias até o fim da vida, como os acadêmicos fazem. Inspiração, não influência. Para aqueles com esse objetivo mais elevado, a diferença de utilidade entre a obra original e a traduzida é muito pequena, embora eu deva reconhecer que o prazer proporcionado pelas nuances das grandes obras costuma ser reduzido na tradução, ou seja, que existe diferença de valor. Mas isso não justifica a obsessão dos acadêmicos por disputas como "Qual é a melhor tradução de Ubermensch?". Carreiras inteiras desperdiçadas com questões que simplesmente não tem resposta, porque não são questões para ninguém que tenha alguma criatividade no espírito. Antes fossem dedicadas a uma produção própria na língua local, mesmo que não fosse algo ao nível dos clássicos, porque isso seria um investimento nas gerações futuras de intelectuais nacionais, em uma mudança decisiva em nosso cenário cultural atualmente entediante.

Mas certamente não é apenas por aqui que se compreende mal o peso político da linguagem. Existem em todos os países dos quais a história não me é desconhecida diversos termos nascidos de segregações extremamente violentas entre determinados grupos em cada cultura, e em muitos desses países os esforços para eliminar esses termos não é compreendido pela maioria da população. Nos Estados Unidos existem termos como nigger e faggot, o primeiro usado para acusar os negros de serem parte de uma única raça ruim de procedência impura, e o segundo usado para acusar os homossexuais, especificamente homens, de serem degenerados irrelevantes. São duas demandas que podemos observar com clareza na história da homofobia e do racismo nos EUA. Note que não existe um termo pejorativo estadunidense específico para as lésbicas, principalmente porque nessa história elas foram tomadas como objetos sexuais. Em vários outros lugares do mundo nos quais a homofobia foi administrada mais de perto por instituições religiosas existem termos pejorativos específicos para esse grupo também. No Japão, existe o termo gajin que se refere a estrangeiros de maneira extremamente pejorativa. Esse termo é um resultado do encontro entre o sonho de um mundo unificado e japonês e as interações desastrosas com os europeus, algo que pode ser observado desde o encontro entre as explorações ocidentais e o Nippon até o final da segunda guerra mundial. Mesmo hoje, muitos japoneses são racistas com estrangeiros, apesar de não terem relação nenhuma com a ideologia patriota extrema que era universal entre os vários feudos que disputaram a era Sengoku , que resultou na forma atual do império japonês. Isso talvez se deva ao impacto cultural das imposições feitas ao Japão quando foi derrotado na segunda guerra mundial, além da cicatriz deixada pelos bombardeios atômicos. Cada cultura tem alguns termos destinados especificamente à violência psicológica e social, e os alvos desses termos mudam de acordo com cada história da violência. Não tenho uma opinião sobre quais são os melhores mecanismos institucionais para corrigir o lado corrupto de cada linguagem*7, inclusive porque não acredito muito em instituições. Mas deve ser evidente para qualquer um que considere o peso da história nas palavras que termos como nigger não são apenas gírias, e que seu uso é de fato uma decisão política, no mínimo uma opção pela cínica indiferença diante do estigma que outros carregam.

As palavras não são apenas ferramentas para a construção de proposições, e não são apenas efeitos secundários dos fenômenos principais das culturas. Palavras definem possibilidades de pensamento, palavras mudam pensamentos, provocam sensações, inspiram e reprimem. Palavras são ações em todos os sentidos. Por esse motivo penso que o estudo da linguagem merece um esforço além do analítico, um esforço capaz de revelar esses jogos linguísticos de poder e de revelar problemas e possibilidades que atualmente ignoramos. Se consideramos que ceder as palavras é o mesmo que ceder as ações, que ceder o direito de discurso é o mesmo que ceder o poder, a escolha das palavras ganha novamente a gravidade e o impacto que tem-se perdido na profusão de comunicações irrelevantes que a mídia virtual promove. Quantas verdadeiras possibilidades se abririam se o termo "história da filosofia" desaparecesse de nossas mentes ? Se todas as palavras forçadas para dentro de nossas jornadas intelectuais por idolatras cegos e autoritários se tornassem para sempre mudas? O discurso pode ser uma arte de criação, uma arma de destruição em massa, um chamado à ordem ou um retorno ao caos. De qualquer forma, as palavras merecem mais respeito do que têm recebido por aqui. A adoração cega das línguas europeias é um resíduo do período colonial que preserva antigas relações de poder que empobrecem nossa cultura.


*1- Em geral, livros de história se referem às colonias australianas como de povoamento, em semelhança às do Canada. Mas muitos historiadores questionam esse termo, por razões que deveriam ser obvias. Penso que os aborígines perseguidos, mortos ou doutrinados, concordariam que o termo precisa ser revisto, no caso da Austrália ao menos.

*2- Não quero dizer com essa afirmação que a cultura européia não incorporou absolutamente nenhum elemento das culturas tribais em questão. Quero dizer que as partes envolvidas não aprenderam coisas uma com a outra em uma relação benéfica de troca, mas sim em um processo violento de subjugação. Pense sobre o quanto a linguagem nas regiões colonizadas mudou em comparação com as línguas oficiais dos povos dominantes como o inglês e o francês.

*3- Me chamariam de Enrique, assim como chamam Friedrich Nietzsche de Frederico.                

*4- A resposta é hipócrita porque demandar que os alunos façam uma "avaliação crítica" de textos pré-determinados pelo cânone acadêmico não é nenhum sinal de liberdade intelectual e criativa, porque os critérios de "rigor" que os acadêmicos geralmente estabelecem resultam na impossibilidade de se criticar alguma posição sem estudá-la exaustivamente, além dos comentadores famosos associados a ela. A manutenção do corporativismo acadêmico permanece em primazia nas universidades sobre os problemas do mundo atual e sobre as novas gerações com seus anseios. A propósito, a tradução correta do termo é "crítica literária", um termo bem estranho de se empregar no meio científico contemporâneo no qual o empirismo é uma desculpa para se escrever mal. Acrescento ainda que o sentido do termo foi distorcido pelos acadêmicos norte-americanos como mais um sinal da decadência de seu sistema educacional , e copiado cegamente por brasileiros como se fosse parte do melhor modelo educacional do mundo. Para quem quiser ver por conta própria: http://writingcenter.unc.edu/handouts/literature-reviews/. Comecem a copiar o sistema educacional cubano ou o finlandês e eu certamente terei menos problemas para reclamar sobre.

*5- Heidegger disse uma vez que só se faz filosofa em alemão. Eu imagino que um sujeito esclarecido como ele deve ter feito esse comentário como uma brincadeira, fazendo alusão à sintaxe muito peculiar da língua alemã e à capacidade de juntar palavras que ela proporciona. Aqui vai, então, um lembrete para aqueles que também tem uma fixação por essas peculiaridades do alemão. Em português ninguém precisa perder tempo com junções mirabolantes de palavras para expressar a ideia de ser em diferentes tipos. Um brasileiro deslumbrado com coisas como palavrasunidasemconceitos é como um alemão fascinado com a diferença nos artigos entre a pedra e o pedregulho, com a multiplicidade de sonoridades diferentes frases que tem exatamente o mesmo sentido podem ter em português. Só se faz poesia em português.

*6- Kanji (ideogramas). Em japonês, a palavra amor é gramaticalmente diferente do conceito amor.

*7- A criminalização de termos pejorativos é um tópico muito difícil porque a história de certos termos é inequivocamente a história da violência, mas indivíduos não nascem com toda a história em suas mentes e são capazes de usar essas palavras sem violência. Deixo de lado a questão aqui porque ela requer um ensaio próprio.

sábado, 17 de outubro de 2015

Crítica da autoridade

O que se encontra no anarquismo em geral e em todas as suas derivações é uma crítica da autoridade, que podemos observar sob duas perspectivas, entre outras. A primeira é a da rejeição da validade moral da autoridade, de seu papel como algo natural e positivo nas relações humanas. A segunda é da desconstrução da efetividade da autoridade, da noção de que, uma que o indivíduo está sob efeito da autoridade alheia, há pouco que ele possa fazer até que algum evento externo a essa relação lhe traga uma oportunidade. Em linhas gerais, os argumentos morais a favor da autoridade são: A autoridade faz parte da natureza humana e, portanto, seu uso é correto e necessário, principalmente por razões de segurança; A autoridade proporciona diversos benefícios e possibilidades que seriam impossíveis de outra forma, como a proteção dos direitos dos indivíduos e a garantia de que iniciativas coletivas sejam conduzidas da forma mais eficiente, por exemplo o trabalho industrial; A autoridade do tipo estatal é uma continuação da autoridade familiar, e tem um papel de semelhante importância na construção e preservação de valores que não existiriam de outra forma; A autoridade do tipo intelectual garante a preservação do legado cultural, em todos os sentidos, e sua continuidade. Certamente existem outros aspectos a serem considerados, mas me deterei nesses. Estamos tratando de argumentos que naturalizam a autoridade, argumentos que atribuem à autoridade as características desejáveis das sociedades modernas, argumentos que atribuem à autoridade a boa constituição psíquica dos indivíduos e argumentos que atribuem à autoridade a continuidade dos grandes projetos intelectuais da humanidade.

Podemos definir a autoridade como uma relação de poder sublimada, de duração mais extensa que os afetos relacionados às relações simples de poder . Por exemplo, se eu impor, através de uma ameaça, um comando a alguém, esse indivíduo precisará seguir minha ordem apenas enquanto eu ainda estiver apto a exercer violência sobre ele. Com um pouco de meditação, podemos ver como essa relação é efêmera, como ela pode ser facilmente revertida, abandonada e esquecida. Entretanto, se o indivíduo que eu comando atribui a mim uma figura de poder, se ele imagina que eu sempre teria o poder de exercer a violência e que eu sempre tomaria conhecimento de sua desobediência, de uma forma ou de outra, eu não tenho apenas força, mas também autoridade, porque posso comandá-lo sem fazer recurso constante ao poder concreto da força bruta – meu subordinado interiorizou meu poder, e pode inclusive exercê-lo sobre outros indivíduos como meu representante, meu delegado. Esse foi apenas um exemplo, talvez o mais clássico, mas a autoridade não se dá apenas pela força bruta. Se é uma crença comum que apenas um determinado indivíduo pode providenciar um determinado objeto de desejo, esse indivíduo ganha autoridade sobre os demais. Por exemplo, na nossa cultura de especialistas, cada especialista é uma autoridade intelectual em seu próprio campo de atuação. Se trata de uma relação de autoridade baseada em privações em vez de ataques. Não é por acaso que muitos pensadores como Weber definiram a autoridade estatal como, simplesmente, o monopólio da violência e da força. Com essa definição, difícil de questionar com contra exemplos ou outras hipóteses, podemos analisar os argumentos comuns esboçados acima, da perspectiva de que a autoridade depende de uma idealização das relações de poder imediatas, de que a autoridade não é dada pelos eventos, mas pela memória e pela interpretação destes.

Os argumentos naturalistas em geral têm um histórico de serem mostrados como falsos pela simples mudança das culturas ao longo do tempo, além da descoberta de povos com outros costumes. Por exemplo, na civilização ocidental tendemos a acreditar que o arranjo usual de nossas famílias é biologicamente natural, e alguns de nós se ocupam de explicar qual é o papel desse arranjo na evolução. Entretanto, existem muitas culturas tribais que se organizam em algo que chamamos de “totemismo”. Nessas culturas, as famílias não são definidas como “um homem, uma mulher, seus filhos e seus associados como avós, tios, etc”. Em culturas totemistas, as famílias são definidas pela associação de alguns indivíduos a totens que representam animais. Existe um grupo de indivíduos pertencente ao totem do lobo, outro ao do touro, e assim por diante. Não é a relação sanguínea que agrupa esses indivíduos, mas diversos fatores contextuais ao nascimento de cada indivíduo, que variam de tribo para tribo. Nessas culturas, a repulsa pelo incesto também existe, mas não por consanguíneos, e sim por membros do mesmo totem. Note que nossa biologia talvez tenha razão sobre o mecanismo fisiológico que causa essa repulsa, mas meu ponto é que a sensação de que conhecemos a natureza biologicamente determinada da família é apenas resultado da uniformidade de nossos costumes, dado que nossa civilização dialoga apenas com outras que mantém famílias com estruturas iguais ou muito semelhantes. Freud discutiu esses casos e questão do incesto extensivamente ainda no século 20, apoiado em trabalhos feitos em séculos anteriores. As evidências antropológicas de que a afirmação “esse costume faz parte da natureza humana” tende a ser enviesada no pior sentido são abundantes. Além disso, eu posso acrescentar que o racismo e o sexismo foram também defendidos por argumentos que tomavam o status quo como fenômeno da natureza humana. Será estranho dizer que algo semelhante se aplica à autoridade?

É claro que é natural que nós tenhamos influência uns sobre os outros e que essa influência não seja sempre simétrica. Em outras palavras, é natural que existam relações de poder entre os seres humanos assim como elas existem entre quaisquer seres vivos dotados de consciência. Mas a autoridade não é tão simples, nossas hierarquias são compostas por títulos de autoridade, pelas instituições reguladoras desses títulos, pela propaganda que cerca as figuras de autoridade, por desigualdades econômicas, etc. Esses são apenas exemplos de fatores, entre diversos outros, que certamente poderiam estar organizados de outra maneira, porque de fato existem de outras formas em sociedades diferentes, e ainda sequer existem em algumas outras. Um exemplo de pressuposto que é desfeito por esse conhecimento é a noção de que o trabalho não existiria sem autoridade. Nas sociedades industrializadas, o trabalho foi moralmente justificado de uma maneira em particular, entre muitas outras possíveis. Muitas pessoas argumentam que em um espaço de liberdade o trabalho industrial necessário seria abandonado, esquecendo de que isso é principalmente um resultado de como nossa filosofia do trabalho se desenvolveu em torno de um elogio do sujeito egoísta que usa do trabalho como fim para obter propriedade. Em torno do pensamento burguês, como diriam os marxistas. Nós organizamos o trabalho, na prática e na teoria, como um desprazer para todos, como uma disputa agressiva por recursos. Nossas indústrias são construídas com o pressuposto de que o trabalho por si mesmo não pode e não deve estimular nada além da produção e da competição. Em nossa civilização, mesmo que um indivíduo não seja ensinado pelos seus responsáveis a seguir essa lógica de sofrer (ou fazer sofrer) por dinheiro, o indivíduo será ensinado dessa maneira pelo mercado de trabalho, que perpetua essa forma de pensar através da prática. É por esse motivo que a noção de que o trabalho é um sofrimento com fins egoístas nos parece tão natural, quando de fato em povos não industrializados, ou povos que vivem às margens da civilização industrial, o trabalho ocorre de maneira muito mais espontânea e por vezes ocorre como uma forma de arte, de expressão e até mesmo de puro entretenimento. É bem provável que a noção de que o trabalho precisa ser forçado por alguma autoridade seja mantida quase que exclusivamente pelos próprios responsáveis pelo funcionamento do mercado de trabalho, dessa estrutura sofisticada de autoridade que muitos intelectuais erroneamente consideram como um espaço de liberdade.

Eu certamente não sou o único a sustentar que nossas autoridades provocam os problemas que prometem solucionar, e há muitas evidências para isso. O exemplo mais claro é a questão da segurança, tanto no sentido civil quanto no sentido militar. A existência de uma polícia, no caso do Brasil uma polícia militarizada, costuma ser justificada com base na ameaça que são os “marginais armados”. Mas tomando o Brasil como exemplo, devemos nos perguntar: Por que existem favelas? E ainda: Por que existe no Brasil um poder armado paralelo ao Estado? Ora, justamente porque o Estado, do qual o mercado por essência faz parte, criou um grupo enorme de indivíduos privados de diversos direitos (educação, saúde, etc.) que ao longo do tempo se organizou em comunidades das quais criminosos faziam parte, criminosos que ao longo do tempo se tornaram figuras de influência dentro dessas comunidades, inclusive por providenciarem segurança interna em muitos casos. Os criminosos que aparecem nas estórias de horror diárias que surgem em nossas mídias não servem como base para a explicação da criminalidade em geral, um problema de uma parcela gigantesca da população mundial que não segue as mesmas regras dos casos bizarros apresentados diariamente pelos sensacionalistas. O Estado brasileiro marginaliza o indivíduo e depois o prende por seus crimes, usando outros indivíduos particularmente perversos como desculpa para tratar de todos os criminosos como se fossem vilões. O “livre mercado”, um antigo dogma da economia ocidental que na verdade é um simples reflexo da incompetência administrativa de nossas elites, permite que armas altamente destrutivas cheguem às mãos de organizações criminosas, permitindo que o crime organizado se torne uma ameaça efetiva que precisa ser contida através de uma polícia altamente violenta. Com as ameaças militares, ocorre praticamente o mesmo. Governos como o dos Estados Unidos permitem através do “livre mercado” que a industria bélica lucre com armamentos vendidos a milícias africanas e ditadores no oriente médio, por exemplo. Posteriormente, surgem frases como aquelas de G.W. Bush “nós ainda vivemos em um mundo perigoso”, que sustentam a ação militar, o desenvolvimento da indústria bélica e a suposta impossibilidade de um mundo em paz. O estado de natureza de Hobbes, a “guerra de todos contra todos”, quase certamente é mais um entre os preconceitos antropológicos que estou tentando expor, porque podemos observar que a violência não surge em massa como uma misteriosa corrupção da mente humana, mas como uma resposta a problemas concretos que é validada por diversos discursos, especialmente esses de caráter misantropo, que causam parte daquilo que criticam. Eis a fórmula para a banalização do mal.

A relação do indivíduo com o mundo por intermédio de figuras de autoridade é realmente um fator importante para a formação da subjetividade tal como a conhecemos. O patriotismo, por exemplo, leva indivíduos a se importarem com causas que de outra forma lhes seriam alheias, e fornece um senso de pertencimento cuja falta atormenta muitos. A existência da autoridades oferece um apoio psicológico, e esse é um dos motivos pelos quais os indivíduos interiorizam as figuras de autoridades e passam a defendê-las. É verdade que isso ocorre, mas não seria isso tudo justamente mais uma base para argumentos contra a preservação das autoridades? Mesmo se Freud tinha razão sobre a origem das figuras de autoridade, nas figuras do pai e da mãe, temos de manter em mente que o fato de que os indivíduos são levados naturalmente a uma analogia inconsciente entre os pais e os professores, por exemplo, não significa que essa analogia seja correta ou positiva. Naturalidade nem sempre implica em bem ou perfeição como alguns imaginam. O apoio psicológico resultante da confiança em autoridades bloqueia, a meu ver, o desenvolvimento intelectual e moral do indivíduo, Por exemplo, é mais fácil ler os textos de um kantiano do que ler uma autêntica obra do próprio, mas o enfrentamento direto de tais dificuldades permite que o indivíduo entenda suas limitações intelectuais e trabalhe para superá-las, enquanto a delegação do problema gera apenas uma ilusão de sucesso. Por extensão, é mais fácil ler Kant que escrever obras como as suas, mas vale novamente o raciocínio. Ser patriota, ter um partido, ter uma ideologia são todas coisas que dependem de autoridades e que resultam em uma confortável simplificação do mundo. Mas justamente isso é um sinal de corrupção. Se dois países estão em guerra, o que nos leva a acreditar que os soldados de um país merecem a morte mais que os de outro? Nenhum fato, se a história nos ensina qualquer coisa sobre a questão. O que nos leva a estarmos de acordo com tudo que um determinado grupo sustenta e a recusarmos tudo que alguns outros sustentam? Nenhuma boa razão, se as discussões atuais são algum exemplo significativo. A confiança em autoridades intelectuais coloca barreiras confortáveis em nosso próprio raciocínio, a confiança em autoridades morais faz o mesmo e ainda transforma o mundo em uma fantasia de heróis e vilões.

Levando em consideração esses efeitos negativos do Estado, e que existem muitos outros, devemos nos perguntar: O que é exatamente o Estado? De qualquer perspectiva, o Estado é uma abstração, um produto ideal de uma série de estruturas concretas que não teriam por si mesmas ou mesmo em combinação (na ausência do conceito) o poder sobre cada indivíduo que o Estado tem. Se, por exemplo, o poder sobre o corpo que a polícia tem sobre mim existe em forma de abstração – porque ela não é onipresente nem onisciente – se o poder sobre a mente que os doutos tem sobre mim existe em forma de abstração, se a influência do Estado me atinge por intermédio de minha própria mente e, portanto, de minhas ideias, o poder do Estado é um fantasma, que eu escolho continuar imaginando. A coerção não vem dessa abstração, mas de indivíduos que assim como eu continuam imaginando que esse fantasma exerce sobre eles sua vontade. Os serviços públicos também não são prestados por um fantasma, mas por pessoas, que aprenderam com seus professores que alguma espécie de orientação externa é necessária para que o indivíduo entenda qual ação ou trabalho é pertinente a cada contexto. Esses professores também escolhem a servidão pela crença no mesmo fantasma, quando ensinam aquilo que são forçados a ensinar não pelos seus diretores – que, novamente, não são onipresentes ou oniscientes – mas pelas suas próprias memórias desses diretores, e de seus antigos professores. São as condições materiais e as interações reais entre indivíduos que exercem nossas relações de poder. Não existe mercado, existem pessoas vendendo e comprando coisas (e outras pessoas). Ninguém é afetado pelo mercado, cada um é afetado por transações específicas. Dessa forma, tudo aquilo que é providenciado ou privado pelo Estado é, na verdade, realizado por indivíduos que atribuem suas ações a uma instância superior de presença imaginária, indivíduos que sustentam juntos um fantasma.

A autoridade em geral funciona de forma semelhante. Um exemplo. Se um especialista, uma autoridade intelectual, resolve um problema, não foi seu título (mestre, doutor , etc.) que gerou resultados, mas uma ideia ou ação especificamente, não essa garantia imaginária de sucesso mas o sucesso na contingência, em constante risco. Sendo assim, sendo o sucesso ou fracasso características de ações específicas e não características que um indivíduo realmente possa manter dentro de si através de um título bom ou mau, alguém sem aquela autoridade poderia também resolver o problema, mesmo que de outra forma. Será mesmo tão estranho afirmar que a autoridade e as hierarquias são dispensáveis e, no fundo, imorais? A autoridade como a conhecemos é exercida através de ideias, porque não poderia ser duradoura de outra forma, e me parece difícil negar que muitas de nossas ideias são erros, dogmas e mentiras. Penso que o espírito questionador que enaltecemos hoje apenas pode ser autêntico se complementado por uma postura desobediente.