quarta-feira, 8 de julho de 2015

Valoração das Palavras

Em cada cultura, existem certas palavras que provocam reações imediatamente boas ou ruins. Esses termos, geralmente expressos na forma de adjetivos, fazem com que indivíduos adotem ou recusem posições independentemente de argumentos. Alguns exemplos atuais são: democrático, inovador, crítico, científico, plural, positivista, reacionário, radical, racista e sexista. Existem muitos e muitos outros termos dessa espécie sendo usados amplamente, e uma grande parte daqueles que se envolvem em debates usam esses adjetivos mais frequentemente que argumentos ou que referências a fatos.   

Em geral isso é um problema sério. As reações emocionais que esses termos provocam atrapalham o raciocínio. Termos como "democrático" e "crítico" são usados frequentemente sem nenhuma definição ou significado claro. As reações a esses termos são frequentemente manipuladas de maneira maliciosa ou irresponsável, fazendo com que o foco nos argumentos se perca. Mesmo nos casos em que um indivíduo não tem suas posses ou sua reputação dependentes de uma determinada tese, a tendência é que esse indivíduo tente "ganhar" o debate, mesmo quando se trata de uma discussão com implicações importantes.

O termo "crítico" é particularmente um bom exemplo. "Criticar" quer dizer algo como "fazer distinções", ou seja, analisar um raciocínio, uma obra, um indivíduo, etc. Mas em geral nos debates atuais o termo crítico é utilizado de maneira vazia, como um meme entre pretensos intelectuais. Nessas discussões a palavra acaba se tornando pela prática um sinônimo de insultar ou depreciar, refletindo a baixeza e a falta de conteúdo próprio. Ao mesmo tempo, termos como pensamento crítico e senso crítico são usados como positivos, adornando posturas irresponsáveis como a de se criticar um indivíduo ou mesmo um grupo em vez de se criticar suas obras. Ninguém deveria tomar tão rapidamente a liberdade de criticar um sujeito como se sua totalidade fosse tão fácil de conhecer. Além disso, não acredito como muitos que nos falte pensamento crítico, e sim pensamento propositivo, criativo ou afirmativo. Atualmente, reclamações sobram em comparação com boas atitudes e bons trabalhos.

Mas a questão da valoração das palavras não é tão simples. Se por um lado palavras como "inovação" são usadas para defender práticas dúbias, por outro palavras como "racista" e "sexista" combatem práticas dúbias. O fato do racismo ser considerado intrinsecamente negativo é uma grande vitória política, que significa que qualquer um que propor o regresso à escravidão ou qualquer coisa do tipo será alvo de escárnio público imediato. Mesmo no caso mencionado do termo "crítico", é algo positivo que a crítica não seja reconhecida em si como algo a ser punido, ou seja, a valoração positiva impede que a valoração negativa ocorra. É claro que isso não impede que críticas pertinentes sejam suprimidas de várias formas, mas é ao menos um avanço entre os diversos que ainda não realizamos. Além disso, existe um caso que é, talvez, pior que a valoração positiva ou negativa de um termo. Quando um termo é trivializado, como acontece hoje com a palavra "filosofia" que não tem mais significado, temos uma grande perda. Nesses casos, o termo desaparece dos debates e por consequência das memórias, ou é usado muito facilmente de maneira inadequada sem que isso seja aparente. Se um termo tem um significado trivial, ele pode caber em qualquer forma lógica, ou seja, ele pode ser usado em argumentos aparentemente coerentes, o que torna certas falácias mais difíceis de detectar ou desconstruir.

A forma como as palavras são colocadas em em evidência ou em descaso reflete os desenvolvimentos da política e, portanto, do poder. Sendo o poder, no seu sentido natural, algo com o qual inevitavelmente temos que lidar, acredito que as valorações das palavras sejam também algo inevitável. Entretanto, isso não significa que estamos entregues à correnteza de acusações, falácias e confusão em geral. Se o poder é inevitável, podemos ao menos conhecê-lo, e o mesmo vale para a valoração das palavras. Nós podemos manter a consciência de que certas palavras são permeadas pelo jogo político e que não tem o mesmo uso, epistemologicamente falando, que as demais. Por exemplo, quando apontamos que a opinião de alguém é racista, sexista, conservadora ou radical, não estamos fazendo a descrição de um fenômeno ou expressando alguma implicação lógica da opinião expressada, a não ser que ela seja declaradamente inclusa nessas categorias. Quando fazemos esses julgamentos, fazemos uma ação política, de trazer o jogo de poder em torno de certas palavras para a direção que acreditamos ser melhor, ou apenas conveniente.

É principalmente por esse motivo que, em nossa época na qual todos precisam fingir a democracia, ocorrem tantas brigas em torno da definição de palavras. Acadêmicos dogmáticos quanto à autoridade e relativistas quanto ao conhecimento (a maioria) não reprimem o ato de criticar explicitamente, mas manipulam a definição de crítica para algo que inevitavelmente os apoia. Políticos não falam em público contra a democracia, mas nos fazem acreditar que democracia é sinônimo de liberalismo, de marxismo, etc.
Por isso muito me preocupa que a filosofia esteja trivializada no Brasil.   


terça-feira, 16 de junho de 2015

Teoria e Prática

Quando exatamente a teoria é capaz de afetar com precisão a prática? Você provavelmente já ouviu ou usou a expressão "isso é válido na teoria mas não funciona na prática". Mas você talvez não se tenha perguntado " como pode ser que uma boa teoria não diga nada sobre a prática?". Não há uma resposta obvia para isso. Alguns castelos japoneses, construídos com uma mistura de matemática e misticismo, são mais resistentes a terremotos que as construções contemporâneas e permanecem em perfeito estado até hoje. Enquanto isso sistemas políticos, econômicos e de ensino se arruínam diante de nossos olhos independentemente da coesão de suas teorias fundamentais,

É possível identificar alguns fatores que influenciam na falha ou sucesso das teorias. Parece claro que explicar e controlar uma reação química é mais fácil que fazer o mesmo com uma reação psicológica, por exemplo. Também é claro que quanto mais complexo e instável for um fenômeno, mais dificilmente uma teoria sobre ele atinge seu fim. Seguindo por esse caminho, concluiríamos que é o problema a ser resolvido que separa as teorias úteis na prática das inúteis. Mas isso não pode ser. Resolver o paradoxo de Russel é incrivelmente difícil para os matemáticos, e ele não envolve nada além de problemas causados por axiomas que podem ser formulados de outra forma de acordo com a vontade de quem estiver pensando sobre o assunto. Enquanto isso todos os lendários líderes militares do passado foram capazes de prever completamente as ações da maioria de seus inimigos, e é comum a opinião de que muitos empresários e publicitários fazem algo semelhante. Esse tipo de previsibilidade pode ser facilmente observado em menor escala em um jogo de xadrez.

Não pode ser o caso que uma teoria seja bem sucedida e outra não dependendo dos assuntos em questão. Esse parece ser o pressuposto implícito de quem usa aquela expressão em discussões de filosofia política ou de ética. Trata-se de uma comparação entre a beleza das ideias nobres e a corrupção que se enxerga na prática. Mas essa forma de pensar ignora que não existe apenas uma forma de conceber e utilizar a racionalidade. Talvez nunca exista um problema na abstração em si mesma, mas sim no processo pelo qual a abstração é feita. Se observarmos a metafísica de Aristóteles em comparação com a metafísica de Tomás de Aquino isso fica claro. O instrumento de conhecimento usado é exatamente o mesmo, mas o primeiro caso resolve inúmeras questões mesmo sem acrescentar nenhuma informação concreta, enquanto o outro acrescenta muitas informações abstratas e cria algo que não pode ser de grande serventia a ninguém, porque exige mais esforço mental que a investigação da natureza em si mesma.

A separação entre a racionalidade e o restante da vida não faz sentido, independentemente de suas convicções religiosas ou científicas. Se você admite que é parte da natureza, seja ela criada ou um maravilhoso acidente, você admite também que sua razão está ligada a essa natureza. Isso significa que o raciocínio abstrato não pode ser independente dos demais aspectos da fisiologia humana. Como Espinosa bem demonstrou, um erro não consiste em dizer algo que não existe na natureza, mas sim em julgar a natureza de forma confusa. Uma abstração não cria algo inexistente, mas simplesmente apresenta aquilo que é concreto de outra maneira.Assim o sucesso de uma abstração depende da forma como ela é construída com base em seus elementos constitutivos.

Se um raciocínio é uma conversão daquilo que se observa e vivencia para uma linguagem direta, ele pode explicar a prática. Por exemplo, denominar uma certa quantidade de superfície que vejo de "um centímetro" me permite calcular precisamente quantos centímetros um determinado espaço tem independentemente de seu tamanho ou complexidade, dada a infinitude dos números. Isso significa que de uma abstração sou a capaz de concluir coisas muito para além da experiência, desde que a base para essa abstração seja algo concreto. Se um raciocínio estabelece uma lógica própria independente dos fenômenos do mundo, seja com uma linguagem clara e regrada ou não, ele não pode explicar a prática e é questionável se ele explica a si mesmo. Os exemplos para esse tipo de erro são numerosos atualmente, por causa da forma como somos capazes de construir redes de informações selecionadas por nós mesmos ao nosso redor.

Quando um acadêmico marxista tenta prever ou realizar a revolução sem estudar nada além de literatura marxista, ele está fechado em um sistema que não contém um de seus principais objetos de interesse, o sistema capitalista e seus pressupostos tais como são pensados pelos capitalistas. O mesmo pode ser dito sobre a oposição, e sobre a própria ideia de oposição política, que geralmente se manifesta em grupos que não se conhecem e não estão dispostos a isso. A ideia de que a corrupção humana é generalizada geralmente aflige aqueles que deliberadamente buscam notícias relacionadas a atrocidades e tragédias. É claro que uma vez que um indivíduo cria essa fantasia, qualquer experiência vivenciada que seja coerente com ela irá fazer com que a fantasia pareça verdadeira como todo. Por causa do contexto acadêmico, a ciência contemporânea em todos os campos corre risco de se tornar um processo semelhante. O fato de que a filosofia acadêmica já está completamente perdida deveria servir como um aviso.

Nesse tipo de pensamento, no qual o sujeito é vendado pelas suas ideias, é utilizado o mesmo instrumento daqueles casos nos quais as ideias servem como um bom par de óculos. É difícil explicar a diferença, porque aqueles que entram no tipo circular de raciocínio não são muito transparentes ou abertos para um diálogo transparente. Se eu tentasse os explicar eu cometeria o erro que estou explicando, construindo uma imagem sobre esses sujeitos sem conhecê-los ou ouvi-los e fazendo um sistema retroalimentado de argumentos. Mas talvez justamente nessa dificuldade de diálogo esteja um bom critério para diferenciar os óculos das vendas. É bem fácil notar pela experiência comum que alguns sujeitos não querem sair de seus próprios sistemas conceituais mesmo quando o diálogo com outro sujeito exige isso. Novamente, marxistas acadêmicos são o exemplo clássico, quase um esteriótipo justificado, mas existem inúmeros outros casos.

Enquanto isso, outros constroem sistemas conceituais durante um diálogo, unindo perspectivas e argumentos sem um aspecto de competição e sem necessidade nenhuma de uma postura relativista. Isso porque todos nós percebemos a mesma realidade de perspectivas distintas, o que significa que exercícios de raciocínio que unem essas perspectivas estabelecendo entre elas algo em comum são mais próximos da verdade e naturalmente geram teses mais persuasivas que exercícios de raciocínio que tem um aspeto de competição. O fato de que "debate" é frequentemente um sinônimo de "disputa" é um fator a mais para estabelecer uma desconfiança geral sobre a racionalidade e sobre a filosofia. É apenas nesse estado de desconfiança que teoria e prática são universos completamente distintos.

sábado, 30 de maio de 2015

Sobre a ignorância

Muitos acreditam que a ignorância é uma benção, que nós vivemos em um mundo confortável e de infinitas possibilidades até o momento no qual descobrimos os fatos. Mesmo entre aqueles que se dedicam ao conhecimento, essa opinião é muito popular. Diversos intelectuais fazem a distinção entre os ignorantes felizes e os sábios necessariamente amargurados. Mas há algo muito estranho nessa crença, e também nessa postura de martírio que muitos intelectuais assumem.  

Primeiramente, independentemente de suas convicções religiosas, filosóficas ou científicas, você deve saber que o que separa um ser humano dos demais animais é, essencialmente, sua mente. Os seres humanos sobrevivem melhor que qualquer outra espécie do planeta porque nós fazemos previsões complexas, nos comunicamos extremamente bem, registramos observações, etc. Nosso conhecimento nos traz poder sobre a natureza, o que significa que a ignorância é falta de poder. Isso significa que "a ignorância é uma benção" não pode fazer sentido nenhum no âmbito prático.

Conhecer um objeto nos ensina sobre diversas possibilidades de ação sobre ele. Nisto está um dos fundamentos principais da ciência e, ao mesmo tempo, da criatividade artística. Conhecer a nós mesmos fortalece e aprofunda nossas mentes, elevando esse potencial que chamamos de liberdade. Conhecer outras pessoas possibilita que tenhamos sentimentos poderosos e laços duradouros. De todas as formas, a ignorância não pode ser algo positivo na teoria, na arte ou nas relações humanas. As interpretações formadas a partir do pensamento profundo são muito mais poderosas que aquelas formadas com pouca ou nenhuma consciência, e enfrentar as emoções negativas de frente traz amadurecimento, força e uma maior apreciação dos momentos felizes.

A ignorância não poupa trabalho, porque as confusões resultantes agravam os problemas existentes e geram novos, e também não amplia a imaginação porque o vazio não pode ser fonte de inspiração. Apesar da ignorância não ser algo positivo nem na teoria nem na prática, aqueles que sustentam a opinião comum se baseiam em uma experiência também bastante comum. Todos nós testemunhamos muitas vezes ao longo da vida casos nos quais um sujeito se desespera após receber uma informação relativa a um problema que lhe era desconhecido. Como isso pode ser possível, considerando o que foi explicado anteriormente?
A explicação para isso não está em um problema com a verdade, mas sim em determinadas posturas em relação a ela.

Aqueles que acreditam que uma informação pode atormentar alguém se esquecem de que a obsessão também é uma forma de ignorância. É evidente que saber de fatos desagradáveis traz sofrimento a um indivíduo, mas também deveria ser evidente que vivemos em um mundo extremamente vasto que possibilita que durante todos os dias um sujeito pense em diversas coisas diferentes. Nós, porém, muitas vezes fixamos uma única informação como base para interpretar uma infinidade de fenômenos. Assim, não é o conhecimento que traz sofrimento, mas sim o erro de repetir obsessivamente algum pensamento desagradável. Se colocadas em contexto devidamente, mesmo as informações que individualmente trazem sofrimento se tornam fonte de aprendizado e amadurecimento. "O que não mata fortalece." Além disso, aprender sobre uma impossibilidade permite que nós não mais gastemos energia com algo fútil, como uma mosca tentando atravessar uma vidraça.

A postura de mártir que muitos intelectuais assumem também é baseada em erros. Um desses erros está claro na alegoria da caverna, de Platão. Os habitantes da caverna são acorrentados, um símbolo de um destino infeliz, não de uma escolha preguiçosa. O indivíduo que vê a luz não fica aterrorizado, mas sim maravilhado, e chega a sentir pena dos prisioneiros das sombras. Por que aquele que viu a luz sentiu pena daqueles que viam apenas as sombras? Por que em vez de desfrutarem de um mundo de possibilidades, os prisioneiros davam nomes às sombras e criavam disputas sobre esses nomes, se orgulhando disso como tolos. Não é exatamente isso que a maioria dos acadêmicos faz? A infelicidade desses pretensos intelectuais não vem do conhecimento, mas sim da forma de ignorância chamada pretensão.

Em geral, a ignorância aparece como uma benção quando o conhecimento é mal compreendido, "Saber é poder". A alegria, a beleza, a virtude e a criatividade são, claramente, formas de poder.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Filosofia da Religião I

Nós nascemos nesta terra, como quaisquer outros animais. Nossos corpos retêm vitalidade por pouco tempo por obedecerem as mesmas leis da matéria inanimada. Nossas mentes são limitadas pela experiência, assim como nosso controle sobre nossos próprios impulsos. Somos seres limitados. Mesmo assim, dentro dos limites dos sentidos, nós imaginamos o cosmos. Observando tudo que é efêmero nós imaginamos o eterno, experimentando nada além da matéria nós imaginamos o espírito.

Pelos seus mecanismos fisiológicos, o intelecto humano não deveria ser capaz de nenhuma transcendência. Mas foi neste intelecto que ocorreu a mais profunda epifania: "Se o mundo é tão profundamente inteligível, talvez ele seja em si inteligente". A possibilidade de outros planos de existência além do sensível possibilitou um plano superior de pensamento. Buscando o pensamento do absoluto, mentes humanas formaram ideias como razão, beleza, virtude, verdade, justiça, eternidade e, é claro, alma e divino. Da imaginação do cosmos surgiu a própria essência da humanidade. Isso diz algo sobre o mundo, ou apenas sobre nós mesmos? Independentemente de onde vieram tais profundas ideias, delas provém uma tarefa. A partir do momento em que se imagina o belo, se imagina também o grotesco e decadente. A partir do momento em que se imagina o divino, se imagina também o profano. Pela luz se revelam as trevas, e foi no meio da escuridão que os antigos se perceberam. A condição humana sempre foi distante das belas ideias.

Com a vontade de evoluir nossos corpos e mentes, e mesmo a natureza ao nosso redor, algumas mentes ao longo das eras buscaram caminhos para superar a simples condição humana e aproximar o particular do todo. Mas, nem todos aqueles com um anseio espiritual entendem a profundidade do intelecto, e uma grande parte da humanidade ignora esse anseio. Assim, aqueles que acreditam ter contemplado a verdade deixam suas doutrinas e métodos para que a humanidade em geral desfrute dos resultados,embora não participe do processo. Nós, hoje em dia, estamos muito mais acostumados com os resultados do que com os processos. Nós usamos um artífice sem compreender sua engenharia, nós usamos um método sem compreender sua essência e sua intuição inicial. Perdemos nosso passado e a essência da razão de vista.

Atualmente, nós damos grande preferência a tudo aquilo que é seguro e automático quando tratamos com problemas de organização. A nossa forma de educação mostra isso com clareza, especialmente no contexto acadêmico. Nós tratamos o conhecimento como uma série de resultados coletados e procedimentos a serem seguidos que resulta naturalmente em progresso, em descobertas e em lucro, principalmente. A maioria dos interessados na ciência se adapta com facilidade a esse modelo, e alguns poucos não se adaptam, mas insistem. Os que se adaptam bem raramente produzem algo para a posteridade, porque tendem a reproduzir as doutrinas já estabelecidas, enquanto os que não se adaptam e não desistem costumam romper as doutrinas de suas épocas e construir as doutrinas do futuro

A noção de ciência que é propagada pelas massas é a ideia de um trabalho que gera produtos pelos mesmos mecanismos que qualquer outro trabalho. Um cientista aprende e segue as regras, e assim produz descobertas, segundo essa noção. Essa ideia também caracteriza a "ciência de laboratório" como algo em perfeita continuidade com aquilo que os pensadores clássicos chamavam de ciência. Essa noção de ciência é falsa nos dois aspectos. Nenhuma descoberta pode ser feita reciclando os sistemas conceituais existentes, e mesmo novas experiências empíricas são limitadas por tal prática, porque o conhecimento desperta através da experiência mas não está na experiência em si mesma, e sim nos conceitos formados para explicá-la, como muitos filósofos compreenderam. As descobertas de maior impacto são feitas por indivíduos que compreendem o conhecimento em sua essência e, portanto, não se se apoiam na estrutura automática que rege as universidades e o mercado. Também é falso que a ciência como compreendida atualmente seja a evolução da ciência clássica. Características como a burocracia, o mercado e a individualidade como entendida atualmente, além do foco em experimentos absolutamente controlados , são aspectos que mudam a própria essência do que, por exemplo, um metafísico do século XVII chamaria de ciência.O misticismo é bastante nítido nas formas antigas de ciência e tecnologia, e existe um motivo para isso.

Aqueles que tomam a ciência como uma busca são mal compreendidos pelo senso comum atual e pelos acadêmicos que misturam os criadores e os imitadores. O trabalho científico profundo responde justamente ao mesmo anseio inicial da religião. A melhora e embelezamento do corpo, a cura do incurável. O conhecimento do microcosmo ao macrocosmo. A descrição e o domínio sobre o cérebro. A artificialização da natureza. Os traços da ciência profunda são semelhantes aos da religião profunda, no seguinte sentido. A verdadeira pesquisa científica não é uma contemplação inútil, como um lazer para a classe média. nem é um movimento por algum benefício em particular.A verdadeira pesquisa busca a evolução da humanidade como um todo. A ciência, quando compreendida em sua profundidade, depende de várias proposições das quais a religião também depende, e por isso as tensões entre aqueles que entendem religião e ciência como polos opostos sempre retorna. A ciência depende da ideia de que existe uma verdade, isto é, que o mundo existe independe da percepção para existir, e também da ideia de que essa verdade é mais profunda que aquilo que a experiência ingênua pode alcançar, e que uma série de doutrinas e métodos nos aproximam dessa verdade. 

A ciência entendida de forma mesquinha é oposta à espiritualidade porque nasceu de uma cultura de objetificação, simplificação, automatização e particularização. Em uma palavra, "desencanto", como disse Weber. Nessa forma mal compreendida, os textos relevantes são lidos mal e ensinados dogmaticamente. Os vivos servem o trabalho deixado pelos mortos, em vez do contrário, e o progresso se torna impossível, porque as instituições relacionadas são dominadas pela hipocrisia e pela falta de distinções importantes. Discursos progressistas se unem a estruturas de autoridade extremamente retrógradas. A consequência da ciência ser praticada fora de contexto, como uma profissão voltada para o lucro e para o narcisismo é que cada vez maior é o número de pesquisadores com pouco conhecimento epistemológico, pesquisadores que simplesmente seguem as regras e imitam aquilo que parece funcionar, não sabendo distinguir entre fatos, teorias, experimentos, experiência, realidade, ilusão, falsidade, verdade, validade, etc.

Uma semelhante perda de essência ocorre hoje com as grandes religiões, também. A preferência pelo automático, particular e superficial desestrutura as instituições religiosas tanto quanto as científicas. Isso porque a religião em geral absolutamente não é um investimento particular, por definição, porque é a busca pelo todo, pelo absoluto, pelo eterno. Apesar desse senso de comunidade, ou comunhão, é necessário a essa busca a liberdade intelectual, que não pode existir quando um indivíduo interpreta o mundo direcionado pelo raciocínio de outro indivíduo. Cada indivíduo precisa observar os fatos e criar representações por conta própria, e apenas depois compartilhar e receber ideias com outros. Infelizmente isso pouco ocorre hoje, porque textos como a bíblia são lidos de maneira incrivelmente superficial, fora de contexto histórico e simbólico, e pregados à população que aceita esse dogmatismo por uma mistura de medo, ignorância e preguiça.  

Por exemplo, é notável na bíblia um código moral extremamente severo em relação à sexualidade e à reprodução. Claramente o texto bíblico condena a homossexualidade e também as relações heterossexuais que não tem a reprodução como finalidade. Mas será que um cristão deve hoje sustentar esses ideais? Em geral, conhecer os motivos por traz de uma proposição é mais importante que a conhecer a proposição em si. Se imaginarmos a quantidade de pessoas que habitava a Terra e a precariedade dos conhecimentos médicos, além da ausência do cosmopolitismo, no período e na região na qual a bíblia provavelmente foi escrita, nós podemos compreender que naquela época a decisão de não ter filhos poderia de fato ser igualada a cometer um crime, assim como toda decisão que desorganizasse a estrutura familiar, porque a espécie humana corria de fato risco de se extinguir em doenças, guerras e períodos de escassez. É nesse sentido em que a bíblia deve ser lida com o contexto em mente, porque hoje em dia o contexto é um tanto diferente. A interpretação é mais importante que o texto interpretado. Aquilo que lemos deve servir aos vivos e honrar os mortos, e não servir como um modo de viver no passado como fazem os cegamente conservadores.

Com uma interpretação literal da bíblia, a única interpretação que ambos ateus e cristão dogmáticos estão dispostos a aceitar, as instituições religiosas se tornam espaços de hipocrisia, porque é evidente que práticas descritas na bíblia como o apedrejamento de mulheres adúlteras não são toleráveis atualmente, mas as passagens com esse conteúdo são também lidas como a revelação literal e analítica de Deus. Sustentar uma tese que não pode ser aplicada é o início da hipocrisia que corrompe moralmente uma instituição. De algumas poucas hipocrisias chegamos ao ponto no qual existe o cristianismo não praticante, o ponto no qual ateus são frequentemente mais cristãos que os auto declarados cristãos, porque a hipocrisia quanto as fundamentos ruins se alastra aos fundamentos bons. Qualquer doutrina se degenera se não for administrada e renovada através da razão. Além disso, qualquer doutrina pode ser utilizada como forma de manipulação.

Os nossos erros atuais em relação à espiritualidade são provocados por uma trama complexa. A religião em geral foi usada em inúmeros períodos históricos como justificativa política para guerras e hierarquias de riqueza, mas assim se consolidaram as maiores tradições religiosas que temos hoje, porque através da infraestrutura (riqueza e poder) erguida por líderes aparentemente corruptos se propagaram os discursos religiosos que ainda contém algo do conhecimento e do propósito dos antigos, mas é frequentemente difícil discernir o conhecimento das tradições pragmáticas. Os próprios religiosos têm essa dificuldade, mas aqueles que tentam criticar as religiões de fora a têm em um grau ainda maior e geram insegurança nos religiosos, que recorrem a figuras de autoridade, prática que é justamente uma das principais causas da confusão em relação aso textos religiosos.  

É muito infeliz que os textos religiosos sejam tão mal interpretados e usados ou repudiados tão banalmente. Nós estamos justamente em uma época na qual o estabelecimento de valores profundos é dificultada pela falta de distinção entre sujeito e objeto, ou melhor, pelo respeito do universo enquanto subjetividade absoluta. Assim como a histeria era a doença psicológica da era vitoriana, por causa da repressão moral ao corpo. as doenças de nossa época são a depressão, a impossibilidade de direcionar próprias energias para algo, e o narcisismo, a impossibilidade de direcionar as energias para algo além do próprio sujeito, ou seja, males causados pelo impacto da cultura de objetificação quando recusada ou aceita, respectivamente.

Como uma busca de conhecer o absoluto, o espírito, o sentido da existência e tudo que se relaciona a isso, a religião em geral pode despertar muitas coisas profundas em seu estudo adequado, em seu estudo que pretende não simplesmente seguir ou recusar regras mas sim evoluir teorias e dar continuidade a um legado de conhecimento e evolução.  

sábado, 4 de abril de 2015

Karma

Você provavelmente já ouviu falar em Karma, como um princípio de ação e reação envolvendo nossas ações e intenções. Na interpretação mais comum desse conceito, ele significa algo como" ações boas terão um retorno positivo, e ações más terão um retorno negativo", algo bem próximo da noção de justiça divina, sustentada por muitos cristãos.

Essa é uma interpretação válida, mas não creio que ela seja nem a mais adequada nem a mais proveitosa. Primeiramente porque é falso que agir com maldade resulta sempre em punições, e também é falso o inverso. Se uma sociedade está organizada de maneira corrupta, ela irá em todos os aspectos recompensar justamente seus corruptores. Uma sociedade de mercenários recompensa os que lucram sem escrúpulos, uma sociedade de hipócritas recompensa os mentirosos, e assim por diante. Igualmente, em uma sociedade de mercenários aqueles que recusam o lucro indigno são motivo de riso, e em uma sociedade de hipócritas os indivíduos sinceros são odiados.

Existem algumas particularidades importantes na filosofia budista em comparação com as ideias mais comuns sobre a natureza humana no ocidente, Na filosofia budista não existe um "eu" separado de nossas ações no mundo, o que significa que nós somos aquilo que fazemos. Além disso, não existe separação entre pensamento e ação. Pensar também é agir. As consequências dessas ideias simples são muito interessantes. Nós não causamos nada no ambiente ao nosso redor sem causarmos antes algo semelhante em nós mesmos. Se conto uma mentira, afasto de mim mesmo a verdade antes de fazê-lo com qualquer outro indivíduo, eu enfraqueço e manipulo a mim mesmo por gastar energia formulando uma falsidade e por preservar em mim o hábito da covardia.

Com esses pressupostos em mente você pode entender minha proposta sobre o significado de Karma. O Karma significa que praticar ações( isto inclui pensar, lembre-se) de um certo tipo nos leva a praticar mais ações da mesma natureza. Se procuro praticar atos de generosidade, a tendencia é que eu pense nisso com cada vez mais facilidade, frequência e foco, e que eu esteja cada vez mais cercado de situações nas quais minha generosidade é útil ou até esperada por outros. Isso não significa que "Deus me pagará em dobro", como costuma-se dizer. Pelo contrário. Toda virtude tem seu custo. A beleza de se praticar uma ação virtuosa está no cultivo da virtude, não em uma de troca interesseira. De fato, aqueles que sempre priorizam as recompensas imediatas e particulares raramente desenvolvem virtudes, e nunca o fazem de maneira profunda e duradoura. Afinal, quando agimos com egoísmo afastamos de nós os generosos, porque nossos pensamentos e intenções são mais aparentes do que gostaríamos de imaginar.

Essas ideias me agradam. Acredito que nós gostamos de superestimar nossa capacidade de ocultar, como se nós tivéssemos um santuário interno imaculado por nossas ações e palavras maldosas e tolas. A forma como nós separamos sujeito e meio externo favorece a ignorância e a preguiça porque corta pela metade processos de causa e efeito que deveriam ser observados de maneira ampla. A ideia de Karma, do poder das ações sobre as futuras ações, favorece que um indivíduo cultive artisticamente em si o que deseja vivenciar no mundo, o que é a verdadeira base da virtude.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Arte e Liberdade

A partir da arte, criamos diversas fontes de entretenimento, como filmes, videogames, espetáculos teatrais, literatura, etc. Infelizmente, muitos indivíduos são levados ao engano de reduzir a arte ao entretenimento, assim como muitos reduzem o conhecimento à ciência, por prestarem atenção apenas aos benefícios práticos, particulares e previsíveis da racionalidade.

Dessa redução resulta o que Adorno e Horkheimer chamaram de "indústria cultural", um modelo de produção de obras de arte como mercadorias. É evidente que se o lucro é a finalidade principal de um artista, suas obras serão tão próximas quanto possível daquilo que já é consumido pelo público, e nunca irão conter nenhuma mensagem que possa questionar esse público. Enquanto a arte é respeitada entre os filósofos como uma forma de trazer ao público novas experiências impactantes, a arte enquanto mercado dá ao público aquilo que a propaganda o ensina a querer.

Qualquer um que já assistiu uma seleção de videoclipes em algum canal de televisão sabe que alguns músicos são apenas fenômenos passageiros e intensos gerados pela propaganda enquanto outros são verdadeiros artistas,embora não alcancem um público tão amplo quanto os artistas comerciais. As músicas mais consumidas são justamente as de menor qualidade, produzidas por artistas claramente sem talento e sem nada de interessante a dizer, com letras e melodias vergonhosas. O gosto do público parece ser controlado pela propaganda, tanto quanto as características dos artistas medíocres.

A industria dos videogames também sofre semelhante fenômeno. As franquias que mais repetem clichês tanto nos roteiros quanto na jogabilidade são as mais lucrativas e com maior publicidade. "Homem virtuoso tem a família morta por alguma espécie de terrorista e parte em uma jornada para se vingar do principal responsável, No meio do caminho, percebe que está salvando o mundo. Trata-se de um jogo de tiro. " Acredito ter descrito com poucas perdas mais de dez mil jogos recentes.

Quanto mais criativo for um artista, maior será a influência de sua personalidade, de suas experiências e de suas ideias em suas obras. Disso resulta que não é possível que um trabalho artístico profundo toque a alma de todo o público, ou mesmo da maioria do público, por uma questão de afinidade. Por isso a arte que reproduz e recicla aquilo que o público já contém gera enormes lucros em comparação com a arte criativa. É evidente que a indústria cultural favorece mulheres seminuas e pseudo-gangsters cantando idiotices sobre o amor, por exemplo. Esses esteriótipos sempre ganham atenção, seja por amor ou por ódio.

Essa manipulação e massificação da arte gera uma perda ainda maior que a redução no número dos grandes artistas. Você, leitor(a), talvez conheça que Goethe foi reconhecido por inúmeros intelectuais como um magnífico filósofo, embora não tenha escrito tratados filosóficos. Enquanto isso, os filósofos profissionais foram e são desprezados entre os profundos. Qual é a razão para isso?

Joseph Beuys, um artista do século XX, é famoso por algumas performances como passar horas trancado em um quarto com um coiote não domesticado e construir uma enorme parede de gordura animal.  Quando interrogado sobre seus motivos para tais atos, sua respostas frequentemente era que a arte liberta a humanidade elevando a criatividade e a intuição a partir de experiências. Mas como isso funciona? -- A propósito, você pode conferir ele mesmo se explicando neste link https://www.youtube.com/watch?v=Mo47lqk_QH0  , se quiser.

Tudo que nós pensamos depende em alguma medida de nossas experiências com o mundo. Nosso pensamento não é diretamente determinado pela experiência, mas é determinado a ser influenciado por ela. Isso significa que se mantemos contato sempre com as mesmas coisas, manteremos sempre as mesmas ideias, e que se temos contato com muitas coisas inesperadas, provavelmente mudamos nossas ideias. Além disso, a criatividade não é um talento ou uma anomalia, nem nada místico. A criatividade é simplesmente o conhecimento do mundo revelando aquilo que pode ser transformado, ou seja, a união do conhecimento com o desejo de transformação. Por isso afirmei que certos artistas, os que produzem arte e não mercadorias, são mais criativos que demais, porque eles criam usando experiências e ideias autênticas e pessoais, em oposição aos outros que criam com base em esteriótipos e em uma projeção do público alvo, igualmente estereotipada, uma projeção que visa apenas prever o lucro.

A partir disso podemos afirmar que quando um artista produz uma experiência sensorial como uma expressão artística de seu ser, seu público tem a oportunidade de ter uma experiência única. Ter tal experiência fornece elementos novos para o pensamento e, portanto, para a criatividade. Além disso, ter contato com o trabalho de pessoas que superaram a racionalidade fria que a humanidade instaurou sobre si mesma nos lembra de que isso é possível.

Como já defini em outros textos, a liberdade é o potencial de construir com a racionalidade algo diferente daquilo que atualmente existe ao nosso redor, possibilitando que transformemos nosso meio e a nós mesmos a partir de nossa vontade. Para tanto, é necessário que conheçamos esse meio, observando naquilo que é aquilo que poderia não ser, e também o inverso. Se nossa experiência é limitada, também é limitada nossa liberdade, porque desconhecemos a existência das possibilidades. Dessa forma, o trabalho artístico é capaz de libertar a humanidade, oferecendo a nós experiências cada vez mais repletas de ideias e emoções, além de um ímpeto criativo cada vez maior.

No desperdício desse potencial todo está a terrível perda causada pela indústria cultural. Em todas as épocas a humanidade foi libertada inicialmente, especialmente de suas próprias idealizações da natureza, não por filósofos e obviamente não por cientistas ou sacerdotes, mas sim por artistas, que criaram experiências que provocaram pensamentos e emoções de maneira não invasiva, diferentemente dos sistemas racionais que costumam pesar sobre nosso pensamento com um excesso informações e dogmas. O fato da maior parte da produção artística de hoje ser viciada de alguma maneira pelo mercado é a base para a perpetuação de nossa reprodução cega dos dogmas e da rotina, e a expressão máxima de uma racionalidade fria que nos reduz a algo menor.

A arte tem o potencial para ser a faísca da liberdade, e também aquilo que a preserva uma vez estabelecidas a ciência e a religião. A virtude depende essencialmente da liberdade, porque sem a capacidade de agir segundo ideais, não somos capazes de resistir ao meio que é frequentemente cruel e dominado por vícios sem absorver essas características. Sendo assim, não é surpreendente que em nossa época a maioria se vende com tanta facilidade e passividade. Fizemos de nossa arte um comércio e transformamos a contemplação em consumo. Estamos vendendo nossa alma a  Mefistófeles, e por muito pouco.  

segunda-feira, 23 de março de 2015

O Custo da Tirania

Conhecemos com clareza que a escravidão custa muito ao escravo. Como resultado, temos uma abundância de discussões sobre como podemos nos libertar de nossos opressores, e sobre quem eles são. Entretanto, é notável nas discussões abundantes na internet que o termo "opressão" está sendo usado de maneira irregular e superficial. Talvez isso se deva ao fato de que nossa discussão sobre o poder está incompleta. Temos uma noção clássica de poder, a de uma influência que um ente exerce sobre o outro. Isso não é o suficiente. O que a escravidão custa ao tirano? O que o poder exerce sobre aquele que parece ser dominante em uma relação?

O que nos falta é a compreensão de que todas as partes envolvidas em uma relação de poder são igualmente influenciadas por ela. Isso porque para que possamos causar algo, precisamos ter determinadas propriedades que nos concedam um potencial de influência e, principalmente, não ter outras propriedades neutralizariam esse potencial. Por exemplo, para que eu seja capaz de coagir alguém pela força bruta, preciso ter força bruta e crueldade, e preciso não ser razoável. Para que eu mantenha meu poder, preciso manter minhas propriedades. Se eu me transformar, vou perder meu poder e sofrer a vingança dos meus escravos, que certamente me punirão tão severamente quanto eu os puniria se eles tivessem sido os primeiros a tentar romper nossa relação de poder. A tensão violenta entre um tirano e seus escravos se acumula em ambas as partes. Dessa forma, um tirano de qualquer espécie se degenera intelectualmente e emocionalmente tanto quanto seus escravos. Em ambas as partes o potencial humano não se realiza, neutralizado por uma relação de poder corrupta.

Além disso, para que alguém faça um papel em relação a mim, eu também preciso fazer um determinado papel correspondente. Por exemplo, se eu pretendo me casar com uma mulher que seja uma "dona de casa" submissa e absolutamente dependente de mim, precisarei reduzir a mim mesmo a um estereótipo para esse fim, precisarei ser o homem trabalhador autoritário e sem fraquezas. Para condenar alguém a um papel, preciso me condenar a ser a contraparte. É a falta dessa compreensão que leva algumas feministas a não compreenderem que o machismo não é necessariamente favorável na opinião um homem, ou mesmo necessariamente desfavorável na opinião de uma mulher. Ambos homens e mulheres podem ser corruptos por esse tipo de relação de poder, e ambos são igualmente capazes de desejar algo diferente.

Não acredito que seja possível o fim de todas as relações de poder, mas parece claro que podemos abandonar certas relações em particular. Todos nós, obviamente, não queremos ser escravos. Porém, muitos de nós acreditam que manipular aos outros lhes é favorável, não percebendo que pagam por esse crime com a própria humanidade. Para reter prisioneiros, é preciso tornar-se carcereiro, ou seja, é preciso viver na prisão. O primeiro passo para evitar as relações corruptas de poder é, portanto, a auto-crítica, talvez até uma autodestruição controlada. Que não haja dúvida: Os vícios de nossos semelhantes são também os nossos. Nós nos distanciamos dos monstros quando compreendemos o quanto eles nos são próximos.