A " natureza humana " foi utilizada como axioma em muitas teses científicas e filosóficas ao longo da história. Muitos pensadores buscam provar suas teses e reforçar suas prescrições argumentando que a natureza humana é necessariamente benevolente e altruísta, ou que ela é necessariamente egoísta e inclinada à maldade, que todo ser humano tem essas e aquelas características independentemente de suas particularidades. A teoria da evolução muitas vezes é citada com esse propósito, em afirmações como " O ser humano é uma espécie poligâmica porque os machos são geneticamente programados para gerar tantos descendentes quanto possível " ou " o ser humano é uma espécie monogâmica porque espécies mais evoluídas se reproduzem e garantem o sucesso da prole em processos mais complexos ". As mais diversas proposições morais, políticas e existenciais são frequentemente justificadas por interpretações da teoria da evolução, além de implicações tiradas das recentes descobertas da neurociência. Em que medida argumentos evolucionistas são válidos em discussões que estão além do domínio estrito da biologia ?
Qual é o alcance daquilo que podemos derivar dos recentes avanços na biologia ?
A teoria da evolução não resolve o problema de como a vida surgiu, tanto menos o problema de qual é seu propósito. Seu propósito é explicar como a vida se diversificou e se tornou o que experimentamos hoje, sua proposição central é a de que o processo de reprodução dos seres vivos produz novas espécies e modificações nas espécies existentes ao longo das gerações. Isso significa que o número de espécies diferentes existentes no mundo não é fixo, e que as características da vida estão em constante, embora lenta, transformação. Isso claramente nega a ideia de que um Deus criou a vida tal como ela é hoje. O curioso, porém, é que argumentos evolucionistas frequentemente são utilizados para negar a existência de um Deus como um todo, para negar a existência de um propósito intrínseco à vida ou para defini-lo desta ou daquela forma, além de explicar como a vida teria de fato se originado. Muitas opiniões já foram dadas sobre essas questões, uns afirmando que a evolução é apenas uma teoria, outros afirmando que Deus pode ter criado a vida para evoluir da forma que observamos, enfim, se trata de um debate complexo mas que não me parece tão interessante quanto a pergunta " Se a teoria da evolução não é direcionada às questões sobre a origem e propósito da existência, por quê esses debates existem ? ". Em vez de fazermos afirmações e negações em algum dos vários debates nos quais o evolucionismo é usado como base teórica e retórica, tomemos por um momento esses debates enquanto um fenômeno cultural e político.
Nossas instituições dividem o conhecimento em áreas principalmente por uma questão de organização. Se tratamos do conteúdo dessas " áreas ", não parece razoável afirmar que as teorias da biologia são em si separadas das da química ou mesmo das da física, por exemplo. As proposições de uma disciplina tem implicações diretas nas demais porque, simplesmente, não pode existir uma verdade para a biologia e outra para a física, todas as disciplinas se dirigem à mesma existência. A noção de " interdisciplinariedade " costuma ser citada como uma promessa de inovação didática e intelectual das instituições de ensino superior, como se fosse uma incrível novidade que estamos construindo. A cultura de especialização, sim, é uma construção, enquanto a proposta de interdisciplinariedade é simplesmente uma tentativa de aliviar os efeitos negativos de um foco exagerado na especialização ao longo de quatro gerações de intelectuais
( ou melhor, de trabalhadores ). Por mais que as disciplinas possam parecer amplas o suficiente se olhadas individualmente, quando consideramos o todo da história do conhecimento e das artes é notável o quanto nossas disciplinas são restritas. Tente fazer um biólogo compreender psicanálise, ou fazer um filósofo da ciência compreender física de fato, e você notará que a especialização cria hábitos, naturaliza pressupostos e cria limitações de discurso e de pensamento. Isso é agravado ainda pelo fato de que nas universidades existe uma espécie de competição em torno da " excelência ", na qual especialistas disputam entre si testando quem é mais ou menos especializado. Doutores em filosofia se orgulham de terem lido um único livro de um único autor quinhentas vezes, doutores em neurociência se orgulham de serem plenos conhecedores da parte V1 do córtex visual, etc. Ser excelente nesse contexto significa conhecer cada átomo da ponta de um alfinete. Não é surpreendente que o próprio capitalismo que gerou essa cultura de especialistas criou a demanda por mais " interdisciplinaridade ".
A especialização exagerada não apenas falha como projeto intelectual, mas também falha psicologicamente. Um intelectual extremamente dedicado a pensar sobre a condição humana e a compartilhar sua visão em obras e debates dificilmente irá se satisfazer em passar a vida toda falando sobre o primeiro parágrafo da Crítica da Razão Pura ou sobre o genoma dos gorilas.
Um cientista observa e experimenta os movimentos da cultura tanto quanto um sociólogo ou um antropólogo, e ele certamente terá suas próprias ideias sobre os mais diversos eventos e dilemas que não são contidos no campo acadêmico no qual se especializou. Porém, sob o pressuposto de que mais especialização significa mais excelência e afirmações mais seguras, essa rica e saudável tendência de um indivíduo ampliar os próprios horizontes gera uma série de discussões inúteis, porque o cientista especializado amplia seu universo de discurso sem ampliar seu universo de estudo. A especialização em áreas tem o benefício de colocar certos objetos e assuntos em evidência, mas tem o efeito negativo de excluir naturalmente muitos assuntos importantes. Por exemplo, o enfoque em experimentos controlados e dados empíricos quantificáveis claramente favorece o desenvolvimento tecnológico, mas excluí diversos objetos como a subjetividade, a cultura, a metafísica, a arte, etc. Isso porque esses objetos são em si mesmos apoiados por axiomas, proposições filosóficas, teses holísticas e outras formas de construir conhecimento e interpretar o mundo que não se mostram em processos reprodutíveis e quantificáveis. Cientistas que fazem afirmações filosóficas e políticas bombásticas e questionáveis frequentemente usam o fato de terem feito experimentos em laboratórios como um reforço retórico, como se um método mais restrito de pesquisa implicasse em proposições menos questionáveis, ignorando todos os pressupostos filosóficos e todas as implicações epistemológicas da infraestrutura da pesquisa acadêmica.
Esse aspecto de, por um lado, insuficiência e, por outro, de supervalorização da superespecialização explica porque cientistas que conhecem bem a teoria da evolução acabam a usando de maneira indevida*¹ na justificação ( ou crítica ) de determinados valores. Entretanto, muitos pensadores de outras áreas buscam na evolução o apoio retórico que há em se afirmar que a natureza humana é desta ou daquela forma, o que exige que a forma geral desses argumentos seja examinada de perto. Existem alguns elementos que são presentes em qualquer argumento que utiliza uma concepção de natureza humana como base, elementos que estão presentes tanto nos argumentos religiosos quanto nos científicos. Essa forma de argumento é sempre teleológica, ou seja, sempre define uma finalidade específica para cada determinada característica da condição humana através da análise dos processos que possibilitam tal característica. Por exemplo, um evolucionista poderia argumentar que a homossexualidade é um distúrbio afirmando que a finalidade da sexualidade é a reprodução e que uma relação sexual que não tem essa finalidade sequer indiretamente precisa ser algum tipo de falha -- ou que a homossexualidade não é um distúrbio porque cria relações afetivas que tem um papel na sobrevivência da espécie. Algo semelhante ocorre com a discussão em torno do altruísmo, na qual uns afirmam que nós somos geneticamente programados para propagar nosso material genético sobrevivendo tão bem quanto possível ( independentemente do que aconteça com outros materiais genéticos nesse processo ) enquanto outros afirmam que essa tarefa envolve relações de simbiose que resultam em afetos que conhecemos, ou que Deus nos fez para amar nossos próximos, ou que o homem é bom mas a sociedade o corrompe, etc. Valores comunicados em formato teórico.
Existe ou não um propósito geral para a existência humana ? Essa questão pode ser respondida de qualquer forma a partir de qualquer um dos grandes sistemas de interpretação da existência. De um ponto de vista religioso ou espiritual, o mundo pode ter sido criado com um propósito específico e misterioso ou pode ter sido criado para nós*². De um ponto de vista materialista ou científico, toda a existência pode estar determinada em uma direção específica por uma cadeia de causas e efeitos ou o universo pode ser como um todo indeterminado. A questão acaba sendo simplesmente interpretada da forma mais agradável para cada sujeito, independentemente de quaisquer evidências científicas ou reformas na religião, e nada deve ser feito para interferir nisso. Isso nos deixa apenas as questões mais específicas, como a finalidade da sexualidade. Porém, se colocamos de lado o problema da finalidade geral da existência como algo que apenas pode ser resolvido objetivamente por alguém que conhece o universo ( atual, passado e possível ) de maneira suficiente para avaliá-lo como um livro ou um filme, não temos nenhuma razão para levar a sério quaisquer prescrições ou normas baseadas em uma " natureza humana ". Por exemplo, é bastante claro que o corpo humano se desenvolve biologicamente em dois tipos complementares, e que a reprodução na sua forma mais natural ocorre através de relações sexuais entre um indivíduo de cada tipo. Mas, se a partir dessa base biológica toda a diversidade que podemos observar é possível, ou não existe finalidade nessa estrutura biológica, ou a finalidade existe mas envolve a existência de diversas formas de sexualidade, o que torna todos os argumentos que citam o propósito aparente na estrutura sexual em si irrelevantes para todas as questões morais. Se existe algo que diverge do propósito de uma dada característica da natureza humana, ou o suposto propósito é na verdade uma vontade do indivíduo que afirma que ele existe, ou o propósito é mais amplo do que o indivíduo gostaria que fosse. Em todo caso, nas questões morais e políticas, os argumentos que utilizam a natureza humana como base são uma forma dogmática de se afirmar desejos particulares -- uma hipocrisia bastante comum nas ciências sociais e na filosofia.
Essa forma de argumento também é vaga e pouco convincente fora das discussões morais e políticas. Por exemplo, quando tentamos examinar e avaliar um comportamento inesperado ou que não provocamos, tendemos a observar antes as consequências da ação e depois o processo, para assim fazer um juízo sobre a origem. Se trata de um processo de inferência, no qual utilizamos algumas informações fatuais disponíveis para elaborar uma explicação plausível para o ato observado. Porém, pensadores que se focam demais em uma parte da base fisiológica que possibilita a vida costumam tratar essa inferência como se fosse uma dedução, ou seja, como se o conhecimento das partes básicas fosse o suficiente determinar o resultado final ou a natureza do processo, como se a organização lógica e matemática das teorias que tratam de entes como células e proteínas fosse constituinte da própria essência do mundo, e não simplesmente um hábito de pensamento.Além disso, análises de comportamento tendem a associar a cada ação um objetivo ou necessidade, o que é uma pressuposição de todo falsa. Se uma ação pode ter mais de uma consequência positiva e todos nós observamos isso com muita facilidade, então uma ação também pode ter mais de uma causa ou motivação, e pode ter inclusive ter como origem uma cadeia de conteúdos subjetivos muito mais complexa que o aspecto do comportamento que observamos. Imagine uma pessoa que não respeita uma fila. Essa pessoa pode estar resolvendo seus piores conflitos mentais, pode estar tendo o melhor dia de sua vida, pode estar a caminho de cometer suicídio, pode nem ter percebido que havia uma fila, mas o comportamento que você observa é o ato de ignorar a fila, e você interpreta isso como um exemplo de egoísmo, por causa do seu interesse imediato de chegar ao fim da fila. Ou então, uma vez que você conhece mais sobre a pessoa, você excluí a motivação simples de chegar ao fim da fila sem esperar, como se uma pessoa não pudesse querer ignorar a fila e achar isso imoral e estar distraída e estar decidida e assim por diante. Nas operações mais simples de lógica com as quais nos habituamos, e que acumulamos para formar as proposições científicas que são complexas principalmente neste sentido, proposições contraditórias são mutuamente exclusivas. Na subjetividade humana, porém, essa regra é usada apenas quando é conveniente. Se dermos razão à psicanálise, a subjetividade em em si é apoiada em uma base de contradições. Quando examinamos as coisas e os seres com nosso mecanicismo ingênuo e nossa noção liberal de racionalidade, uma complexidade de causas e efeitos --que talvez nem possam ser concebidos dessa forma -- é reduzida por um enviesamento mesquinho, com interesse de se preservar uma zona de conforto.
Todo pensador, artista ou cientista, sabe ( ou é forçado a fingir ) que o conhecimento envolve a desconstrução de certos interesses que bloqueiam ou direcionam algumas ideias. Entretanto, nossa cultura de especialistas favorece que proposições mesquinhas e ingênuas sejam declaradas com arrogância e espetáculo, que textos afirmando " eu provei que a liberdade não existe ! " sejam publicados e cultuados por indivíduos que sequer conhecem noções elementares de metafísica. O mais interessante é que esses discursos geralmente são apresentados em uma forma que anula qualquer consequência que tais proposições poderiam ter. Ainda no exemplo da liberdade ou do livre-arbítrio, artigos que afirmam a partir de experimentos tão conclusivos para a questão quanto observar aquela pessoa ignorando a fila que não pode existir liberdade costumam também reconhecer que a " ilusão " de liberdade existe e tem influência em nossas ações. A mensagem de tais publicações é algo como " A liberdade não existe, mas nós vivemos sob a ilusão de que ela existe ! ". Se a noção de liberdade tem influência sobre ações e a sensação de escolha sempre ocorre em nossos pensamentos, o que exatamente significa " ilusão " nesse contexto ? A miragem que um viajante no deserto tem de estar vendo uma fonte de água à distância não o levaria a conseguir realmente água, então poderíamos chamar a miragem de " uma ilusão ", como um aviso. No caso da noção de livre-arbítrio ou da sensação de escolha, porém, se trata de algo que motiva ações efetivas sobre a realidade e, segundo muitos desses artigos, de algo que é uma impressão permanente da mente humana. Nesse sentido as cores também são ilusões, e também todas as demais impressões do mundo externo, dadas em sensações e ideias, e não como as coisas em si mesmas. Tudo que experimentamos são ilusões, nessa definição. O que definiria, então, o conceito de " realidade ", que é pressuposto nesses discursos e que deveria ser de alguma maneira oposto ao de " ilusão " ? Qual é o propósito em se fazer essa distinção nessa forma ? Aparentemente, apenas o espetáculo --afirmar " a liberdade é uma ilusão " é mais forte que afirmar " em um experimento realizado com algumas pessoas, observamos tendências muito claras no tempo de reação dos voluntários em algumas tarefas simples e binárias. "
A noção de " natureza humana ", por si mesma, obscurece uma série de questões e provavelmente é a razão pela qual muitos dos debates morais e políticos acabam se tornando disputas entre evolucionistas e criacionistas, afinal se tratam dos dois sistemas mais populares de interpretação da origem, natureza e finalidade da existência. Um caso bastante ilustrativo é o da discussão acerca da natureza da homossexualidade -- se é uma característica ou uma escolha, se é um problema ou não, etc. O argumento cristão mais comum para definir a homossexualidade como um distúrbio é " Deus fez homem e mulher e o sexo é feito para a reprodução, então aqueles que escolhema homossexualidade estão mal orientados ". Muitos tentaram argumentar contra essa posição tentando provar que a homossexualidade não é uma escolha, como se isso fosse relevante para a questão. Como estabelecemos antes, a finalidade intrínseca da sexualidade ( se existe ) é ou ampla o bastante para que a homossexualidade seja possível, ou é de todo irrelevante diante daquilo que podemos fazer
com a base fisiológica, com a criação de Deus -- a questão moral acerca da homossexualidade ( se existe ) está na discussão sobre suas consequências para a sociedade e sobre o que significa, em termos de princípios, que a sociedade não interfira contra as relações homossexuais. Toda discussão moral em torno de sua origem, sobre como o " gene gay " foi transmitido de geração em geração, sobre a orientação sexual ser ou não uma escolha, toda essa discussão é um embaraço retórico causado pelo fato de que pessoas frequentemente tentam ignorar as particularidades de cada sujeito e naturalizar generalizações tolas com falácias. As éticas orbita em torno da questão " o que podemos fazer e porquê o faríamos ? " e não em torno de palpites sobre o propósito intrínseco das coisas.
Sendo um conjunto de conhecimentos e de interpretações sobre como as coisas são, e não sobre como as coisas devem ser, a teoria da evolução ( e a ciência em geral ) nos ajuda a descobrir novas possibilidades na tecnologia, na medicina, enfim, possibilidades que quando descobertas podem resultar em novas artes, em transformações na cultura, em novos debates. Imagine, por exemplo, que um dia nossa ciência pode se tornar avançada o suficiente para impedir a maioria dos tipos de morte e envelhecimento. Isso seria em diversos sentidos uma verdadeira revolução, mas as descobertas científicas por si mesmas não resolveriam os eventuais dilemas éticos em torno dessas possibilidades. A teoria da evolução também pode ser usada como inspiração ( metafórica ) para a busca por ideias superiores, por uma sociedade mais evoluída que a nossa, para outras formas de evolução além de acidentes genéticos convenientes. Para além disso, porém, a teoria da evolução sempre serve como um discurso apenas aparentemente científico que comunica realmente valores arbitrários. Os debates acerca da questões de gênero são amplamente contaminados com afirmações como " as fêmeas são geneticamente programadas para... ", como se uma mulher com uma subjetividade e uma história fosse redutível a uma fêmea, no sentido genérico e estritamente fisiológico. Os debates acerca das questões econômicas são permeados por afirmações do " darwinismo social ", um acúmulo de usos amadores da teoria da evolução e do discurso científico de uma forma geral.
Esses erros existem e persistem porque nós tratamos a ciência como a autoridade máxima no campo intelectual, como se a ciência fosse o único caminho sério para investigar e interpretar a realidade, como se a ciência fosse pertinente em todas as ocasiões concebíveis. " Isso não é científico " é uma forma comum de se desmerecer ( falaciosamente ) algum argumento, como se o tipo específico de investigação que entendemos por ciência encerrasse em si todos os tipos possíveis de questões relevantes, como se uma de nossas ferramentas fosse pertinente em absolutamente qualquer caso. " Ciência " se tornou um título de autoridade , sinônimo de " saber com certeza " , o que é bastante irônico de várias formas.
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Notas :
*1: Algumas afirmações de especialistas populares na mídia chegam a cometer erros conceituais de biologia. Afirmações lamarquistas são extremamente abundantes em diversos espaços e contaminam quase completamente o senso comum (e.g http://www.vanityfair.com/culture/2007/01/hitchens200701 ). Isso não apenas é um uso inadequado da biologia, mas também um uso incorreto. A proposição de que as espécies ativamente selecionam características superiores como força física ou inteligência é ultrapassada. Características diferentes ou em graus diferentes surgem nas espécies por combinações genéticas com resultados finais parcialmente aleatórios. Indivíduos nascem com algumas mudanças em comparação com seus progenitores e o material genético que codifica essas mudanças é transferido para uma próxima geração se o indivíduo se reproduz, o que não implica que a característica é conveniente para o habitat em questão, embora isso seja mais provável que sim. Supondo que é verdade que homens não são atraídos por mulheres engraçadas, isso de maneira nenhuma significaria que a evolução removeria das mulheres a capacidade para o humor, ou que o humor não poderia existir por questões culturais e psicológicas. Uma característica apenas é determinada a desaparecer na seleção natural se ela de alguma maneira impede que a reprodução aconteça. De resto, os resultados são em grande parte aleatórios, com uma tendência para que características que facilitam a reprodução sejam transmitidas melhor.
*2: É interessante observar que mesmo nos mitos ( ou narrativas, como queira ) das religiões, muito pouco é dito sobre o propósito da existência como um todo. As religiões que assumem a figura de Deus afirmam que ele tem algum plano, mas não qual é esse plano. Nas religiões hindus, a mônada vital, ou a energia absoluta simplesmente existe, e podemos conduzir nossas existências particulares a um retorno ao estado primordial, mas o que se seguiria disso não é dito. As religiões pagãs nunca afirmaram nenhum propósito geral, e mesmo seus deuses são figuras com existências particulares. De todo modo, o conhecimento de que a finalidade das coisas não nos concerne e não interfere nos nossos afazeres parece ser bastante antigo.
quinta-feira, 23 de junho de 2016
segunda-feira, 11 de abril de 2016
A Definição de Poder
Na compreensão clássica e intuitiva que ainda é amplamente pressuposta nas mais diversas discussões políticas, " poder " se refere a uma espécie de relação " de cima para baixo ", como costuma-se dizer. Se um indivíduo tem poder sobre outro, o segundo indivíduo é de alguma maneira controlado pelo primeiro em uma relação de causa e efeito, entre a vontade do primeiro e as possibilidades do segundo. Quando trata-se de algum tipo de poder político ou afetivo que é considerado injusto ou malicioso, termos como " dominação " e " opressão " são utilizados. Nessa lógica, sempre existe um opressor e um oprimido, afinal o poder é uma simples relação de causa e efeito na qual a pessoa dominada é passiva e a dominadora é ativa... e má. Felizmente para quem quer ver essas questões sociais se resolvendo de alguma maneira e infelizmente para quem encontrou uma zona de conforto intelectual nos conceitos de dominação e opressão, essa noção simples de poder não explica os fenômenos que observamos nas relações políticas e afetivas.
Na afirmação de que a dominação constrange violentamente o oprimido limitando suas possibilidades e sua personalidade funda-se a lingua franca de incontáveis movimentos sociais. Mas, independentemente de sua posição diante de quaisquer um dos movimentos sociais contemporâneos, eu lhe convido -- tenho que lhe convidar -- a fazer uma pergunta que lhe poderá ser impalatável ou trivial ( ambos sendo sintomáticos ), " Quais são os benefícios da dominação para a pessoa dominada ? ". O discurso da opressão é dialético e motiva o engajamento político afirmando uma luta de classes entre dois tipos relevantes para o movimento em questão ( e.g homem e mulher, brancos e negros, etc ). Mas você deve saber que não existe dialética no mundo, apenas em nossas mentes. O mundo é único e infinito, a dialética falha em explicações da existência como um todo por ser incapaz de conter em seu sistema ao mesmo tempo todo o esplendor e todo o horror do mundo, e falha em explicações específicas de fenômenos por explicar algo a partir de dois tipos protagonistas, enquanto sempre existe na realidade ainda um terceiro, e ainda um quarto... e ainda um infinito. Mas existe algo motivador, algo que impulsiona na dialética -- a simplificação de um dado fenômeno social sob dois tipos, a " luta de classes ", cria um conceito a ser combatido, um conceito a ser colocado sobre indivíduos que serão então combatidos em nome da causa.
Por exemplo, o adepto dogmático do marxismo olha para a realidade buscando entender quem é o burguês e quem é o proletário, sem se perguntar antes se existem outros tipos relevantes ou se os mencionados existem de fato -- esse é o seu a priori. Uma vez que o burguês é identificado, seus interesses devem ser combatidos, seja quem for o burguês e seja quais forem os seus interesses ( afinal, certamente são " interesses burgueses " ), pois isso caracteriza o combate da ideia odiada de desigualdade econômica, assim o marxista encena na realidade concreta a narrativa de seu sistema dialético favorito. Outro exemplo é o feminismo quando se torna violento contra indivíduos ( associados com um conceito de dominação ) ou quando excluí transexuais ( porque são contra exemplos da simplificação dialética em questão ). A dialética não satisfaz intelectualmente. Sua simplicidade dogmática, inquisidora e desprovida de autocrítica não se passa por filosofia diante daqueles que almejam ideias supremas. A dialética não satisfaz o desejo por verdade mas, entretanto, satisfaz muito bem o desejo por certeza. No campo metafísico ela permite uma delimitação despreocupada do assunto, ela permite que uma série enorme e complexa de fenômenos seja abordada dentro do universo de referências estrito do dialético. No campo político, ela faz do indivíduo ao seu lado um tipo, um tipo amigo ou inimigo, um opressor mau ou um companheiro oprimido -- a dialética permite a solidariedade sem empatia e a violência sem antipatia. Será a dialética que atrai tantos adeptos uma simples alavanca psicológica? Um truque?
Talvez seja uma trapaça sem benefício. Que estranha ideia! O discurso da crítica dialética da dominação talvez não seja mais que um sintoma da " dominação ", ou, colocando em termos menos ludibriados, um sinal de confusão, de fúria, de sofrimento, de medo, de sensação de impotência... um sinal de fraqueza. Essa fraqueza política e afetiva é realmente causada pela cultura e isso por si confere valor às tentativas de compreensão e superação como as feministas, por exemplo. Mas a natureza e forma do diagnóstico feito por uns " intelectuais "*¹ e reproduzido por uma massa de " oprimidos " que se identificam com conceitos reproduzidos é um sinal de algo que não é em nada inédito na história humana. Posta em perspectiva histórica, não é estranha a enorme e violenta confusão na qual as " lutas " contemporâneas tão frequentemente incorrem. A simplificação do bem e do mal feita pela igreja católica em seus tempos sangrentos era persuasiva pelas mesmas razões pelas quais a simplificação da geopolítica feita pelo governo estadunidense em suas campanhas militares ainda é atrativa hoje. Esquecer de si mesmo e não criticar os próprios absurdos -- aquele que aponta o dedo e atira pedras alcança apenas essa finalidade. Unidos ao mesmo tempo pelo desejo de " melhorar o mundo " e sob o propósito covarde de fugir da fórmula socrática, os salvadores contemporâneos ocultam a monstruosidade e a futilidade intrínseca da violência que praticam ou apoiam, e culpam algum fantasma por não estarem buscando efetivas melhoras a partir de si mesmos.
Chegamos a esse nível de depravação quando somos prisoneiros do medo e da fúria cega -- falamos do sofrimento com palavras de ódio em vez de buscar nosso poder que foi ocultado a nós mesmos e de mostrar esse caminho a outros por amor. Nenhuma simplificação maniqueísta conduzirá a uma sociedade superior, e a dialética não é mais que um formato lógico para que essas simplificações pareçam valiosas. A dialética não fala sobre o mundo, ela fala sobre quem fala. Se aquela pergunta levantada lhe pareceu desagradável ou em si ofensiva, não foi pelo seu conteúdo político ( que lhe é inacessível ) mas pelo fato de que a questão derruba sua visão confortável da realidade como o castelo de cartas que de fato é. Se a pergunta lhe pareceu trivial e você imaginou imediatamente diversos benefícios práticos para a pessoa " dominada ", você também pensa em termos de " oprimido " e " opressor " ... e se identifica com o segundo tipo. O aspecto geral do que se observa nas reações de muitos indivíduos diante de qualquer ideia que possa complexificar a visão da realidade que os motiva mostra que o aspecto psicológico e afetivo do poder e seus fenômenos locais precedem seu aspecto político e seus fenômenos em massa. O indivíduo existe e age dentro da cultura antes de ter acesso às ideias que explicam essa cultura, que a explicam apenas a posteriori. A dialética, seja de Hegel ou de Marx, é um método filosófico invertido que explica o indivíduo e os pequenos grupos como se " o todo " ou " o estado " não fossem antes de tudo conceitos dependentes do indivíduo e de suas relações micropolíticas. Para falar na língua corrente, a dialética não empodera. Com a atenção voltada para esses tipos que inventados e imprimimos sobre as coisas e pessoas que vemos, deixamos de prestar atenção em nossas limitações e possibilidades efetivas. Se trata de um método filosófico fácil que quase sempre é expressado em linguagem difícil sem uma profundidade maior que aquela possível em outros métodos. Tais aglomerados de jargão e de enigma podem servir hoje como recurso heurístico, quando muito, e mesmo nesses casos as alternativas costumam parecer melhores.
As tentativas de explicar as relações de poder pela via da ciência objetiva comentem um erro semelhante, algo que é sinalizado na entediante redundância que se reinicia toda vez que alguém usa um argumento biológico para definir " homem " e " mulher ", desta ou daquela forma. Podemos falar sobre nós mesmos em termos de " macho " e " fêmea ", de sobrevivência, de genética, etc, mas não é assim que experimentamos e pensamos a política no seu aspecto imediato, efetivo e não é nesses termos que nossas relações de autoridade são definidas. As discussões políticas e culturais estão em um âmbito diferente daquele no qual as " evidências empíricas " podem ser utilizadas com alguma " objetividade ". As supostas contribuições científicas sempre se mostram demasiadamente interpretadas e selecionadas quando são empregadas no âmbito das discussões de poder e autoridade. Posta nossa herança positivista, o discurso científico quase sempre surge nessas questões como uma forma de dissolver a opinião do indivíduo em um todo, assim como a dialética. Por exemplo, quando um homem que afirma os tipos do " homem dominador " e da " mulher submissa " discute com uma mulher que questiona essa tipologia, o homem frequentemente emprega a linguagem biológica de " macho " e " fêmea ", buscando na autoridade indevidamente conferida à ciência a certeza que foi tirada de seu discurso com boas razões. Outro exemplo foi a interação entre Marx e os anarquistas como Proudhon e Bakunin. Em toda ocasião na qual um anarquista questionou a posição de Marx sobre os rumos da internacional socialista e da " revolução ", Marx respondeu tratando seu crítico como se certamente fosse um ignorante completo, um socialista utópico e não científico, como ele se autodeclarou. Tão mal colocada e desastrada quanto a argumentação sexista de " macho " e " fêmea " foi a argumentação profética e proselitista de Marx nos momentos nos quais ele garantiu e definiu a revolução. Essa forma de argumento, seja qual for a referência de autoridade utilizada, sempre consiste em recusar qualquer possibilidade de contra argumento afirmando que existe um processo oculto e determinado que o crítico ignora, que o crítico tem uma natureza que refuta sua crítica. Se discordo de um marxista é porque sou burguês e minha consciência é invertida, se discordo de um neoliberal é porque sou comunista mesmo sem saber disso, se discordo de uma feminista é porque sou um " macho branco opressor ", e se discordo de um " macho branco opressor " é porque sou feminista. Se minha pele fosse azul esse seria o argumento principal por parte de todos para refutar minhas críticas. "Você não entende a verdade porque é azul, existe uma luta de classe entre vocês Smurfs e nós humanos. " Apelo à autoridade e aversão à empatia.
Realmente não tenho certeza se a dialética e o uso da ciência objetiva são em si mesmos métodos de argumentar falaciosamente se colocados no contexto em questão ou se isso ocorre com tanta frequência simplesmente porque somos muito suscetíveis à tentação de empregar falácias para refutar quaisquer pontos de vista que criticam nossos hábitos e forçam os limites de nossa zona de conforto. De qualquer forma sei que a tentação é presente e intensa, e que a dialética e a ciência são muito facilmente usadas como instrumentos de autoritarismo e de hipocrisia -- o aspecto sensacionalista de ataque pessoal que nossas discussões políticas e antropológicas frequentemente tomam não me deixa mentir. A estúpida simplicidade filosófica combinada com a estúpida complicação política cria um círculo vicioso que pode ser quebrado se um de seus aspectos melhorar. É dessa forma que exercícios filosóficos metafísicos são capazes de ter impacto no campo político. A elucidação daquilo que está sendo de fato dito e proposto funciona como um espelho que mostra sua face horrível e odiosa enquanto você acredita estar lutando por uma boa causa. Evidentemente não estou falando da aglomeração de jargões que domina a academia. Colocar exatamente os mesmos discursos que circulam na internet em termos de citações bibliográficas e de leituras anacrônicas das filosofias clássicas ( e.g " Aristóteles foi liberal " ) é um exercício absolutamente impotente e, no fundo, uma " dominação " dos movimentos sociais. Francamente acredito que as chamadas " feministas radicais " têm metade do caminho andado simplesmente pelo fato de terem entendido a futilidade daquela produção de jargões da academia para a academia na mudança de determinadas estruturas culturais. Entretanto, o afastamento de certas instituições intelectualmente empobrecedoras não é o bastante para se encontrar a riqueza necessária -- é preciso ainda que o indivíduo atinja ideias superiores para que sua atuação política possa conduzir a uma sociedade superior. Esse caminho para as ideias superiores necessariamente passa por todo tipo de pergunta, seja do tipo agradável ( ou politicamente conveniente ) ou não.
Aquilo que passou a ser chamado de dominação pode ter pontos positivos tanto quanto pode ter pontos negativos, " As coisas não são boas ou más em si mesmas ". Para que alguém permaneça na posição de " dominado ", é necessário que exista algo na " dominação " que possibilite essa permanência -- uma " opressão " absoluta e inequivocamente maligna provocaria um colapso psicológico em pouco tempo. Além disso, sabemos que a " dominação " acontece mesmo enquanto o " dominador " não está presente ou ciente, porque a relação de poder é interiorizada no domínio psicológico. A explicação para isso não pode ser tão simples quanto " a violência gera medo ", porque existe poder limitador sem violência ( como é o caso das celebridades e dos renomados especialistas ) e existem pessoas que servem não por medo. Mais do que isso, por diversas vezes as chamadas vítimas de opressão discordam completamente de seus " liberadores ", afirmando que não estão em nenhuma relação de opressão e tomando grande ofensa pela acusação daqueles que entendem como seus parceiros ou mestres que são chamados por outros de seus opressores.
Pessoas escolhem as relações que julgamos como limitadoras ou corruptas e muitas vezes consideram tais relações um grande bem. Disso podemos extrair duas lições: A primeira e mais simples é que a prática tão comum entre os " liberadores ", a prática de denunciar e criticar a " opressão " no outro, o taxando de vítima mesmo contra sua vontade, é verdadeiramente venenosa e mostra realmente desrespeito pelo indivíduo a ser " liberado ". A segunda e mais importante agora é que o poder não se dá de forma unilateral " de cima para baixo ", mas como algo mantido por todas as partes envolvidas. O poder de um imperador é mantido também por seus súditos, se as coisas chegam ao ponto no qual seu poder é mantido apenas através da inquestionável força da violência, sua própria cabeça logo é cortada ( afinal não é ele quem detêm a violência de fato ) e seu posto de poder é delegado a outro a quem o exército serve voluntariamente. Na guerra e na violência bruta, situações da sociedade nas quais o poder pode ser exercido como relação de causa e efeito e pela via de fato, no caso a ameaça à vida e o sofrimento físico, todo poder é frágil tal como a vida humana é frágil. Um tirano violento pode derramar sangue e dar ordens que serão seguidas por amor à vida, mas logo seu próprio sangue é derramado por outro. Não se sobrevive na " lei dos peixes " por muito tempo. Fora desses casos, entretanto, o poder não é frágil e chega a parecer eterno, como se criasse uma estrutura social efetivamente determinista -- " o sistema ". As estruturas de poder que temos na sociedade mantém os mesmos tipos de relações através dos séculos, enquanto a coerção violenta direta age sobre indivíduos e em casos particulares. Com isso em mente, está evidente que nossa questão não é entender ou denunciar a violência direta, mas refletir sobre a passagem da violência fatual para o plano das ideias. Nossa definição clássica de poder é insuficiente justamente na explicação da sociedade em relativo estado de paz, nos casos que mais vivenciamos e mais discutimos -- que discutimos com pouca eficiência e inteligência.
Poder, definido propriamente , é uma forma de influência. Podemos manter isso dos clássicos. Acrescento a isso que para que eu possa influenciar algo ou alguém, preciso ter em mim as propriedades necessárias para isso. Por exemplo, para que eu possa ameaçar alguém fisicamente, preciso ser suficientemente forte ou ter o sangue frio para que minha ameaça seja convincente, do contrário não tenho o poder de intimidação. Isso significa que quando intimido alguém, mostro também que tenho uma determinada característica em mim, mostro que sou determinado de uma certa forma. É principalmente por essa razão que o poder não pode ser unilateral. Para que eu mantenha um prisioneiro, preciso para isso me tornar um carcereiro, para que eu limite alguém com ameaças preciso com isso me limitar a ser um bruto -- eis o sentido da afirmação de Bakunin de que " se existe um escravo ao meu lado, eu não sou livre " . Também pela mesma razão, não é inteligente julgar os " oprimidos " como bons e os " opressores " como maus, porque o aspecto geral da relação de poder empobrecedora mostra que todos são pobres em decorrência dela em algum sentido. Por exemplo, a superação do machismo não seria apenas positiva para as mulheres, mas também para os próprios homens, especialmente aqueles que o adotam e tornam-se assim seres tolos, brutos e limitados tais como a ideia vigente de masculinidade prescreve. A ideia de que existe na sociedade algum grupo de dominadores que vive muito feliz em função do sofrimento de todos os outros é uma ideia cegamente otimista, que estabelece bem e mal muito claramente. A realidade, mais sombria mas com possibilidades efetivas de ação, é que ninguém está feliz. A ideia de que se um grupo " oprime " é porque isso o beneficia pressupõe que um humano não defenderia uma ordem que prejudica ele mesmo, pressupõe agentes racionais no sentido liberal e utilitarista, um sentido bastante ingênuo e simplificado. Cada ano que passa na história humana mostra com mais clareza que humanos frequentemente são simplesmente suicidas, espalhando a desgraça para si mesmos e para os outros sem nenhuma recompensa que não pudesse ser obtida por outros caminhos. Ricos e pobres, brancos e negros, homens e mulheres, todos somos tolos, somos fracos e sofremos em função dos mecanismos da sociedade e dos mecanismos de nossos próprios egos. Todos temos a tarefa de evoluir nossas ideias, ajudando uns aos outros a superar quaisquer barreiras para nossa evolução intelectual individual e coletiva. Se recusamos essa tarefa, nós não merecemos uma sociedade superior -- porque somos então " ainda mais macacos que todos os macacos ".*²
A associação de proporção entre poder e liberdade é amplamente presente no liberalismo clássico e no senso comum, mas essa associação é de fato inversamente proporcional. Mais liberdade significa menos poder, e mais poder significa menos liberdade. Ter mais poder significa ter mais influência, e ter mais influência significa ter mais características definidas ou ter características mais profundamente definidas. Poder requer determinação, e mais determinação significa menos liberdade. " Omni determinatio est negatio " -- a liberdade é uma afirmação de possibilidade, uma abertura, enquanto o poder determina em uma afirmação de fato. As promessas de obtenção de poder e liberdade ao mesmo tempo, como a promessa capitalista, são enganosas em todos os sentidos. Cada segundo que se passa restringe seu conjunto de possibilidades. O ser com o maior número de possibilidades é o recém-nascido. Entretanto, o recém-nascido é também o ser menos poderoso, aquele com menos força, menos amor, menos posses, etc. Com a restrição de possibilidades que ocorre a cada momento da vida, o indivíduo perde possibilidades mas ganha relações, memórias, traços de personalidade, etc -- perde possibilidades mas pode ganhar com isso valor. O processo de restrição de possibilidades é inerente à vida e termina na morte, onde o ser se torna passado. O que realmente faz a diferença entre uma vida mais ou menos livre é em que medida o morto, ao longo de seu processo de ser, se determinou ou foi determinado de forma externa. Fazer escolhas significa precisamente auto-determinação, em contraste com a determinação pela degradação natural do corpo ou pelo fato social. O ser que perde suas possibilidades sem ganhar poder se perde, sua história desaparece na infinitude do universo, esse ser se torna o nada. É dessa forma que consumimos nossa essência quando somos tratados como coisas. Somos determinados por indivíduos ou processos que querem de nós apenas um resultado específico, e que não querem que nós tenhamos nenhum poder desnecessário para esse fim.
O caminho para uma vida que pode ser chamada de livre -- no sentido de que as determinações foram escolhidas -- está na determinação voluntária das relações, dos afetos, da profissão, etc. Entretanto, quase toda determinação que não é dada pela coerção violenta óbvia nos parece ser voluntária, algo que se mostra falso quando consideramos o efeito da propaganda, da moralidade e das contradições em nossas mentes. É nesse aspecto que a crítica das ideias que circulam na sociedade é capaz de " empoderar ". A determinação da mente com a qual nós nos orientamos é em grande medida dada por ideias, e a determinação das ideias é a mais fraca e mais mutável. Com uma mudança nas ideias ocorre uma mudança de orientação. Dessa forma podemos purificar uns aos outros das ideias que nos orientam ao nada, das ações que gastam nossa energia com finalidades instrumentais alheias. Entretanto, deve ser claro que essa purificação consiste em libertar-nos uns aos outros dos obstáculos que nos mantém com pouco ou nenhum poder, pouca ou nenhuma determinação. O discurso tolo e relativista de que nós devemos abandonar os afetos, o trabalho ( no sentido de dedicação ), a identidade e tudo aquilo que nos determina é um discurso em todos os sentidos " dominado ", pois justamente convence o indivíduo a seguir um caminho sem auto-determinação, exatamente o mesmo que " o sistema " ou " a sociedade burguesa " incentiva aos que não se adequam aos tipos favoritos de suas respectivas sociedades. Um indivíduo que recusa a determinação, pensando apenas em possibilidades, isto é, em fantasias, não é um sujeito maravilhoso, uma obra de arte viva, não é o übermensch, mas apenas um fraco que perde seu valor a cada segundo de insistência nessa estupidez. O discurso de desconstrução total não é nenhuma crítica, pois afirma exatamente a mesma armadilha mental que a sociedade capitalista, a ideologia de que a liberdade é um bem em si que deve ser buscado em um código moral, uma das principais razões pelas quais a maioria de nossa população tem muito pouco poder, especialmente quando se trata de poder político.
Ser livre é uma característica humana, nós somos seres com possibilidades e podemos antecipar muitas delas em nossa orientação mental. Nosso problema certamente não é falta de liberdade, mas o fato de que somos quase sempre restritos a fantasiar com possibilidades em vez de agirmos e tomarmos o poder para nós. Seu valor está na forma e intensidade de seu poder, de sua determinação, não em sua liberdade ou em suas fantasias narcisistas. A liberdade não é o que está em disputa e não é aquilo que sociedade pode ou deve lhe prometer -- o poder é o que se disputa e o que revela a natureza da sociedade. A garantia da " liberdade de expressão " é muito frequentemente usada como propaganda do estado. Afirma-se que somos livres porque podemos questionar qualquer coisa. Certamente somos livres, isto é parte de nosso ser. Mas que poder temos sob esse estado ? Esse mesmo estado frequentemente usa da violência bruta e óbvia no instante em que o questionamos não em palavras fantasiosas mas em ações, em protestos, em transgressões, etc. Por exemplo, a crítica do machismo cai em uma armadilha se luta para poder afirmar que uma mulher pode escolher com quem quer se relacionar. Essa possibilidade simplesmente existe, afirmar isso é afirmar que essa liberdade essencial humana depende de algum reconhecimento. A verdadeira questão a ser feita é sobre o que acontece com a mulher uma vez que ela de fato se envolve com alguém. A exigência do reconhecimento da liberdade é um sinal de " dominação ", pois sugere que alguma autoridade detêm tamanho poder sobre aquilo que é simplesmente essência do ser humano.
Maquiavel, no século 14, já havia percebido que o segredo para uma ordem política duradoura está em permitir que os cidadãos subordinados esbravejem de alguma forma, em pequenos discursos de pequena agressividade contra o estado que os frustra. Eis porque o discurso da " denúncia da opressão " não é mais uma via para o poder. Você pode, por exemplo, denunciar que a história da filosofia é machista acreditando que questiona com isso o poder atualmente estabelecido ( o fato de que a esmagadora maioria dos reconhecidos como grandes filósofos são e serão homens ). Mas precisamente incentivando que você faça essa reclamação, lhe elogiando por isso, a sociedade lhe incentiva a ignorar a pergunta : " Por quê eu não sou uma grande filósofa ? ". Denunciar a situação social de qualquer grupo de uma forma que atribui ao fato social a " opressão " sem também responsabilizar o indivíduo por suas escolhas é uma grande concessão ao estado -- significa dizer que as autoridades vigentes podem decidir a natureza de nosso poder. Se trata de uma troca de nosso poder pelo nada. Sua impotência também é sua responsabilidade. Fugir dessa responsabilidade com desculpas é confortável para sua identidade mas perpetua sua fraqueza, principalmente quando a desculpa utilizada é algo que de fato existe. Quando você culpa seu oposto dialético e sua luta de classes pelo seu fracasso, você atribui a um processo a orientação do seu destino -- essa é precisamente a forma mais pura de coerção da mente . A razão certamente é o começo da crítica, mas o discurso é corrompido e se tona passivo se nos esquecemos da finalidade da crítica : Mudar nossa orientação mental para uma capaz de obter poder, de conquistar valor e de brilhar de forma esplendorosa na história, com ações em vez de simplesmente com palavras, fantasias e possibilidades.
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Notas :
*1 - Os intelectuais a quem me refiro com certo sarcasmo não são as pessoas que de fato levantaram questões sociais e filosóficas com suas obras criativas e profundas, mas os muitos acadêmicos que são resignados a usurpar o discurso alheio e que ensinam a seus estudantes que eles/elas devem fazer o mesmo, os que ensinam que ser inteligente significa reproduzir os conceitos da moda, que pensar com a própria autoridade e responsabilidade é em si um erro. No exemplo do feminismo, uma mulher que escreve obras filosóficas originais faz algo de grande valor que de fato contribui muito para a mudança das ideias na sociedade e, se sua obra singular aborda as questões sociais, traz força para os movimentos sociais -- e certamente não apenas no campo do feminismo. Entretanto, os acadêmicos que apenas repetem e ensinam a repetir as teorias das grandes feministas são tipos resignados, que não buscam o poder que suas autoras favoritas obtiveram. Assim como os comentadores de filosofia degeneram o espírito filosófico quando vendem a ideia de que citar autores clássicos é fazer aquilo que eles fizeram ( filosofia propriamente dita ) , essa prática no feminismo acadêmico não faz nenhum papel empoderador ou emancipatório. Veja, como exemplo, os " nietzschianos " acadêmicos, veja como eles são ortodoxos e desprovidos de criatividade, como eles não fazem nada que seja uma " ponte para o além-do-homem ". Ou então os " kantianos ", pregando a filosofia de Kant como dogma, incentivando a hipocrisia e a covardia intelectual em vez do " esclarecimento ". Ambos esses tipos de postura intelectual existem porque indivíduos, por um lado, se sentem atraídos a afirmar que são " kantianos ", " nietzschianos ", " feministas ", qualquer coisa interessante, enquanto, por outro, não estão dispostos a pagar o preço que as figuras fascinantes da história do pensamento pagaram. A demanda por mudança social se torna assim, ao longo do tempo constrangida dentro dessa estrutura, apenas uma tentativa narcisista de afirmação de identidade, uma fantasia de liberdade.
*2 - A expressão foi utilizada em" Assim falou Zaratustra ", onde Nietzsche compara a diferença entre o além-do-homem e a humanidade atual com a diferença entre a humanidade e os macacos. Por causa da foma como Nietzsche expressou sua ideia, a noção de além-do-homem pode parecer praticamente uma superstição, mas ela de fato chama a atenção para algo de grande valor, que foi compreendido no oriente muito melhor que no ocidente : O ser humano pode evoluir para além do que conhecemos hoje como a " humanidade ". Essa evolução não é biológica, técnica ou nazista, mas simplesmente filosófica -- e cultural, como consequência. Penso que uma pauta geral dos movimentos sociais atuais é conduzir-nos a uma sociedade, em vários sentidos, superior. Mas uma vida em sociedade superior requer uma cultura superior, e uma cultura superior não se faz com a soma de indivíduos que vendem suas riquezas do espírito com tanta facilidade como nós. O cultivo da profundidade do espírito é muitas vezes visto como algo " elitista ", como se fosse em si a afirmação de desigualdades sociais. Mas como nós, com nossa pobreza de espírito, poderíamos um dia viver em uma sociedade bem administrada ? Como nós, que não cultivamos nossa singularidade, a esplendorosa beleza que todos podemos ter em uma forma diferente, como nós poderíamos viver em uma sociedade que respeita todos os indivíduos ? Que tipo de " revolução " nós faríamos ?
Na afirmação de que a dominação constrange violentamente o oprimido limitando suas possibilidades e sua personalidade funda-se a lingua franca de incontáveis movimentos sociais. Mas, independentemente de sua posição diante de quaisquer um dos movimentos sociais contemporâneos, eu lhe convido -- tenho que lhe convidar -- a fazer uma pergunta que lhe poderá ser impalatável ou trivial ( ambos sendo sintomáticos ), " Quais são os benefícios da dominação para a pessoa dominada ? ". O discurso da opressão é dialético e motiva o engajamento político afirmando uma luta de classes entre dois tipos relevantes para o movimento em questão ( e.g homem e mulher, brancos e negros, etc ). Mas você deve saber que não existe dialética no mundo, apenas em nossas mentes. O mundo é único e infinito, a dialética falha em explicações da existência como um todo por ser incapaz de conter em seu sistema ao mesmo tempo todo o esplendor e todo o horror do mundo, e falha em explicações específicas de fenômenos por explicar algo a partir de dois tipos protagonistas, enquanto sempre existe na realidade ainda um terceiro, e ainda um quarto... e ainda um infinito. Mas existe algo motivador, algo que impulsiona na dialética -- a simplificação de um dado fenômeno social sob dois tipos, a " luta de classes ", cria um conceito a ser combatido, um conceito a ser colocado sobre indivíduos que serão então combatidos em nome da causa.
Por exemplo, o adepto dogmático do marxismo olha para a realidade buscando entender quem é o burguês e quem é o proletário, sem se perguntar antes se existem outros tipos relevantes ou se os mencionados existem de fato -- esse é o seu a priori. Uma vez que o burguês é identificado, seus interesses devem ser combatidos, seja quem for o burguês e seja quais forem os seus interesses ( afinal, certamente são " interesses burgueses " ), pois isso caracteriza o combate da ideia odiada de desigualdade econômica, assim o marxista encena na realidade concreta a narrativa de seu sistema dialético favorito. Outro exemplo é o feminismo quando se torna violento contra indivíduos ( associados com um conceito de dominação ) ou quando excluí transexuais ( porque são contra exemplos da simplificação dialética em questão ). A dialética não satisfaz intelectualmente. Sua simplicidade dogmática, inquisidora e desprovida de autocrítica não se passa por filosofia diante daqueles que almejam ideias supremas. A dialética não satisfaz o desejo por verdade mas, entretanto, satisfaz muito bem o desejo por certeza. No campo metafísico ela permite uma delimitação despreocupada do assunto, ela permite que uma série enorme e complexa de fenômenos seja abordada dentro do universo de referências estrito do dialético. No campo político, ela faz do indivíduo ao seu lado um tipo, um tipo amigo ou inimigo, um opressor mau ou um companheiro oprimido -- a dialética permite a solidariedade sem empatia e a violência sem antipatia. Será a dialética que atrai tantos adeptos uma simples alavanca psicológica? Um truque?
Talvez seja uma trapaça sem benefício. Que estranha ideia! O discurso da crítica dialética da dominação talvez não seja mais que um sintoma da " dominação ", ou, colocando em termos menos ludibriados, um sinal de confusão, de fúria, de sofrimento, de medo, de sensação de impotência... um sinal de fraqueza. Essa fraqueza política e afetiva é realmente causada pela cultura e isso por si confere valor às tentativas de compreensão e superação como as feministas, por exemplo. Mas a natureza e forma do diagnóstico feito por uns " intelectuais "*¹ e reproduzido por uma massa de " oprimidos " que se identificam com conceitos reproduzidos é um sinal de algo que não é em nada inédito na história humana. Posta em perspectiva histórica, não é estranha a enorme e violenta confusão na qual as " lutas " contemporâneas tão frequentemente incorrem. A simplificação do bem e do mal feita pela igreja católica em seus tempos sangrentos era persuasiva pelas mesmas razões pelas quais a simplificação da geopolítica feita pelo governo estadunidense em suas campanhas militares ainda é atrativa hoje. Esquecer de si mesmo e não criticar os próprios absurdos -- aquele que aponta o dedo e atira pedras alcança apenas essa finalidade. Unidos ao mesmo tempo pelo desejo de " melhorar o mundo " e sob o propósito covarde de fugir da fórmula socrática, os salvadores contemporâneos ocultam a monstruosidade e a futilidade intrínseca da violência que praticam ou apoiam, e culpam algum fantasma por não estarem buscando efetivas melhoras a partir de si mesmos.
Chegamos a esse nível de depravação quando somos prisoneiros do medo e da fúria cega -- falamos do sofrimento com palavras de ódio em vez de buscar nosso poder que foi ocultado a nós mesmos e de mostrar esse caminho a outros por amor. Nenhuma simplificação maniqueísta conduzirá a uma sociedade superior, e a dialética não é mais que um formato lógico para que essas simplificações pareçam valiosas. A dialética não fala sobre o mundo, ela fala sobre quem fala. Se aquela pergunta levantada lhe pareceu desagradável ou em si ofensiva, não foi pelo seu conteúdo político ( que lhe é inacessível ) mas pelo fato de que a questão derruba sua visão confortável da realidade como o castelo de cartas que de fato é. Se a pergunta lhe pareceu trivial e você imaginou imediatamente diversos benefícios práticos para a pessoa " dominada ", você também pensa em termos de " oprimido " e " opressor " ... e se identifica com o segundo tipo. O aspecto geral do que se observa nas reações de muitos indivíduos diante de qualquer ideia que possa complexificar a visão da realidade que os motiva mostra que o aspecto psicológico e afetivo do poder e seus fenômenos locais precedem seu aspecto político e seus fenômenos em massa. O indivíduo existe e age dentro da cultura antes de ter acesso às ideias que explicam essa cultura, que a explicam apenas a posteriori. A dialética, seja de Hegel ou de Marx, é um método filosófico invertido que explica o indivíduo e os pequenos grupos como se " o todo " ou " o estado " não fossem antes de tudo conceitos dependentes do indivíduo e de suas relações micropolíticas. Para falar na língua corrente, a dialética não empodera. Com a atenção voltada para esses tipos que inventados e imprimimos sobre as coisas e pessoas que vemos, deixamos de prestar atenção em nossas limitações e possibilidades efetivas. Se trata de um método filosófico fácil que quase sempre é expressado em linguagem difícil sem uma profundidade maior que aquela possível em outros métodos. Tais aglomerados de jargão e de enigma podem servir hoje como recurso heurístico, quando muito, e mesmo nesses casos as alternativas costumam parecer melhores.
As tentativas de explicar as relações de poder pela via da ciência objetiva comentem um erro semelhante, algo que é sinalizado na entediante redundância que se reinicia toda vez que alguém usa um argumento biológico para definir " homem " e " mulher ", desta ou daquela forma. Podemos falar sobre nós mesmos em termos de " macho " e " fêmea ", de sobrevivência, de genética, etc, mas não é assim que experimentamos e pensamos a política no seu aspecto imediato, efetivo e não é nesses termos que nossas relações de autoridade são definidas. As discussões políticas e culturais estão em um âmbito diferente daquele no qual as " evidências empíricas " podem ser utilizadas com alguma " objetividade ". As supostas contribuições científicas sempre se mostram demasiadamente interpretadas e selecionadas quando são empregadas no âmbito das discussões de poder e autoridade. Posta nossa herança positivista, o discurso científico quase sempre surge nessas questões como uma forma de dissolver a opinião do indivíduo em um todo, assim como a dialética. Por exemplo, quando um homem que afirma os tipos do " homem dominador " e da " mulher submissa " discute com uma mulher que questiona essa tipologia, o homem frequentemente emprega a linguagem biológica de " macho " e " fêmea ", buscando na autoridade indevidamente conferida à ciência a certeza que foi tirada de seu discurso com boas razões. Outro exemplo foi a interação entre Marx e os anarquistas como Proudhon e Bakunin. Em toda ocasião na qual um anarquista questionou a posição de Marx sobre os rumos da internacional socialista e da " revolução ", Marx respondeu tratando seu crítico como se certamente fosse um ignorante completo, um socialista utópico e não científico, como ele se autodeclarou. Tão mal colocada e desastrada quanto a argumentação sexista de " macho " e " fêmea " foi a argumentação profética e proselitista de Marx nos momentos nos quais ele garantiu e definiu a revolução. Essa forma de argumento, seja qual for a referência de autoridade utilizada, sempre consiste em recusar qualquer possibilidade de contra argumento afirmando que existe um processo oculto e determinado que o crítico ignora, que o crítico tem uma natureza que refuta sua crítica. Se discordo de um marxista é porque sou burguês e minha consciência é invertida, se discordo de um neoliberal é porque sou comunista mesmo sem saber disso, se discordo de uma feminista é porque sou um " macho branco opressor ", e se discordo de um " macho branco opressor " é porque sou feminista. Se minha pele fosse azul esse seria o argumento principal por parte de todos para refutar minhas críticas. "Você não entende a verdade porque é azul, existe uma luta de classe entre vocês Smurfs e nós humanos. " Apelo à autoridade e aversão à empatia.
Realmente não tenho certeza se a dialética e o uso da ciência objetiva são em si mesmos métodos de argumentar falaciosamente se colocados no contexto em questão ou se isso ocorre com tanta frequência simplesmente porque somos muito suscetíveis à tentação de empregar falácias para refutar quaisquer pontos de vista que criticam nossos hábitos e forçam os limites de nossa zona de conforto. De qualquer forma sei que a tentação é presente e intensa, e que a dialética e a ciência são muito facilmente usadas como instrumentos de autoritarismo e de hipocrisia -- o aspecto sensacionalista de ataque pessoal que nossas discussões políticas e antropológicas frequentemente tomam não me deixa mentir. A estúpida simplicidade filosófica combinada com a estúpida complicação política cria um círculo vicioso que pode ser quebrado se um de seus aspectos melhorar. É dessa forma que exercícios filosóficos metafísicos são capazes de ter impacto no campo político. A elucidação daquilo que está sendo de fato dito e proposto funciona como um espelho que mostra sua face horrível e odiosa enquanto você acredita estar lutando por uma boa causa. Evidentemente não estou falando da aglomeração de jargões que domina a academia. Colocar exatamente os mesmos discursos que circulam na internet em termos de citações bibliográficas e de leituras anacrônicas das filosofias clássicas ( e.g " Aristóteles foi liberal " ) é um exercício absolutamente impotente e, no fundo, uma " dominação " dos movimentos sociais. Francamente acredito que as chamadas " feministas radicais " têm metade do caminho andado simplesmente pelo fato de terem entendido a futilidade daquela produção de jargões da academia para a academia na mudança de determinadas estruturas culturais. Entretanto, o afastamento de certas instituições intelectualmente empobrecedoras não é o bastante para se encontrar a riqueza necessária -- é preciso ainda que o indivíduo atinja ideias superiores para que sua atuação política possa conduzir a uma sociedade superior. Esse caminho para as ideias superiores necessariamente passa por todo tipo de pergunta, seja do tipo agradável ( ou politicamente conveniente ) ou não.
Aquilo que passou a ser chamado de dominação pode ter pontos positivos tanto quanto pode ter pontos negativos, " As coisas não são boas ou más em si mesmas ". Para que alguém permaneça na posição de " dominado ", é necessário que exista algo na " dominação " que possibilite essa permanência -- uma " opressão " absoluta e inequivocamente maligna provocaria um colapso psicológico em pouco tempo. Além disso, sabemos que a " dominação " acontece mesmo enquanto o " dominador " não está presente ou ciente, porque a relação de poder é interiorizada no domínio psicológico. A explicação para isso não pode ser tão simples quanto " a violência gera medo ", porque existe poder limitador sem violência ( como é o caso das celebridades e dos renomados especialistas ) e existem pessoas que servem não por medo. Mais do que isso, por diversas vezes as chamadas vítimas de opressão discordam completamente de seus " liberadores ", afirmando que não estão em nenhuma relação de opressão e tomando grande ofensa pela acusação daqueles que entendem como seus parceiros ou mestres que são chamados por outros de seus opressores.
Pessoas escolhem as relações que julgamos como limitadoras ou corruptas e muitas vezes consideram tais relações um grande bem. Disso podemos extrair duas lições: A primeira e mais simples é que a prática tão comum entre os " liberadores ", a prática de denunciar e criticar a " opressão " no outro, o taxando de vítima mesmo contra sua vontade, é verdadeiramente venenosa e mostra realmente desrespeito pelo indivíduo a ser " liberado ". A segunda e mais importante agora é que o poder não se dá de forma unilateral " de cima para baixo ", mas como algo mantido por todas as partes envolvidas. O poder de um imperador é mantido também por seus súditos, se as coisas chegam ao ponto no qual seu poder é mantido apenas através da inquestionável força da violência, sua própria cabeça logo é cortada ( afinal não é ele quem detêm a violência de fato ) e seu posto de poder é delegado a outro a quem o exército serve voluntariamente. Na guerra e na violência bruta, situações da sociedade nas quais o poder pode ser exercido como relação de causa e efeito e pela via de fato, no caso a ameaça à vida e o sofrimento físico, todo poder é frágil tal como a vida humana é frágil. Um tirano violento pode derramar sangue e dar ordens que serão seguidas por amor à vida, mas logo seu próprio sangue é derramado por outro. Não se sobrevive na " lei dos peixes " por muito tempo. Fora desses casos, entretanto, o poder não é frágil e chega a parecer eterno, como se criasse uma estrutura social efetivamente determinista -- " o sistema ". As estruturas de poder que temos na sociedade mantém os mesmos tipos de relações através dos séculos, enquanto a coerção violenta direta age sobre indivíduos e em casos particulares. Com isso em mente, está evidente que nossa questão não é entender ou denunciar a violência direta, mas refletir sobre a passagem da violência fatual para o plano das ideias. Nossa definição clássica de poder é insuficiente justamente na explicação da sociedade em relativo estado de paz, nos casos que mais vivenciamos e mais discutimos -- que discutimos com pouca eficiência e inteligência.
Poder, definido propriamente , é uma forma de influência. Podemos manter isso dos clássicos. Acrescento a isso que para que eu possa influenciar algo ou alguém, preciso ter em mim as propriedades necessárias para isso. Por exemplo, para que eu possa ameaçar alguém fisicamente, preciso ser suficientemente forte ou ter o sangue frio para que minha ameaça seja convincente, do contrário não tenho o poder de intimidação. Isso significa que quando intimido alguém, mostro também que tenho uma determinada característica em mim, mostro que sou determinado de uma certa forma. É principalmente por essa razão que o poder não pode ser unilateral. Para que eu mantenha um prisioneiro, preciso para isso me tornar um carcereiro, para que eu limite alguém com ameaças preciso com isso me limitar a ser um bruto -- eis o sentido da afirmação de Bakunin de que " se existe um escravo ao meu lado, eu não sou livre " . Também pela mesma razão, não é inteligente julgar os " oprimidos " como bons e os " opressores " como maus, porque o aspecto geral da relação de poder empobrecedora mostra que todos são pobres em decorrência dela em algum sentido. Por exemplo, a superação do machismo não seria apenas positiva para as mulheres, mas também para os próprios homens, especialmente aqueles que o adotam e tornam-se assim seres tolos, brutos e limitados tais como a ideia vigente de masculinidade prescreve. A ideia de que existe na sociedade algum grupo de dominadores que vive muito feliz em função do sofrimento de todos os outros é uma ideia cegamente otimista, que estabelece bem e mal muito claramente. A realidade, mais sombria mas com possibilidades efetivas de ação, é que ninguém está feliz. A ideia de que se um grupo " oprime " é porque isso o beneficia pressupõe que um humano não defenderia uma ordem que prejudica ele mesmo, pressupõe agentes racionais no sentido liberal e utilitarista, um sentido bastante ingênuo e simplificado. Cada ano que passa na história humana mostra com mais clareza que humanos frequentemente são simplesmente suicidas, espalhando a desgraça para si mesmos e para os outros sem nenhuma recompensa que não pudesse ser obtida por outros caminhos. Ricos e pobres, brancos e negros, homens e mulheres, todos somos tolos, somos fracos e sofremos em função dos mecanismos da sociedade e dos mecanismos de nossos próprios egos. Todos temos a tarefa de evoluir nossas ideias, ajudando uns aos outros a superar quaisquer barreiras para nossa evolução intelectual individual e coletiva. Se recusamos essa tarefa, nós não merecemos uma sociedade superior -- porque somos então " ainda mais macacos que todos os macacos ".*²
A associação de proporção entre poder e liberdade é amplamente presente no liberalismo clássico e no senso comum, mas essa associação é de fato inversamente proporcional. Mais liberdade significa menos poder, e mais poder significa menos liberdade. Ter mais poder significa ter mais influência, e ter mais influência significa ter mais características definidas ou ter características mais profundamente definidas. Poder requer determinação, e mais determinação significa menos liberdade. " Omni determinatio est negatio " -- a liberdade é uma afirmação de possibilidade, uma abertura, enquanto o poder determina em uma afirmação de fato. As promessas de obtenção de poder e liberdade ao mesmo tempo, como a promessa capitalista, são enganosas em todos os sentidos. Cada segundo que se passa restringe seu conjunto de possibilidades. O ser com o maior número de possibilidades é o recém-nascido. Entretanto, o recém-nascido é também o ser menos poderoso, aquele com menos força, menos amor, menos posses, etc. Com a restrição de possibilidades que ocorre a cada momento da vida, o indivíduo perde possibilidades mas ganha relações, memórias, traços de personalidade, etc -- perde possibilidades mas pode ganhar com isso valor. O processo de restrição de possibilidades é inerente à vida e termina na morte, onde o ser se torna passado. O que realmente faz a diferença entre uma vida mais ou menos livre é em que medida o morto, ao longo de seu processo de ser, se determinou ou foi determinado de forma externa. Fazer escolhas significa precisamente auto-determinação, em contraste com a determinação pela degradação natural do corpo ou pelo fato social. O ser que perde suas possibilidades sem ganhar poder se perde, sua história desaparece na infinitude do universo, esse ser se torna o nada. É dessa forma que consumimos nossa essência quando somos tratados como coisas. Somos determinados por indivíduos ou processos que querem de nós apenas um resultado específico, e que não querem que nós tenhamos nenhum poder desnecessário para esse fim.
O caminho para uma vida que pode ser chamada de livre -- no sentido de que as determinações foram escolhidas -- está na determinação voluntária das relações, dos afetos, da profissão, etc. Entretanto, quase toda determinação que não é dada pela coerção violenta óbvia nos parece ser voluntária, algo que se mostra falso quando consideramos o efeito da propaganda, da moralidade e das contradições em nossas mentes. É nesse aspecto que a crítica das ideias que circulam na sociedade é capaz de " empoderar ". A determinação da mente com a qual nós nos orientamos é em grande medida dada por ideias, e a determinação das ideias é a mais fraca e mais mutável. Com uma mudança nas ideias ocorre uma mudança de orientação. Dessa forma podemos purificar uns aos outros das ideias que nos orientam ao nada, das ações que gastam nossa energia com finalidades instrumentais alheias. Entretanto, deve ser claro que essa purificação consiste em libertar-nos uns aos outros dos obstáculos que nos mantém com pouco ou nenhum poder, pouca ou nenhuma determinação. O discurso tolo e relativista de que nós devemos abandonar os afetos, o trabalho ( no sentido de dedicação ), a identidade e tudo aquilo que nos determina é um discurso em todos os sentidos " dominado ", pois justamente convence o indivíduo a seguir um caminho sem auto-determinação, exatamente o mesmo que " o sistema " ou " a sociedade burguesa " incentiva aos que não se adequam aos tipos favoritos de suas respectivas sociedades. Um indivíduo que recusa a determinação, pensando apenas em possibilidades, isto é, em fantasias, não é um sujeito maravilhoso, uma obra de arte viva, não é o übermensch, mas apenas um fraco que perde seu valor a cada segundo de insistência nessa estupidez. O discurso de desconstrução total não é nenhuma crítica, pois afirma exatamente a mesma armadilha mental que a sociedade capitalista, a ideologia de que a liberdade é um bem em si que deve ser buscado em um código moral, uma das principais razões pelas quais a maioria de nossa população tem muito pouco poder, especialmente quando se trata de poder político.
Ser livre é uma característica humana, nós somos seres com possibilidades e podemos antecipar muitas delas em nossa orientação mental. Nosso problema certamente não é falta de liberdade, mas o fato de que somos quase sempre restritos a fantasiar com possibilidades em vez de agirmos e tomarmos o poder para nós. Seu valor está na forma e intensidade de seu poder, de sua determinação, não em sua liberdade ou em suas fantasias narcisistas. A liberdade não é o que está em disputa e não é aquilo que sociedade pode ou deve lhe prometer -- o poder é o que se disputa e o que revela a natureza da sociedade. A garantia da " liberdade de expressão " é muito frequentemente usada como propaganda do estado. Afirma-se que somos livres porque podemos questionar qualquer coisa. Certamente somos livres, isto é parte de nosso ser. Mas que poder temos sob esse estado ? Esse mesmo estado frequentemente usa da violência bruta e óbvia no instante em que o questionamos não em palavras fantasiosas mas em ações, em protestos, em transgressões, etc. Por exemplo, a crítica do machismo cai em uma armadilha se luta para poder afirmar que uma mulher pode escolher com quem quer se relacionar. Essa possibilidade simplesmente existe, afirmar isso é afirmar que essa liberdade essencial humana depende de algum reconhecimento. A verdadeira questão a ser feita é sobre o que acontece com a mulher uma vez que ela de fato se envolve com alguém. A exigência do reconhecimento da liberdade é um sinal de " dominação ", pois sugere que alguma autoridade detêm tamanho poder sobre aquilo que é simplesmente essência do ser humano.
Maquiavel, no século 14, já havia percebido que o segredo para uma ordem política duradoura está em permitir que os cidadãos subordinados esbravejem de alguma forma, em pequenos discursos de pequena agressividade contra o estado que os frustra. Eis porque o discurso da " denúncia da opressão " não é mais uma via para o poder. Você pode, por exemplo, denunciar que a história da filosofia é machista acreditando que questiona com isso o poder atualmente estabelecido ( o fato de que a esmagadora maioria dos reconhecidos como grandes filósofos são e serão homens ). Mas precisamente incentivando que você faça essa reclamação, lhe elogiando por isso, a sociedade lhe incentiva a ignorar a pergunta : " Por quê eu não sou uma grande filósofa ? ". Denunciar a situação social de qualquer grupo de uma forma que atribui ao fato social a " opressão " sem também responsabilizar o indivíduo por suas escolhas é uma grande concessão ao estado -- significa dizer que as autoridades vigentes podem decidir a natureza de nosso poder. Se trata de uma troca de nosso poder pelo nada. Sua impotência também é sua responsabilidade. Fugir dessa responsabilidade com desculpas é confortável para sua identidade mas perpetua sua fraqueza, principalmente quando a desculpa utilizada é algo que de fato existe. Quando você culpa seu oposto dialético e sua luta de classes pelo seu fracasso, você atribui a um processo a orientação do seu destino -- essa é precisamente a forma mais pura de coerção da mente . A razão certamente é o começo da crítica, mas o discurso é corrompido e se tona passivo se nos esquecemos da finalidade da crítica : Mudar nossa orientação mental para uma capaz de obter poder, de conquistar valor e de brilhar de forma esplendorosa na história, com ações em vez de simplesmente com palavras, fantasias e possibilidades.
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Notas :
*1 - Os intelectuais a quem me refiro com certo sarcasmo não são as pessoas que de fato levantaram questões sociais e filosóficas com suas obras criativas e profundas, mas os muitos acadêmicos que são resignados a usurpar o discurso alheio e que ensinam a seus estudantes que eles/elas devem fazer o mesmo, os que ensinam que ser inteligente significa reproduzir os conceitos da moda, que pensar com a própria autoridade e responsabilidade é em si um erro. No exemplo do feminismo, uma mulher que escreve obras filosóficas originais faz algo de grande valor que de fato contribui muito para a mudança das ideias na sociedade e, se sua obra singular aborda as questões sociais, traz força para os movimentos sociais -- e certamente não apenas no campo do feminismo. Entretanto, os acadêmicos que apenas repetem e ensinam a repetir as teorias das grandes feministas são tipos resignados, que não buscam o poder que suas autoras favoritas obtiveram. Assim como os comentadores de filosofia degeneram o espírito filosófico quando vendem a ideia de que citar autores clássicos é fazer aquilo que eles fizeram ( filosofia propriamente dita ) , essa prática no feminismo acadêmico não faz nenhum papel empoderador ou emancipatório. Veja, como exemplo, os " nietzschianos " acadêmicos, veja como eles são ortodoxos e desprovidos de criatividade, como eles não fazem nada que seja uma " ponte para o além-do-homem ". Ou então os " kantianos ", pregando a filosofia de Kant como dogma, incentivando a hipocrisia e a covardia intelectual em vez do " esclarecimento ". Ambos esses tipos de postura intelectual existem porque indivíduos, por um lado, se sentem atraídos a afirmar que são " kantianos ", " nietzschianos ", " feministas ", qualquer coisa interessante, enquanto, por outro, não estão dispostos a pagar o preço que as figuras fascinantes da história do pensamento pagaram. A demanda por mudança social se torna assim, ao longo do tempo constrangida dentro dessa estrutura, apenas uma tentativa narcisista de afirmação de identidade, uma fantasia de liberdade.
*2 - A expressão foi utilizada em" Assim falou Zaratustra ", onde Nietzsche compara a diferença entre o além-do-homem e a humanidade atual com a diferença entre a humanidade e os macacos. Por causa da foma como Nietzsche expressou sua ideia, a noção de além-do-homem pode parecer praticamente uma superstição, mas ela de fato chama a atenção para algo de grande valor, que foi compreendido no oriente muito melhor que no ocidente : O ser humano pode evoluir para além do que conhecemos hoje como a " humanidade ". Essa evolução não é biológica, técnica ou nazista, mas simplesmente filosófica -- e cultural, como consequência. Penso que uma pauta geral dos movimentos sociais atuais é conduzir-nos a uma sociedade, em vários sentidos, superior. Mas uma vida em sociedade superior requer uma cultura superior, e uma cultura superior não se faz com a soma de indivíduos que vendem suas riquezas do espírito com tanta facilidade como nós. O cultivo da profundidade do espírito é muitas vezes visto como algo " elitista ", como se fosse em si a afirmação de desigualdades sociais. Mas como nós, com nossa pobreza de espírito, poderíamos um dia viver em uma sociedade bem administrada ? Como nós, que não cultivamos nossa singularidade, a esplendorosa beleza que todos podemos ter em uma forma diferente, como nós poderíamos viver em uma sociedade que respeita todos os indivíduos ? Que tipo de " revolução " nós faríamos ?
domingo, 21 de fevereiro de 2016
Justiça sem igualdade
Quando tratamos de política e de ética, uma das questões fundamentais que devem ser respondidas é " existe alguma meta universal para todos os seres humanos, de tal forma que se um indivíduo for corrigido para se adequar a esse objetivo, ele não estará sendo injustiçado? ". Observe qualquer um dos grandes sistemas políticos e éticos presentes nos debates sobre essas questões e você perceberá que essa pergunta é respondida de uma ou outra maneira. Alguns exemplos: Kant respondeu que a razão é universal, e que dela decorre o dever. Muitos dos cientistas contemporâneos que participam desses debates costumam enfatizar que nós somos uma espécie animal, e que é possível estudar cientificamente a distinção entre comportamentos que beneficiam a espécie e aqueles que a prejudicam. Aqueles que questionam o objetivo de criar um sistema ético e que adotam em vez disso uma espécie de ética artística, como Nietzsche, quase sempre argumentam no sentido de mostrar que a tentativa de universalizar algum valor além da própria afirmação do indivíduo, interpretada por ele mesmo, é inútil e prejudicial para a humanidade como um todo.
A meritocracia e as demais noções associadas como " esforço" e " oportunidade " são também uma resposta para aquela pergunta.
Na maioria dos casos, ao menos nas sociedades liberais, cada indivíduo acredita ou gostaria de acreditar que suas ações são escolhas, e que sua insistência em determinadas ações é esforço. Através dessas duas crenças o indivíduo pode acreditar que de alguma maneira merece aquilo que possui, e que de alguma forma escolheu não ter aquilo que não possui. Mesmo com a popularidade da noção de que " o livre arbítrio é uma ilusão " em determinados espaços, é fácil observar que no nível psicológico mais básico, naquilo que o indivíduo faz e pensa em sua rotina, as crenças mencionadas persistem. O apelo ético e político da meritocracia parte do fato de que muitos indivíduos querem sentir que são livres que e conquistam metas, e da noção de que uma sociedade que recompensa o esforço e de alguma maneira pune sua ausência satisfaz essa demanda psicológica básica. Nessa lógica, não é injusto que aquele que não se esforça seja deixado em condições piores que aquele que se esforça. A exceção dessa regra ocorre quando é de alguma maneira comprovado que faltam oportunidades para alguns indivíduos. Essa é a forma racional da meritocracia.
Você já se perguntou por quê as discussões políticas e éticas tendem a ser tão violentas, confusas e no geral desagradáveis ? Alguns dizem que é porque " o povo é ignorante " , como se existisse algum grupo especial de humanos entre os quais a situação é diferente. Outros dizem que existe nesses debates um choque de posições contrárias e inconciliáveis que gera esse mal-estar. Mas nada que seja humano é no fundo incompreensível, e opostos tendem a conviver bem uma vez que conseguem se entender mutualmente. Em nossa civilização, que se pretende como orientada pela razão e por debates, é como se tudo precisasse ser de origem racional e dialética para ser válido. Mas isso é fundamentalmente e psicologicamente impossível. Assim como temos desejos individuais que são racionalizados apenasa posteriori, temos desejos sociais que funcionam da mesma forma. Por exemplo, eu sou bastante simpático ao feminismo, na maioria de suas formas. É verdade que eu penso que seja imoral que mais da metade da população humana seja desfavorecida, e é verdade que eu penso que os indivíduos não devem ser julgados como homens ou mulheres mas apenas como indivíduos, etc. Mas essas são racionalizações posteriores à minha experiência de vida em geral positiva com as mulheres. Entenda que eu poderia dizer ( e frequentemente digo ) que é imoral que as mulheres sejam consideradas a princípio menos capazes que os homens, mas minha expectativa pela igualdade civil entre os gêneros parte verdadeiramente do fato de que eu convivi com mulheres que foram extremamente capazes e agradáveis e que, por conta dessas experiências, o machismo não é uma inclinação minha. Eu digo em nossos debates hipócritas " o machismo é imoral ! ", mas em linguagem mais honesta eu teria que dizer " eu não gosto de machismo nem de ser machista . "
Nós construímos socialmente os conceitos de subjetividade e objetividade, sendo a subjetividade o domínio intocável e inatingível que cada indivíduo tem em sua consciência e a objetividade o domínio da realidade e das coisas sérias. A partir dessa divisão do mundo, não é aceitável em nossa hipocrisia que um indivíduo diga " eu quero que isso mude, a situação atual me desagrada ". O indivíduo precisa provar que o que ele sustenta é uma tese sobre a realidade que foi encontrada com bons raciocínios e que pode ser defendida com argumentos ainda melhores. A verdade objetiva, que deve ser obtida na conclusão desses nobres debates intelectuais, só pode ser uma, e assim fica decidido qual demanda social merece ser atendida. Você já deve ter percebido o quanto isso é insustentável. Pessoas diferentes têm desejos diferentes e experiências diferentes. Essas diferentes vidas poderiam se entender através da empatia e de negociações, mas o debate racional como conhecemos é claramente uma competição, na qual a empatia não é possível porque a subjetividade precisa ser mascarada com argumentos improvisados e a negociação não é possível porque apenas um lado pode ser vitorioso -- ou correto, na nossa linguagem social. Um indivíduo precisa provar que acredita no que acredita e não em outras crenças possíveis porque as outras crenças são de alguma maneira incorretas ou maldosas, e por extensão isso significa que ele precisa provar que quem não pensa como ele e não deseja o que ele quer é incorreto ou maldoso. Essa segunda parte fica nas entrelinhas -- por isso as brigas e desafetos nos debates muitas vezes parecem repentinos e sem explicação. Cada palavra dita nesse tipo de debate obscurece a razão das partes envolvidas, especialmente pela abundância de estratagemas como a tentativa de provar que a natureza humana é desta ou daquela forma, como um método tolo e inseguro de se coagir um interlocutor a uma determinada opinião.*¹
Devo deixar claro que compreendo bem que razões também afetam nossos desejos e inclinações. Ainda naquele exemplo que dei sobre minha simpatia ao feminismo, essa inclinação talvez desaparecesse ou não tivesse efeito prático se eu não tivesse também encontrado razões para isso*². Mas é notável que nossa civilização comete o erro de tentar excluir o fundo subjetivo das discussões, sob efeito do dogma de que a subjetividade não é fonte de conhecimento e não faz parte dos assuntos sérios. Os valores e desejos não são excluídos com sucesso, apenas mascarados com sofismas. Pessoas com desejos diferentes apenas podem entrar em harmonia através da empatia uma pela outra. Quando uma tenta destruir o desejo da outra, isso cria apenas ódio e violência. Nossos debates com desejos mascarados e que ocorrem como uma disputa polarizada tem exatamente esse resultado. As ideias de nossos debates são carregadas de violência, e as pessoas se habituam a valorar automaticamente determinadas palavras e posições. Por exemplo, se você falar contra ou a favor sobre o sistema de cotas, você terá das pessoas ao seu redor reações emocionais e você será avaliado (a) no formatoad hominem, independentemente do que você diga. Certos debates se tornam gatilhos para esse turbilhão de desejos mal resolvidos e de demandas ocultas, e nossa insistência nesse formato de debate e nessas crenças é o que faz das discussões políticas algo simplesmente insuportável.
Esse fundo subjetivo também existe na noção de meritocracia. Indivíduos muito frequentemente mostram a demanda de que o universo seja justo com eles de alguma forma. Por exemplo, homens que não costumam atrair as mulheres por quem eles se atraem frequentemente acabam pensando coisas como " eu não acredito que ela saiu com aquele imbecil mas não me deu uma chance " ou " é muito injusto que aquele tipo de cara tenha uma chance e eu não ". " Ser um cara legal " deveria fazer com que um indivíduo " tenha uma chance ". Mas essa ou qualquer outra noção de justiça não faz o menor sentido no jogo das paixões, apenas muito posteriormente em uma relação já estabelecida pelo passo anterior, e acredito que quase todo indivíduo entenda isso de alguma maneira. Mesmo assim, indivíduos, quase sempre homens, muitas vezes são surpreendidos reclamando de como o amor é injusto. Poderia ser justo? Quando surge uma relação entre dois indivíduos, isso ocorre em função de suas respectivas vontades. Dizer que um indivíduo conquista o outro implica em afirmar que um é o sujeito da relação enquanto o outro é o objeto. Não há e não faz sentido procurar justiça ou merecimento no amor, como se fosse algo planejável. Mas pessoas insistem nisso, porque organizar memórias no formato " eu fiz X então mereço Y " cria conforto diante da ideia de que aquilo que desejamos ter está fora de nosso controle ( por depender de outros indivíduos ).
Nossa cultura nos ensina que " mulher não se ganha, se conquista ". Uma parte da mensagem é importante: Sua alma gêmea não vai aparecer de surpresa na sua cama um dia desses. Mas a segunda parte da mensagem é enganosa: ninguém " ganha " uma mulher, ou um homem. Relações minimamente saudáveis e positivas sempre começam de ambas as partes, e muitas vezes para a surpresa de ambas, sem nenhum tipo de plano ou tática de conquista. Mas a civilização educa homens narcisistas e mulheres sem conteúdo; o homem devem dar o sentido para a vida de uma mulher e a mulher deve aceitar um homem digno de dar o valor a sua vida. Nesse sistema de crenças, o amor vira um teste -- não se trata de se ter uma boa relação com alguém mas de se satisfazer a necessidade de aprovação social e emocional do ego. Muitos homens não apenas falam de seus encontros sexuais como falam insuportavelmente deles, mendigando a aprovação de suas masculinidades, e muito raramente falam dos atributos não sexuais de suas parceiras. Muitas mulheres, não por coincidência as parceiras dos mencionados anteriormente , fazem todo infeliz ser humano disponível ouvir absolutamente tudo sobre o quanto seus parceiros são os os caras mais fodas do planeta e muito, muito raramente falam com orgulho de algum encontro sexual. Com isso cada um satisfaz as compulsões do superego ; a mulher prova à sociedade que sua beleza e temperamento agradável atraiu um homem virtuoso e o homem prova que sua virtude atraiu uma bela mulher. Quando essa história acaba bem, ela termina em um divórcio antes do terceiro filho. Do contrário ela dura uns quarenta anos e mais uma geração aprende que o amor é uma união entre dois seres superficiais e inseguros, entre um que precisa mandar e outro que precisa obedecer.
" Mas o que isso tem a ver com meritocracia ? " Nada, foi apenas uma digressão. Você continua lendo, então não reclame. Talvez você continue lendo não por tédio mas por ter percebido que eu me aproximo de alguma questão importante...
Podemos construir socialmente a noção de que determinada faixa de preço é justa para determinado produto, ou de que determinada punição é justa como resposta a uma determinada ação. Mas esperar que uma sociedade na qual indivíduos tão diferentes possuem algum grau de liberdade civil resulte em um arranjo particular que possa ser chamado objetivamente de justo é uma expectativa semelhante a exigir que a natureza seja justa no amor. Por exemplo, nossos oficiais de justiça se orgulham de trancafiar assassinos, estupradores, golpistas, traficantes, etc, cada um sendo enjaulado por um tempo proporcional à gravidade do crime e à falta de fatores atenuantes. Nossa sociedade parece satisfeita com isso, levantando objeções apenas à falta de políticos corruptos sendo punidos. Mas pense por um momento: Se esses crimes são qualitativamente diferentes, por quê a punição varia apenas em quantidade ? Ou seja, se um ladrão não causa o mesmo tipo de aversão que um assassino, porque a única diferença no tratamento entre os dois está na quantidade de tempo em cárcere ? Não deveriam ser aplicados também tipos de punição diferentes nesses e em outros casos que são tratados da mesma forma ?
Observe com atenção os discursos nos quais o termo justiça é utilizado, e você perceberá o forte apelo estético do termo -- ele se apoia em afetos tanto quanto em razões. Colecionar criminosos em penitenciárias não faz sentido, mas não deixa de satisfazer o desejo de justiça de muitos, porque não se trata de uma consequência lógica mas de um desejo e de sua construção psicológica e cultural. Essa construção varia entre grupos de indivíduos e uma única sociedade na qual esses grupos distintos convivem nunca poderia satisfazer a demanda por justiça em todos eles ao mesmo tempo, o que levanta sérias dúvidas sobre a demanda em si mesma. Mesmo no plano mais particular, existem vantagens e desvantagens que um indivíduo carrega a partir do momento que nasce onde nasce, assim que nasce com sua herança genética e histórica e não com outras. Sendo a sociedade uma coleção desses indivíduos que não apenas tem vantagens e desvantagens hereditárias mas estão fadados a competir uns com os outros e a ver suas vontades colidindo com outras opostas, a expectativa de que a sociedade seja justa é de fato semelhante àquela de que o universo seja justo com o sujeito.
Supostamente possuímos uma série de " direitos humanos " com a função de colocar os diversos indivíduos na mesma situação básica, uma situação na qual o indivíduo tem oportunidades e um grau suficiente de segurança. Mas o que são efetivamente esses direitos ? Veja aqui a lista de todos os seus direitos. " Todo indivíduo tem direito à vida. " O que isso significa ? O que isso poderia significar? Todas as vezes nas quais um indivíduo evoca seus " direitos " para obter algo, seus interlocutores mostram concepções distintas daqueles direitos, e as autoridades se mostram por completo inflexíveis a esse discurso. O fato de que temos " direitos " não torna a justiça social mais plausível. A filosofia política indiana nos ensina : " A força faz o direito ". " Força " nesse contexto não significa estritamente força militar ou força bruta individual, mas o conjunto geral das qualidades que são capazes de influenciar e coagir, como a inteligência, a riqueza material, a beleza, etc. Se você observar seus professores, por exemplo, você notará que alguns têm naturalmente poder e autoridade enquanto outros não, apesar de todos terem o mesmo título e os mesmos direitos. Uns precisam desesperadamente ameaçar e fazer chantagens emocionais para conseguir alguma coisa dos seus supostos subordinados ( subordinados por direito apenas ), enquanto outros conseguem tudo o que esperam naturalmente daqueles que, por vontade própria, são seus discípulos. A força faz o direito, porque o verdadeiro direito chama-se poder -- convencer a população a pedir direitos em vez de ensiná-la a obter poder é mais um mecanismo de perpetuação do status quo.
Cada indivíduo tem o potencial para ter poder de uma forma que é, se não absolutamente singular, muito rara e memorável. Se todos somos ou deveríamos ser iguais diante da lei, essa é ainda mais uma razão pela qual a lei é algo a ser superado, mais um resto das sociedades arcaicas que insistimos em arrastar para além da vida útil. Muitos indivíduos hoje clamam por uma sociedade mais justa, sem miséria, sem discriminação, etc. Mas na enorme maioria dos casos os indivíduos hoje não cultivam a própria interioridade o bastante, não cultivam a própria criatividade, não sabem ter poder, apenas reclamar e exigir " direitos ". Uma verdadeira superação das relações sociais como são hoje irá exigir um novo conceito de justiça, algo mais vigoroso e recente que as velharias marxistas e iluministas que os intelectuais fracassados*³ ensinam e a juventude aprende a reproduzir como um rebanho -- como a sociedade poderá mudar através da reciclagem infinita das mesmas acusações e reclamações ? Para que a filosofia de um indivíduo tenha poder sobre a realidade, ela precisa ser vivida, mais do que falada e pensada. Kantianos ou hegelianos, por exemplo, que simplesmente leem as obras e escrevem textos de comentário a esses autores nunca poderiam realizar nada na sociedade, porque eles não podem viver a filosofia de alguém que morreu a mais de dois séculos e que deixou apenas os livros e a poeira dos ossos para traz. Os comentadores e seguidores de intelectuais deveriam, se não são inúteis e preguiçosos como eu desconfio, tomar suas obras prediletas como fonte de inspiração para suas próprias obras, que poderiam ser inspiradoras em nosso tempo. Sempre acho profundamente irônico que kantianos tomem Kant como um tutor em vez de pensarem com a própria razão, que eles citem de maneira estagnada e resignada em seus artigos-para-ninguém palavras como " Sapere aude! ". Dizem que os " seguidores " dos filósofos ( e outros tipos de autores ) têm a função de mostrar a relevância de tais obras, mas note que cada palavra que eles escrevem transformam esses maravilhosos e poderosos discursos em apenas palavras e citações. A torre de marfim banaliza o conhecimento, ela está ainda cem metros abaixo do " senso comum " que tanto repreende.
Vou lhe oferecer meu conceito de justiça, como inspiração. Se um indivíduo é admiravelmente inteligente, é injusto tratá-lo como imbecil, subestimando suas habilidades. Se um indivíduo não tem uma virtude, mas é capaz de tê-la, é injusto aprisioná-lo na situação atual e impedir que ele tente realizar seu potencial. Se um indivíduo é sinceramente afetuoso, é injusto tratá-lo com frieza, ferindo seus sentimentos nobres. Se uma autoridade é de direito apenas, sem poder, é tolo e injusto tratá-la como se tivesse ou merecesse poder, alimentando seu narcisismo. Se alguém diz ou faz uma tolice, essa tolice deve ser corrigida e repreendida em justa medida, mas é injusto definir um ser humano com base na observação de uma ação, seja valorosa ou desprezível. Todo ser humano pode se esclarecer e evoluir ( ou decair ) , então suas ações devem ser respondidas com isso em mente. É injusto tratar intelectuais como deuses da sabedoria acima de nós porque isso ao mesmo tempo lhes confere um status não merecido ( Kant racista, Heidegger nazista, etc. ) e nos rebaixa, nos tira da posição de realizar o nosso potencial como eles realizaram o deles. Também é injusto tratar um ser humano, qualquer um que seja, como se nunca fosse possível que ele dissesse algo genial ou fizesse algo valoroso, isso é colocar sobre alguém a nossa visão limitada sobre o seu ser como se fosse uma verdadeira limitação do seu ser e da sua vida, que apenas ele mesmo pode julgar. A balança da justiça pesa as virtudes e vícios de cada um. O entulho conceitual que é arrastado em grande parte das discussões sobre justiça social é desprovido de auto-conhecimento e não diz respeito a nada que possa medir ou elevar a dignidade humana. Justiça não é igualdade, justiça é digna retribuição. Não se encontra o que é justo pela via da demagogia, mas pela via da razão e da empatia.
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Notas:
*1 : Argumentos que se baseiam na natureza humana muitas vezes são falaciosos ou confusos e escondem o verdadeiro ponto da discussão. Por exemplo, nos debates sobre a aprovação do casamento homossexual e do projeto conhecido como " cura gay ", ambos os lados caíram na discussão sobre a homossexualidade ser uma escolha ou algo inato do indivíduo. Aqueles que queriam tratar a homossexualidade como um distúrbio afirmavam que se trata de uma escolha ou de uma corrupção reversível, porque a natureza humana prescreve relações entre sexos opostos, segundo a bíblia. Aqueles que queriam afirmar que a homossexualidade é algo a ser respeitado afirmavam que não se trata de uma escolha, com o respaldo de cientistas que tentavam explicar como na evolução a homossexualidade foi passada de geração e geração, chegando a discussões patéticas ( mesmo de um ponto de vista estritamente científico ) como a do " gene gay ". Ambos os lados queriam provar que a natureza humana é desta ou daquela forma para coagir aqueles que discordavam de suas idiossincrasias. Suponha que fosse provado em absoluto que ser gay é uma escolha. Isso provaria realmente que a homossexualidade é ruim para a sociedade ? E suponha que fosse provado em absoluto que não é uma escolha. Isso provaria que não é imoral ? Se eu faço um piercing ou uma tatuagem ninguém irá afirmar que isso é imoral porque eu me desviei da forma natural do meu corpo. Se um sujeito mata outro por ter alguma doença cerebral que lhe tira o controle sobre seus impulsos, isso não muda o fato de que o sujeito cometeu assassinato, de que ele é perigoso. A discussão sobre a escolha ou determinação da homossexualidade é no fundo irrelevante, porque o que importa nas políticas públicas e mudanças na legislação é avaliar as consequências sociais da prática, não a natureza humana, um objeto que talvez seja em si falso ou irrazoável.
*2 : Creio que o principal papel da racionalidade nessas questões é organizar e examinar as experiências e vivências para que possamos aprender algo a partir delas. Se eu me prendesse simplesmente à inclinação de ver o feminismo de maneira favorável, bastaria uma série de experiências desagradáveis com mulheres ( que de fato tive ) para reverter o quadro. Mas observando mulheres competentes cheguei a fórmulas, noções mais gerais e abstratas sobre em quais situações e com qual base um indivíduo pode ser julgado. A hipocrisia dos debates objetivos está em afirmar que a racionalidade na política é a priori. Por outro lado, também discordo daqueles que tratam as " vivências de opressão " como posição de autoridade, afirmando que ter ou não essas vivências distingue quem entende ou não a questão em discussão. Esse tipo de discurso parece implicar que não existe racionalidade nem empatia possível entre os indivíduos, e não por coincidência essas qualidades faltam nas discussões em que esse discurso surge ou tem que surgir.
*3 : Aqueles que chegam na posição de autoridade intelectual sem obter poder ( no caso, sabedoria ) durante o processo, fracassaram. Isso não é um julgamento, é uma constatação. Se um intelectual não consegue entrar na história que ele estuda, não consegue realizar sua própria obra, ele não tem valor em si na sua profissão, ele é apenas uma ferramenta. Professores com rica sabedoria lotam salas sem cobrar presença, professores com mero acúmulo de conteúdo precisam cobrar presença e fazer chantagens práticas e emocionais . Sábios atraem pessoas interessadas em dialogar com eles sobre questões filosóficas, artísticas e científicas como um fim em si, ferramentas humanas atraem alunos interessados em ganhar um salário para estudar ou em cumprir os requisitos da carreira acadêmica. Os pretensos intelectuais que não conseguem inspirar novas e poderosas ideias e que como agravante transformam palavras de liberdade em citações a serem reproduzidas em uma estrutura autoritária chegaram precisamente nisso -- em um fracasso. " Não julgue, não seja maldoso " me dizem. Será melhor deixar, então, que um indivíduo continue apodrecendo na realidade enquanto contempla sua bela imagem na superfície de um lago de sonhos?
Fingir que ninguém erra ou fracassa não é tolerância nem humildade.
A meritocracia e as demais noções associadas como " esforço" e " oportunidade " são também uma resposta para aquela pergunta.
Na maioria dos casos, ao menos nas sociedades liberais, cada indivíduo acredita ou gostaria de acreditar que suas ações são escolhas, e que sua insistência em determinadas ações é esforço. Através dessas duas crenças o indivíduo pode acreditar que de alguma maneira merece aquilo que possui, e que de alguma forma escolheu não ter aquilo que não possui. Mesmo com a popularidade da noção de que " o livre arbítrio é uma ilusão " em determinados espaços, é fácil observar que no nível psicológico mais básico, naquilo que o indivíduo faz e pensa em sua rotina, as crenças mencionadas persistem. O apelo ético e político da meritocracia parte do fato de que muitos indivíduos querem sentir que são livres que e conquistam metas, e da noção de que uma sociedade que recompensa o esforço e de alguma maneira pune sua ausência satisfaz essa demanda psicológica básica. Nessa lógica, não é injusto que aquele que não se esforça seja deixado em condições piores que aquele que se esforça. A exceção dessa regra ocorre quando é de alguma maneira comprovado que faltam oportunidades para alguns indivíduos. Essa é a forma racional da meritocracia.
Você já se perguntou por quê as discussões políticas e éticas tendem a ser tão violentas, confusas e no geral desagradáveis ? Alguns dizem que é porque " o povo é ignorante " , como se existisse algum grupo especial de humanos entre os quais a situação é diferente. Outros dizem que existe nesses debates um choque de posições contrárias e inconciliáveis que gera esse mal-estar. Mas nada que seja humano é no fundo incompreensível, e opostos tendem a conviver bem uma vez que conseguem se entender mutualmente. Em nossa civilização, que se pretende como orientada pela razão e por debates, é como se tudo precisasse ser de origem racional e dialética para ser válido. Mas isso é fundamentalmente e psicologicamente impossível. Assim como temos desejos individuais que são racionalizados apenasa posteriori, temos desejos sociais que funcionam da mesma forma. Por exemplo, eu sou bastante simpático ao feminismo, na maioria de suas formas. É verdade que eu penso que seja imoral que mais da metade da população humana seja desfavorecida, e é verdade que eu penso que os indivíduos não devem ser julgados como homens ou mulheres mas apenas como indivíduos, etc. Mas essas são racionalizações posteriores à minha experiência de vida em geral positiva com as mulheres. Entenda que eu poderia dizer ( e frequentemente digo ) que é imoral que as mulheres sejam consideradas a princípio menos capazes que os homens, mas minha expectativa pela igualdade civil entre os gêneros parte verdadeiramente do fato de que eu convivi com mulheres que foram extremamente capazes e agradáveis e que, por conta dessas experiências, o machismo não é uma inclinação minha. Eu digo em nossos debates hipócritas " o machismo é imoral ! ", mas em linguagem mais honesta eu teria que dizer " eu não gosto de machismo nem de ser machista . "
Nós construímos socialmente os conceitos de subjetividade e objetividade, sendo a subjetividade o domínio intocável e inatingível que cada indivíduo tem em sua consciência e a objetividade o domínio da realidade e das coisas sérias. A partir dessa divisão do mundo, não é aceitável em nossa hipocrisia que um indivíduo diga " eu quero que isso mude, a situação atual me desagrada ". O indivíduo precisa provar que o que ele sustenta é uma tese sobre a realidade que foi encontrada com bons raciocínios e que pode ser defendida com argumentos ainda melhores. A verdade objetiva, que deve ser obtida na conclusão desses nobres debates intelectuais, só pode ser uma, e assim fica decidido qual demanda social merece ser atendida. Você já deve ter percebido o quanto isso é insustentável. Pessoas diferentes têm desejos diferentes e experiências diferentes. Essas diferentes vidas poderiam se entender através da empatia e de negociações, mas o debate racional como conhecemos é claramente uma competição, na qual a empatia não é possível porque a subjetividade precisa ser mascarada com argumentos improvisados e a negociação não é possível porque apenas um lado pode ser vitorioso -- ou correto, na nossa linguagem social. Um indivíduo precisa provar que acredita no que acredita e não em outras crenças possíveis porque as outras crenças são de alguma maneira incorretas ou maldosas, e por extensão isso significa que ele precisa provar que quem não pensa como ele e não deseja o que ele quer é incorreto ou maldoso. Essa segunda parte fica nas entrelinhas -- por isso as brigas e desafetos nos debates muitas vezes parecem repentinos e sem explicação. Cada palavra dita nesse tipo de debate obscurece a razão das partes envolvidas, especialmente pela abundância de estratagemas como a tentativa de provar que a natureza humana é desta ou daquela forma, como um método tolo e inseguro de se coagir um interlocutor a uma determinada opinião.*¹
Devo deixar claro que compreendo bem que razões também afetam nossos desejos e inclinações. Ainda naquele exemplo que dei sobre minha simpatia ao feminismo, essa inclinação talvez desaparecesse ou não tivesse efeito prático se eu não tivesse também encontrado razões para isso*². Mas é notável que nossa civilização comete o erro de tentar excluir o fundo subjetivo das discussões, sob efeito do dogma de que a subjetividade não é fonte de conhecimento e não faz parte dos assuntos sérios. Os valores e desejos não são excluídos com sucesso, apenas mascarados com sofismas. Pessoas com desejos diferentes apenas podem entrar em harmonia através da empatia uma pela outra. Quando uma tenta destruir o desejo da outra, isso cria apenas ódio e violência. Nossos debates com desejos mascarados e que ocorrem como uma disputa polarizada tem exatamente esse resultado. As ideias de nossos debates são carregadas de violência, e as pessoas se habituam a valorar automaticamente determinadas palavras e posições. Por exemplo, se você falar contra ou a favor sobre o sistema de cotas, você terá das pessoas ao seu redor reações emocionais e você será avaliado (a) no formatoad hominem, independentemente do que você diga. Certos debates se tornam gatilhos para esse turbilhão de desejos mal resolvidos e de demandas ocultas, e nossa insistência nesse formato de debate e nessas crenças é o que faz das discussões políticas algo simplesmente insuportável.
Esse fundo subjetivo também existe na noção de meritocracia. Indivíduos muito frequentemente mostram a demanda de que o universo seja justo com eles de alguma forma. Por exemplo, homens que não costumam atrair as mulheres por quem eles se atraem frequentemente acabam pensando coisas como " eu não acredito que ela saiu com aquele imbecil mas não me deu uma chance " ou " é muito injusto que aquele tipo de cara tenha uma chance e eu não ". " Ser um cara legal " deveria fazer com que um indivíduo " tenha uma chance ". Mas essa ou qualquer outra noção de justiça não faz o menor sentido no jogo das paixões, apenas muito posteriormente em uma relação já estabelecida pelo passo anterior, e acredito que quase todo indivíduo entenda isso de alguma maneira. Mesmo assim, indivíduos, quase sempre homens, muitas vezes são surpreendidos reclamando de como o amor é injusto. Poderia ser justo? Quando surge uma relação entre dois indivíduos, isso ocorre em função de suas respectivas vontades. Dizer que um indivíduo conquista o outro implica em afirmar que um é o sujeito da relação enquanto o outro é o objeto. Não há e não faz sentido procurar justiça ou merecimento no amor, como se fosse algo planejável. Mas pessoas insistem nisso, porque organizar memórias no formato " eu fiz X então mereço Y " cria conforto diante da ideia de que aquilo que desejamos ter está fora de nosso controle ( por depender de outros indivíduos ).
Nossa cultura nos ensina que " mulher não se ganha, se conquista ". Uma parte da mensagem é importante: Sua alma gêmea não vai aparecer de surpresa na sua cama um dia desses. Mas a segunda parte da mensagem é enganosa: ninguém " ganha " uma mulher, ou um homem. Relações minimamente saudáveis e positivas sempre começam de ambas as partes, e muitas vezes para a surpresa de ambas, sem nenhum tipo de plano ou tática de conquista. Mas a civilização educa homens narcisistas e mulheres sem conteúdo; o homem devem dar o sentido para a vida de uma mulher e a mulher deve aceitar um homem digno de dar o valor a sua vida. Nesse sistema de crenças, o amor vira um teste -- não se trata de se ter uma boa relação com alguém mas de se satisfazer a necessidade de aprovação social e emocional do ego. Muitos homens não apenas falam de seus encontros sexuais como falam insuportavelmente deles, mendigando a aprovação de suas masculinidades, e muito raramente falam dos atributos não sexuais de suas parceiras. Muitas mulheres, não por coincidência as parceiras dos mencionados anteriormente , fazem todo infeliz ser humano disponível ouvir absolutamente tudo sobre o quanto seus parceiros são os os caras mais fodas do planeta e muito, muito raramente falam com orgulho de algum encontro sexual. Com isso cada um satisfaz as compulsões do superego ; a mulher prova à sociedade que sua beleza e temperamento agradável atraiu um homem virtuoso e o homem prova que sua virtude atraiu uma bela mulher. Quando essa história acaba bem, ela termina em um divórcio antes do terceiro filho. Do contrário ela dura uns quarenta anos e mais uma geração aprende que o amor é uma união entre dois seres superficiais e inseguros, entre um que precisa mandar e outro que precisa obedecer.
" Mas o que isso tem a ver com meritocracia ? " Nada, foi apenas uma digressão. Você continua lendo, então não reclame. Talvez você continue lendo não por tédio mas por ter percebido que eu me aproximo de alguma questão importante...
Podemos construir socialmente a noção de que determinada faixa de preço é justa para determinado produto, ou de que determinada punição é justa como resposta a uma determinada ação. Mas esperar que uma sociedade na qual indivíduos tão diferentes possuem algum grau de liberdade civil resulte em um arranjo particular que possa ser chamado objetivamente de justo é uma expectativa semelhante a exigir que a natureza seja justa no amor. Por exemplo, nossos oficiais de justiça se orgulham de trancafiar assassinos, estupradores, golpistas, traficantes, etc, cada um sendo enjaulado por um tempo proporcional à gravidade do crime e à falta de fatores atenuantes. Nossa sociedade parece satisfeita com isso, levantando objeções apenas à falta de políticos corruptos sendo punidos. Mas pense por um momento: Se esses crimes são qualitativamente diferentes, por quê a punição varia apenas em quantidade ? Ou seja, se um ladrão não causa o mesmo tipo de aversão que um assassino, porque a única diferença no tratamento entre os dois está na quantidade de tempo em cárcere ? Não deveriam ser aplicados também tipos de punição diferentes nesses e em outros casos que são tratados da mesma forma ?
Observe com atenção os discursos nos quais o termo justiça é utilizado, e você perceberá o forte apelo estético do termo -- ele se apoia em afetos tanto quanto em razões. Colecionar criminosos em penitenciárias não faz sentido, mas não deixa de satisfazer o desejo de justiça de muitos, porque não se trata de uma consequência lógica mas de um desejo e de sua construção psicológica e cultural. Essa construção varia entre grupos de indivíduos e uma única sociedade na qual esses grupos distintos convivem nunca poderia satisfazer a demanda por justiça em todos eles ao mesmo tempo, o que levanta sérias dúvidas sobre a demanda em si mesma. Mesmo no plano mais particular, existem vantagens e desvantagens que um indivíduo carrega a partir do momento que nasce onde nasce, assim que nasce com sua herança genética e histórica e não com outras. Sendo a sociedade uma coleção desses indivíduos que não apenas tem vantagens e desvantagens hereditárias mas estão fadados a competir uns com os outros e a ver suas vontades colidindo com outras opostas, a expectativa de que a sociedade seja justa é de fato semelhante àquela de que o universo seja justo com o sujeito.
Supostamente possuímos uma série de " direitos humanos " com a função de colocar os diversos indivíduos na mesma situação básica, uma situação na qual o indivíduo tem oportunidades e um grau suficiente de segurança. Mas o que são efetivamente esses direitos ? Veja aqui a lista de todos os seus direitos. " Todo indivíduo tem direito à vida. " O que isso significa ? O que isso poderia significar? Todas as vezes nas quais um indivíduo evoca seus " direitos " para obter algo, seus interlocutores mostram concepções distintas daqueles direitos, e as autoridades se mostram por completo inflexíveis a esse discurso. O fato de que temos " direitos " não torna a justiça social mais plausível. A filosofia política indiana nos ensina : " A força faz o direito ". " Força " nesse contexto não significa estritamente força militar ou força bruta individual, mas o conjunto geral das qualidades que são capazes de influenciar e coagir, como a inteligência, a riqueza material, a beleza, etc. Se você observar seus professores, por exemplo, você notará que alguns têm naturalmente poder e autoridade enquanto outros não, apesar de todos terem o mesmo título e os mesmos direitos. Uns precisam desesperadamente ameaçar e fazer chantagens emocionais para conseguir alguma coisa dos seus supostos subordinados ( subordinados por direito apenas ), enquanto outros conseguem tudo o que esperam naturalmente daqueles que, por vontade própria, são seus discípulos. A força faz o direito, porque o verdadeiro direito chama-se poder -- convencer a população a pedir direitos em vez de ensiná-la a obter poder é mais um mecanismo de perpetuação do status quo.
Cada indivíduo tem o potencial para ter poder de uma forma que é, se não absolutamente singular, muito rara e memorável. Se todos somos ou deveríamos ser iguais diante da lei, essa é ainda mais uma razão pela qual a lei é algo a ser superado, mais um resto das sociedades arcaicas que insistimos em arrastar para além da vida útil. Muitos indivíduos hoje clamam por uma sociedade mais justa, sem miséria, sem discriminação, etc. Mas na enorme maioria dos casos os indivíduos hoje não cultivam a própria interioridade o bastante, não cultivam a própria criatividade, não sabem ter poder, apenas reclamar e exigir " direitos ". Uma verdadeira superação das relações sociais como são hoje irá exigir um novo conceito de justiça, algo mais vigoroso e recente que as velharias marxistas e iluministas que os intelectuais fracassados*³ ensinam e a juventude aprende a reproduzir como um rebanho -- como a sociedade poderá mudar através da reciclagem infinita das mesmas acusações e reclamações ? Para que a filosofia de um indivíduo tenha poder sobre a realidade, ela precisa ser vivida, mais do que falada e pensada. Kantianos ou hegelianos, por exemplo, que simplesmente leem as obras e escrevem textos de comentário a esses autores nunca poderiam realizar nada na sociedade, porque eles não podem viver a filosofia de alguém que morreu a mais de dois séculos e que deixou apenas os livros e a poeira dos ossos para traz. Os comentadores e seguidores de intelectuais deveriam, se não são inúteis e preguiçosos como eu desconfio, tomar suas obras prediletas como fonte de inspiração para suas próprias obras, que poderiam ser inspiradoras em nosso tempo. Sempre acho profundamente irônico que kantianos tomem Kant como um tutor em vez de pensarem com a própria razão, que eles citem de maneira estagnada e resignada em seus artigos-para-ninguém palavras como " Sapere aude! ". Dizem que os " seguidores " dos filósofos ( e outros tipos de autores ) têm a função de mostrar a relevância de tais obras, mas note que cada palavra que eles escrevem transformam esses maravilhosos e poderosos discursos em apenas palavras e citações. A torre de marfim banaliza o conhecimento, ela está ainda cem metros abaixo do " senso comum " que tanto repreende.
Vou lhe oferecer meu conceito de justiça, como inspiração. Se um indivíduo é admiravelmente inteligente, é injusto tratá-lo como imbecil, subestimando suas habilidades. Se um indivíduo não tem uma virtude, mas é capaz de tê-la, é injusto aprisioná-lo na situação atual e impedir que ele tente realizar seu potencial. Se um indivíduo é sinceramente afetuoso, é injusto tratá-lo com frieza, ferindo seus sentimentos nobres. Se uma autoridade é de direito apenas, sem poder, é tolo e injusto tratá-la como se tivesse ou merecesse poder, alimentando seu narcisismo. Se alguém diz ou faz uma tolice, essa tolice deve ser corrigida e repreendida em justa medida, mas é injusto definir um ser humano com base na observação de uma ação, seja valorosa ou desprezível. Todo ser humano pode se esclarecer e evoluir ( ou decair ) , então suas ações devem ser respondidas com isso em mente. É injusto tratar intelectuais como deuses da sabedoria acima de nós porque isso ao mesmo tempo lhes confere um status não merecido ( Kant racista, Heidegger nazista, etc. ) e nos rebaixa, nos tira da posição de realizar o nosso potencial como eles realizaram o deles. Também é injusto tratar um ser humano, qualquer um que seja, como se nunca fosse possível que ele dissesse algo genial ou fizesse algo valoroso, isso é colocar sobre alguém a nossa visão limitada sobre o seu ser como se fosse uma verdadeira limitação do seu ser e da sua vida, que apenas ele mesmo pode julgar. A balança da justiça pesa as virtudes e vícios de cada um. O entulho conceitual que é arrastado em grande parte das discussões sobre justiça social é desprovido de auto-conhecimento e não diz respeito a nada que possa medir ou elevar a dignidade humana. Justiça não é igualdade, justiça é digna retribuição. Não se encontra o que é justo pela via da demagogia, mas pela via da razão e da empatia.
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Notas:
*1 : Argumentos que se baseiam na natureza humana muitas vezes são falaciosos ou confusos e escondem o verdadeiro ponto da discussão. Por exemplo, nos debates sobre a aprovação do casamento homossexual e do projeto conhecido como " cura gay ", ambos os lados caíram na discussão sobre a homossexualidade ser uma escolha ou algo inato do indivíduo. Aqueles que queriam tratar a homossexualidade como um distúrbio afirmavam que se trata de uma escolha ou de uma corrupção reversível, porque a natureza humana prescreve relações entre sexos opostos, segundo a bíblia. Aqueles que queriam afirmar que a homossexualidade é algo a ser respeitado afirmavam que não se trata de uma escolha, com o respaldo de cientistas que tentavam explicar como na evolução a homossexualidade foi passada de geração e geração, chegando a discussões patéticas ( mesmo de um ponto de vista estritamente científico ) como a do " gene gay ". Ambos os lados queriam provar que a natureza humana é desta ou daquela forma para coagir aqueles que discordavam de suas idiossincrasias. Suponha que fosse provado em absoluto que ser gay é uma escolha. Isso provaria realmente que a homossexualidade é ruim para a sociedade ? E suponha que fosse provado em absoluto que não é uma escolha. Isso provaria que não é imoral ? Se eu faço um piercing ou uma tatuagem ninguém irá afirmar que isso é imoral porque eu me desviei da forma natural do meu corpo. Se um sujeito mata outro por ter alguma doença cerebral que lhe tira o controle sobre seus impulsos, isso não muda o fato de que o sujeito cometeu assassinato, de que ele é perigoso. A discussão sobre a escolha ou determinação da homossexualidade é no fundo irrelevante, porque o que importa nas políticas públicas e mudanças na legislação é avaliar as consequências sociais da prática, não a natureza humana, um objeto que talvez seja em si falso ou irrazoável.
*2 : Creio que o principal papel da racionalidade nessas questões é organizar e examinar as experiências e vivências para que possamos aprender algo a partir delas. Se eu me prendesse simplesmente à inclinação de ver o feminismo de maneira favorável, bastaria uma série de experiências desagradáveis com mulheres ( que de fato tive ) para reverter o quadro. Mas observando mulheres competentes cheguei a fórmulas, noções mais gerais e abstratas sobre em quais situações e com qual base um indivíduo pode ser julgado. A hipocrisia dos debates objetivos está em afirmar que a racionalidade na política é a priori. Por outro lado, também discordo daqueles que tratam as " vivências de opressão " como posição de autoridade, afirmando que ter ou não essas vivências distingue quem entende ou não a questão em discussão. Esse tipo de discurso parece implicar que não existe racionalidade nem empatia possível entre os indivíduos, e não por coincidência essas qualidades faltam nas discussões em que esse discurso surge ou tem que surgir.
*3 : Aqueles que chegam na posição de autoridade intelectual sem obter poder ( no caso, sabedoria ) durante o processo, fracassaram. Isso não é um julgamento, é uma constatação. Se um intelectual não consegue entrar na história que ele estuda, não consegue realizar sua própria obra, ele não tem valor em si na sua profissão, ele é apenas uma ferramenta. Professores com rica sabedoria lotam salas sem cobrar presença, professores com mero acúmulo de conteúdo precisam cobrar presença e fazer chantagens práticas e emocionais . Sábios atraem pessoas interessadas em dialogar com eles sobre questões filosóficas, artísticas e científicas como um fim em si, ferramentas humanas atraem alunos interessados em ganhar um salário para estudar ou em cumprir os requisitos da carreira acadêmica. Os pretensos intelectuais que não conseguem inspirar novas e poderosas ideias e que como agravante transformam palavras de liberdade em citações a serem reproduzidas em uma estrutura autoritária chegaram precisamente nisso -- em um fracasso. " Não julgue, não seja maldoso " me dizem. Será melhor deixar, então, que um indivíduo continue apodrecendo na realidade enquanto contempla sua bela imagem na superfície de um lago de sonhos?
Fingir que ninguém erra ou fracassa não é tolerância nem humildade.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
A Grande Obra
A criatividade não é uma ocorrência aleatória, uma espécie de talento com o qual uns indivíduos são abençoados e outros não. Criar consiste em entender e transformar. Compreender a situação atual de um objeto qualquer ( seja concreto ou abstrato ), entender suas propriedades, sua história e, portanto, vislumbrar algumas de suas possibilidades não exploradas. A partir disso, um indivíduo pode transformar o que observa segundo uma ideia sua, como quando um escultor faz de um bloco de mármore uma estátua de mármore, ou quando um cientista organiza experiências e conceitos relacionados na forma de teorias. Ter criatividade significa cultivar o hábito prático e intelectual de conhecer com o desejo de transformar, significa cultivar o amor pela renovação e, talvez acima de tudo, amar as ideias a ponto de se ter o desejo de torná-las vivas, plenamente efetivas na realidade.
As criações artísticas, filosóficas e científicas têm um papel de renovação. Mesmo as melhores ideias, sejam teoremas ou ideologias, se gastam com o tempo, deixam de fortalecer, esclarecer e possibilitar, eventualmente se tornam um fardo. Ideias criam laços entre indivíduos, dão um sentido ao mundo, destacam fenômenos difíceis de perceber, mas esse poder se desgasta e se inverte conforme os tempos mudam, conforme novos indivíduos com novas aspirações nascem, conforme novos entes do mundo são descobertos. Tome por exemplo o marxismo. A teoria marxista que um dia trouxe à humanidade toda uma nova discussão e que uma vez inflamou centenas de milhares de corações com o desejo de transformar o mundo hoje é um entulho conceitual que os acadêmicos arrastam e ensinam a arrastar precisamente para não mudar o mundo, simulando a mudança no discurso, como um prêmio de consolação.
Na área da sociologia, a seguinte afirmação é comum " Um sociólogo precisa conhecer Marx, Weber e Durkheim ". Mas por qual razão? Será porque as ideias importantes desses autores apenas podem ser acessadas lendo a obra dos mesmos -- e não observando a realidade que supostamente eles explicam tão bem? Ou será porque é impossível falar e ser respeitado no meio da sociologia sem se demonstrar extensiva leitura de determinadas obras que são associadas, culturalmente , à expertise nas questões sociais ?
Você realmente acredita que os termos " burguesia " e " proletariado " são suficientes ou mesmo úteis para entender e transformar as relações econômicas da nossa sociedade, hoje ? O materialismo histórico se tornou metafísica pura e de má qualidade, é hoje uma desculpa para se preferir os livros em vez da observação e da introspecção, uma desculpa para se enquadrar indivíduos em categorias ignorando a vontade e a opinião dos mesmos. A maioria dos cientistas sociais e economistas atuais não continua o trabalho de Marx, eles o tomam como coisa terminada, confirmada a priori. Hoje em dia o marxismo aliena e divide -- até mesmo gera lucro fácil.
Aqueles que são contaminados pelo cientificismo norte americano ou que persistem no positivismo desenvolvem um enorme apego por algum conjunto específico de argumentos e teorias, como se a verdade tivesse que ser expressa por aquelas palavras, como se aquelas palavras fossem a verdade. Uma observação geral da história do conhecimento mostra, porém, o grau de arbitrariedade presente na escolha de uns nomes em favor de outros, de uns argumentos em favor de outros. Dizem por exemplo que a cosmologia geocêntrica de Aristóteles começou a ser contestada na modernidade, porque apenas nessa época o avanço da discussão foi possível. Isso é inteiramente falso. Muitos filósofos já na Grécia antiga afirmavam que o Sol deveria estar imóvel, sem nenhuma evidência empírica, conceito filosófico ou fórmula matemática que estivesse indisponível aos defensores do geocentrismo. Porém, nenhum desses muitos filósofos foi mentor de Alexandre, tampouco tiveram suas teses adotadas como aquilo que melhor explicava a narrativa da bíblia. Não estou afirmando que nossas teorias são regras fúteis ou que não existe verdade. Estou chamando sua atenção para a enorme influência cultural, política e mesmo econômica que existe em uma história do conhecimento que tratamos como se fosse uma pura dialética entre argumentos que temos a obrigação de continuar. Se temos alguma obrigação em relação ao conhecimento, essa obrigação consiste em mantê-lo atual, em mantê-lo a favor dos vivos e da vida, algo que se faz com coragem e auto confiança, e não com adoração ao passado e ao alheio.
Uma resposta comum que alguns acadêmicos têm a essa questão é a convicção de que embora nossos conceitos e teoremas sejam em grande medida arbitrários e substituíveis por outros que poderiam refletir a verdade com igual ou maior potência, a grande maioria de nós cometeria apenas enganos embaraçosos ao divergir da norma, então é melhor que as teorias até então eficientes sejam ensinadas como a algo a ser reproduzido. Se trata de uma opção pela mediocridade geral como forma de prevenir erros graves. Esse tipo de resposta que aparece em todos os centros e cantos de nossa sociedade revela ao mesmo tempo uma enorme covardia e uma forte tendência autoritária. Esse medo mortal do erro dificilmente se trata de um compromisso moral com o bom desempenho, em quase todos os casos se trata do medo da humilhação que se segue quando erramos diante dos outros. Sob o peso desse terror narcisista, esses indivíduos ficam paralisados e envoltos por mentiras que eles reforçam uns nos outros. Qualquer um sabe que não se pode acertar sem se correr o risco de errar, e isso deveria fazer de todo sujeito invicto um objeto de suspeita, não de admiração. O autoritarismo se revela quando esses indivíduos aplicam essa restrição também sobre os outros, censurando com extrema severidade qualquer erro e concedendo muito pouco aos trabalhos que divergiram da norma com sucesso -- a não ser que o autor esteja morto há uns 200 anos ou esteja na moda. Hoje em dia o combate ao autoritarismo em diversos âmbitos está na pauta da maior parte dos movimentos sociais, e também nas discussões que eles provocam, como a do feminismo, por exemplo. Mas creio que enquanto esse cenário no qual temos medo e ensinamos o medo aos outros não for revertido, novas e mais elevadas relações sociais não serão construídas, porque nós ainda não estaremos à altura disso.
Quando eu lhe expliquei que as ideias se gastam ao longo do tempo, você talvez tenha se lembrado de algum texto ou obra antiga que mudou sua vida, e pensado no contraste desse poder com a irrelevância de inúmeras outras obras recentes que você quase se arrepende de ter contemplado. " Os clássicos são imortais ". Falso. Os clássicos são inspiradores. Note como os grandes artistas, cientistas e filósofos citam uns aos outros, como eles fazem de seus antecessores anjos e demônios e depois compare isso com o efeito que as citações têm em trabalhos medíocres. Uma citação de Platão, vinda de um espírito vazio, não vale mais que um anúncio da Coca-Cola ou algo do tipo. Platão está morto, não acessamos " as ideias de Platão " mas sim aquilo que fazemos com as palavras deixadas por ele. Suas obras são hoje uma sepultura, que serve para inspirar em nós a espécie de grandeza que ele atingiu em vida. Se você tem um interesse por resgatar as ideias de Platão ( ou de qualquer outro ) tais como foram, saiba que esse seu espírito arqueológico seria mais útil na procura por fósseis de dinossauros ou na escavação de ruínas -- na busca por algo do passado que você poderia de fato encontrar.
Os espíritos radiantes inspiram uns aos outros, a energia aplicada em uma obra não se dissipa, ela inspira outros indivíduos ao mesmo tipo de esforço, a cultivar o mesmo tipo de energia. A forma imediatamente observável da obra pouco importa na troca entre nós criadores, o que se transmite entre nós não é esta ou aquela opinião, mas o fervor pelas ideias. A inspiração não determina nem influencia, ela liberta. O contato com uma obra divina pode -- se você tiver a coragem -- incinerar seu espírito, reduzir a cinzas aquilo que há de fraco e falso na sua mente e te transformar em uma fonte dessa mesma chama. O contato com as palavras frívolas que consumimos aos montes hoje, seja nos posts do Facebook que repetem a mesma piada de mil maneiras ou nas polêmicas que nos desviam da verdadeira discussão apenas acumula mais entulho mental, mais ideias que gastam seu tempo e sua memória com nada. E, entre nós, é precisamente esse o plano e o objeto de consumo : perder tempo. Maquiavel notou antes de mim que " A virtude é mais admirada que imitada ". As grandes obras não são ignoradas, nós somos ignorados, nós nos ignoramos.
Você nota que eu trato de extremos, como em um mero exercício de pensamento. " Existem os criadores e os perdedores de tempo ". Mas isso não pode ser verdade. Pessoas são influenciadas por grandes obras o tempo todo, diretamente e indiretamente por intermédio de outras pessoas, inclusive nessas trocas que eu chamei de frívolas e nesses espaços acadêmicos que eu chamo de autoritários e covardes. Repare no termo " influência ". Você diria que Platão influenciou Agostinho, que Schopenhauer influenciou Nietzsche. Onde você aprendeu isso? Eis porque eu crio esses extremos, porque carrego os termos de significado com uma narrativa que eu invento. Isso é metafísica, isso pode salvar ou enlouquecer -- e pouco me importa qual dos dois será o resultado final, me importa apenas que o resultado intermediário é a liberdade. Você pode falar em influências e determinar seu universo mental segundo aquilo com o qual você por acaso teve contato, você pode falar em inspiração e cultivar suas próprias ideias a partir do contato com o fervor de certas outras, você pode ignorar todos esses termos e pode criar ainda outros ou carregar outros termos comuns com seus próprios significados arbitrários. A escolha é por inteiro sua, meu papel aqui é apenas lhe lembrar que suas palavras e sua linguagem tem esse poder existencial, que existe uma arte incompreendida do pensamento que podemos chamar de " metafísica " que não é ensinada ( nem bem compreendida ) pelos seus professores de filosofia. " Kant e o fim da metafísica "*¹ é uma excelente perda de tempo, entre muitas outras do mesmo tipo, caso você prefira a Matrix.
No texto que considero a primeira parte deste, afirmei que nós não, efetivamente, criamos nada, apenas rearranjamos as possibilidades infinitas do mundo segundo nossas ideias. Agora, depois de mais ou menos um ano, percebo que essa afirmação precisa de um esclarecimento fundamental. Podemos falar em criação no sentido teológico, no qual um ser superior originou a natureza com seu poder, e podemos falar em criação no sentido humanista, no sentido de que um ser humano coloca seu espírito em uma porção dessa natureza para abrir novas possibilidades em si mesmo e nos outros, para ampliar capacidades emocionais, abrir novos horizontes, etc. Creio que está claro agora em que sentido eu afirmei que a criação não é humanamente possível, e em que sentido afirmei que a criação não é nada menos que uma necessidade. A determinação do universo é absoluta, de tal forma em sua escala cósmica que as ações de um indivíduo são irrelevantes para a manutenção dessa determinação, e precisamente essa indiferença permite que exista a liberdade. Se a ordem do universo dependesse de suas ações, você seria determinado(a) a agir da forma que afirma essa ordem ao máximo. Mas não existe tal dependência, então você pode agir desta ou daquela forma, segundo seu arbítrio. A inspiração fortalece justamente esse arbítrio, seja qual for a sua fonte.
Uma última coisa importante de se notar sobre a inspiração é que ela é o total oposto da depressão. Da mesma forma que algumas pessoas, obras e ideias são inspiradas e inspiradoras, existem aquelas que são igualmente deprimidas e deprimentes. Hoje à noite, revisite sua obra favorita, fique com o coração cheio de fogo e luz e, na manhã seguinte, vá ao seu trabalho, veja toda aquela resignação, veja onde sua inspiração vai parar. A histeria era uma doença extremamente comum nas mulheres da Era Vitoriana, mas hoje é bastante rara, sem que nenhum medicamento preventivo tenha sido desenvolvido, sem que a doença tenha sido completamente compreendida. A depressão é uma doença extremamente comum atualmente, sem que a sociedade tenha realmente descoberto novos terrores. Coincidência? Assim como a peste negra não poderia ter sido o que foi se na Baixa Idade Média a esmagadora maioria da população não vivesse praticamente no lixo e a igreja não levasse ninguém a consultar os céus em vez de observar os fatos, a histeria não poderia ter sido tão comum na Era Vitoriana sem aquela peculiar moralização do sexo que criava entre os impulsos e os pensamentos a pior relação possível.
A depressão suicida é tão comum hoje porque por um lado deixamos aquele autoritarismo explícito que designava a cada um seu papel, enquanto por outro mantemos um autoritarismo implícito que impede que cada um faça o que quer fazer com sua liberdade, através do medo da humilhação. Ninguém determina para nós quem somos, mas aprendemos a colocar mil barreiras entre nós e aquilo que queremos ser, e assim passamos os dias sentindo como se fossemos nada.*² A sensação que se pode notar nos registros do século 20, de um mundo em estado transitório entre a civilização de sempre e um novo mundo livre, se foi. O passado foi destruído e ridicularizado, mas a falta de coragem fez com que o futuro se perdesse de vista, fez com que os sonhos evaporassem. E assim continuamos arrastando este limbo. Nada deprime mais que o tédio. Todos aqueles que são honestos o bastante para ver que os rebuliços das redes sociais são tolices e fachadas podem ver nossa sociedade como está: hipocrisia e tédio, com alguns lampejos de inspiração. Cabe a nós multiplicá-los -- ou entupir todos os depressivos com remédios. " É um distúrbio químico! Não faz sentido de outra forma ! " ...
Somos todos únicos, repletos de potencial e de ideias que podem ser cultivadas ou reprimidas. Quando um indivíduo cria algo, seu potencial se realiza e uma ideia sua se efetiva como parte do mundo. Existe nisso um profundo poder que fortalece o indivíduo e melhora o coletivo. O indivíduo que cria não precisa ser validado por outros, não precisa viver buscando a opinião alheia, mendigando elogios e temendo a humilhação, ele encontra a segurança em seu caminho, naquilo que decidiu fazer. E aquilo que ele decidiu fazer traz beleza ao mundo, traz a sua beleza ao mundo. Alguns tratam a criatividade como instrumento, afirmando que surge periodicamente um tipo excêntrico que cria algo grandioso que compensa os anos de letargia por parte dos demais, que nós podemos ( e devemos ) simplesmente apreciar os resultados dos grandes, sem preocupar-nos com isso tudo. Minha objeção a isso, que poucos parecem entender, é artística e ética. É injusto com os grandes incumbi-los dos tantos sacrifícios que ir contra tudo e todos envolve, e é grotesco organizar a sociedade dessa forma, como um vasto campo frígido no qual explosões vulcânicas ocorrem esporadicamente. A futilidade e a gravidade poderiam ser melhor equilibradas entre os dois lados, não? Os gênios não precisam ser privados das coisas mundanas e as coisas mundanas não precisam ser tão frívolas. O valor absoluto do indivíduo não precisa ser algo abstrato, um " direito " seja lá o que isso for. Esse valor pode se dar através da afirmação artística, filosófica e afetiva do indivíduo.*³
É neste sentido que a humanidade pode evoluir, no indivíduo e na espécie : Elevando a força, o amor e a diversidade ao limite, e elevando também esse limite. E isso não se realiza entre narcisistas, que cultivam a certeza na própria identidade e nada mais, nem entre aqueles que abandonam a razão em favor da liberdade que é apenas um meio para que a determinação venha de dentro ( isso é poder ), nem entre cínicos que não têm olhos para o que está latente , nem entre fracos que usam a comunicação constante como forma de disfarçar o vazio, nem entre santos que prometem e buscam outro mundo se negando a dar beleza a este, nem entre os examinadores frios e superficiais que querem despojar todas a belezas do mundo chamado-as de ilusões, nem entre os agitadores que escondem o fato de que amam o caos e a violência, e não a sociedade ou " os direitos ", nem entre os mestres da torre de marfim que inventam mil razões para tudo e censuram outras mil, mas nunca fazem ou criam nada de valor, nada honesto, e isso também não se realiza entre os resignados que acreditam que todo desejo de mudança passa com a juventude, uma forma de propagar os próprios erros em vez de corrigi-los. Um mundo livre, forte e belo -- todos temos muito a fazer e mudar em nós e na sociedade até que isso seja completamente criado, nossa Magnum Opus.
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*1 - Sem ofensa, Lebrun! Alguém precisa dizer " o espírito francês chegou à décadence ". Mas os mortos, incluindo aqueles que ainda respiram por aí, podem descansar em paz... Eu vivo.
*2 - Não ignoro que existem barreiras práticas para que nos tornemos quem queremos ser. Certamente uma pessoa criada sem liberdade civil nenhuma, seja por razões políticas ou econômicas, se resigna por uma razão distinta do medo da humilhação. Note, porém, que depressão e sofrimento são diferentes, e que a condição para a depressão é a liberdade sem propósito. Somos educados para cultivar a liberdade como um ideal e como uma necessidade do ego, mas não somos educados para tomar decisões por conta própria e assumir compromissos. Em outras palavras, a sociedade não nos ensina a obter poder, apenas a sonhar com possibilidades, e esse sonhar sem agir nos devora.
*3 - Foi isso que os defensores da ética deontológica, do valor absoluto do indivíduo como causa e fundamento do restante da moralidade, não perceberam ou souberam expressar. Isso também é mal compreendido pelas éticas pragmáticas e utilitaristas, que trocam ouro por cobre, subestimando esse potencial em favor de ganhos simples. O valor do indivíduo não é abstrato nem é uma convenção necessária. A intensidade intelectual e emocional que cada indivíduo pode trazer ao mundo é insubstituível. Disso decorre que a sociedade tem o dever de dar ao indivíduo ferramentas, de não lhe ser uma ameaça, de não lhe tornar vazio, nem lhe dar razões para ser violento e destrutivo com os outros indivíduos, porque desse valor absoluto se segue que o amor é o único caminho para a sociedade, que tudo aquilo que destrói e separa os indivíduos, por dentro ou por fora, é por essência perverso, fraco e grotesco. Nenhuma lei pode substituir esse conhecimento, o fundamento único da justiça.
As criações artísticas, filosóficas e científicas têm um papel de renovação. Mesmo as melhores ideias, sejam teoremas ou ideologias, se gastam com o tempo, deixam de fortalecer, esclarecer e possibilitar, eventualmente se tornam um fardo. Ideias criam laços entre indivíduos, dão um sentido ao mundo, destacam fenômenos difíceis de perceber, mas esse poder se desgasta e se inverte conforme os tempos mudam, conforme novos indivíduos com novas aspirações nascem, conforme novos entes do mundo são descobertos. Tome por exemplo o marxismo. A teoria marxista que um dia trouxe à humanidade toda uma nova discussão e que uma vez inflamou centenas de milhares de corações com o desejo de transformar o mundo hoje é um entulho conceitual que os acadêmicos arrastam e ensinam a arrastar precisamente para não mudar o mundo, simulando a mudança no discurso, como um prêmio de consolação.
Na área da sociologia, a seguinte afirmação é comum " Um sociólogo precisa conhecer Marx, Weber e Durkheim ". Mas por qual razão? Será porque as ideias importantes desses autores apenas podem ser acessadas lendo a obra dos mesmos -- e não observando a realidade que supostamente eles explicam tão bem? Ou será porque é impossível falar e ser respeitado no meio da sociologia sem se demonstrar extensiva leitura de determinadas obras que são associadas, culturalmente , à expertise nas questões sociais ?
Você realmente acredita que os termos " burguesia " e " proletariado " são suficientes ou mesmo úteis para entender e transformar as relações econômicas da nossa sociedade, hoje ? O materialismo histórico se tornou metafísica pura e de má qualidade, é hoje uma desculpa para se preferir os livros em vez da observação e da introspecção, uma desculpa para se enquadrar indivíduos em categorias ignorando a vontade e a opinião dos mesmos. A maioria dos cientistas sociais e economistas atuais não continua o trabalho de Marx, eles o tomam como coisa terminada, confirmada a priori. Hoje em dia o marxismo aliena e divide -- até mesmo gera lucro fácil.
Aqueles que são contaminados pelo cientificismo norte americano ou que persistem no positivismo desenvolvem um enorme apego por algum conjunto específico de argumentos e teorias, como se a verdade tivesse que ser expressa por aquelas palavras, como se aquelas palavras fossem a verdade. Uma observação geral da história do conhecimento mostra, porém, o grau de arbitrariedade presente na escolha de uns nomes em favor de outros, de uns argumentos em favor de outros. Dizem por exemplo que a cosmologia geocêntrica de Aristóteles começou a ser contestada na modernidade, porque apenas nessa época o avanço da discussão foi possível. Isso é inteiramente falso. Muitos filósofos já na Grécia antiga afirmavam que o Sol deveria estar imóvel, sem nenhuma evidência empírica, conceito filosófico ou fórmula matemática que estivesse indisponível aos defensores do geocentrismo. Porém, nenhum desses muitos filósofos foi mentor de Alexandre, tampouco tiveram suas teses adotadas como aquilo que melhor explicava a narrativa da bíblia. Não estou afirmando que nossas teorias são regras fúteis ou que não existe verdade. Estou chamando sua atenção para a enorme influência cultural, política e mesmo econômica que existe em uma história do conhecimento que tratamos como se fosse uma pura dialética entre argumentos que temos a obrigação de continuar. Se temos alguma obrigação em relação ao conhecimento, essa obrigação consiste em mantê-lo atual, em mantê-lo a favor dos vivos e da vida, algo que se faz com coragem e auto confiança, e não com adoração ao passado e ao alheio.
Uma resposta comum que alguns acadêmicos têm a essa questão é a convicção de que embora nossos conceitos e teoremas sejam em grande medida arbitrários e substituíveis por outros que poderiam refletir a verdade com igual ou maior potência, a grande maioria de nós cometeria apenas enganos embaraçosos ao divergir da norma, então é melhor que as teorias até então eficientes sejam ensinadas como a algo a ser reproduzido. Se trata de uma opção pela mediocridade geral como forma de prevenir erros graves. Esse tipo de resposta que aparece em todos os centros e cantos de nossa sociedade revela ao mesmo tempo uma enorme covardia e uma forte tendência autoritária. Esse medo mortal do erro dificilmente se trata de um compromisso moral com o bom desempenho, em quase todos os casos se trata do medo da humilhação que se segue quando erramos diante dos outros. Sob o peso desse terror narcisista, esses indivíduos ficam paralisados e envoltos por mentiras que eles reforçam uns nos outros. Qualquer um sabe que não se pode acertar sem se correr o risco de errar, e isso deveria fazer de todo sujeito invicto um objeto de suspeita, não de admiração. O autoritarismo se revela quando esses indivíduos aplicam essa restrição também sobre os outros, censurando com extrema severidade qualquer erro e concedendo muito pouco aos trabalhos que divergiram da norma com sucesso -- a não ser que o autor esteja morto há uns 200 anos ou esteja na moda. Hoje em dia o combate ao autoritarismo em diversos âmbitos está na pauta da maior parte dos movimentos sociais, e também nas discussões que eles provocam, como a do feminismo, por exemplo. Mas creio que enquanto esse cenário no qual temos medo e ensinamos o medo aos outros não for revertido, novas e mais elevadas relações sociais não serão construídas, porque nós ainda não estaremos à altura disso.
Quando eu lhe expliquei que as ideias se gastam ao longo do tempo, você talvez tenha se lembrado de algum texto ou obra antiga que mudou sua vida, e pensado no contraste desse poder com a irrelevância de inúmeras outras obras recentes que você quase se arrepende de ter contemplado. " Os clássicos são imortais ". Falso. Os clássicos são inspiradores. Note como os grandes artistas, cientistas e filósofos citam uns aos outros, como eles fazem de seus antecessores anjos e demônios e depois compare isso com o efeito que as citações têm em trabalhos medíocres. Uma citação de Platão, vinda de um espírito vazio, não vale mais que um anúncio da Coca-Cola ou algo do tipo. Platão está morto, não acessamos " as ideias de Platão " mas sim aquilo que fazemos com as palavras deixadas por ele. Suas obras são hoje uma sepultura, que serve para inspirar em nós a espécie de grandeza que ele atingiu em vida. Se você tem um interesse por resgatar as ideias de Platão ( ou de qualquer outro ) tais como foram, saiba que esse seu espírito arqueológico seria mais útil na procura por fósseis de dinossauros ou na escavação de ruínas -- na busca por algo do passado que você poderia de fato encontrar.
Os espíritos radiantes inspiram uns aos outros, a energia aplicada em uma obra não se dissipa, ela inspira outros indivíduos ao mesmo tipo de esforço, a cultivar o mesmo tipo de energia. A forma imediatamente observável da obra pouco importa na troca entre nós criadores, o que se transmite entre nós não é esta ou aquela opinião, mas o fervor pelas ideias. A inspiração não determina nem influencia, ela liberta. O contato com uma obra divina pode -- se você tiver a coragem -- incinerar seu espírito, reduzir a cinzas aquilo que há de fraco e falso na sua mente e te transformar em uma fonte dessa mesma chama. O contato com as palavras frívolas que consumimos aos montes hoje, seja nos posts do Facebook que repetem a mesma piada de mil maneiras ou nas polêmicas que nos desviam da verdadeira discussão apenas acumula mais entulho mental, mais ideias que gastam seu tempo e sua memória com nada. E, entre nós, é precisamente esse o plano e o objeto de consumo : perder tempo. Maquiavel notou antes de mim que " A virtude é mais admirada que imitada ". As grandes obras não são ignoradas, nós somos ignorados, nós nos ignoramos.
Você nota que eu trato de extremos, como em um mero exercício de pensamento. " Existem os criadores e os perdedores de tempo ". Mas isso não pode ser verdade. Pessoas são influenciadas por grandes obras o tempo todo, diretamente e indiretamente por intermédio de outras pessoas, inclusive nessas trocas que eu chamei de frívolas e nesses espaços acadêmicos que eu chamo de autoritários e covardes. Repare no termo " influência ". Você diria que Platão influenciou Agostinho, que Schopenhauer influenciou Nietzsche. Onde você aprendeu isso? Eis porque eu crio esses extremos, porque carrego os termos de significado com uma narrativa que eu invento. Isso é metafísica, isso pode salvar ou enlouquecer -- e pouco me importa qual dos dois será o resultado final, me importa apenas que o resultado intermediário é a liberdade. Você pode falar em influências e determinar seu universo mental segundo aquilo com o qual você por acaso teve contato, você pode falar em inspiração e cultivar suas próprias ideias a partir do contato com o fervor de certas outras, você pode ignorar todos esses termos e pode criar ainda outros ou carregar outros termos comuns com seus próprios significados arbitrários. A escolha é por inteiro sua, meu papel aqui é apenas lhe lembrar que suas palavras e sua linguagem tem esse poder existencial, que existe uma arte incompreendida do pensamento que podemos chamar de " metafísica " que não é ensinada ( nem bem compreendida ) pelos seus professores de filosofia. " Kant e o fim da metafísica "*¹ é uma excelente perda de tempo, entre muitas outras do mesmo tipo, caso você prefira a Matrix.
No texto que considero a primeira parte deste, afirmei que nós não, efetivamente, criamos nada, apenas rearranjamos as possibilidades infinitas do mundo segundo nossas ideias. Agora, depois de mais ou menos um ano, percebo que essa afirmação precisa de um esclarecimento fundamental. Podemos falar em criação no sentido teológico, no qual um ser superior originou a natureza com seu poder, e podemos falar em criação no sentido humanista, no sentido de que um ser humano coloca seu espírito em uma porção dessa natureza para abrir novas possibilidades em si mesmo e nos outros, para ampliar capacidades emocionais, abrir novos horizontes, etc. Creio que está claro agora em que sentido eu afirmei que a criação não é humanamente possível, e em que sentido afirmei que a criação não é nada menos que uma necessidade. A determinação do universo é absoluta, de tal forma em sua escala cósmica que as ações de um indivíduo são irrelevantes para a manutenção dessa determinação, e precisamente essa indiferença permite que exista a liberdade. Se a ordem do universo dependesse de suas ações, você seria determinado(a) a agir da forma que afirma essa ordem ao máximo. Mas não existe tal dependência, então você pode agir desta ou daquela forma, segundo seu arbítrio. A inspiração fortalece justamente esse arbítrio, seja qual for a sua fonte.
Uma última coisa importante de se notar sobre a inspiração é que ela é o total oposto da depressão. Da mesma forma que algumas pessoas, obras e ideias são inspiradas e inspiradoras, existem aquelas que são igualmente deprimidas e deprimentes. Hoje à noite, revisite sua obra favorita, fique com o coração cheio de fogo e luz e, na manhã seguinte, vá ao seu trabalho, veja toda aquela resignação, veja onde sua inspiração vai parar. A histeria era uma doença extremamente comum nas mulheres da Era Vitoriana, mas hoje é bastante rara, sem que nenhum medicamento preventivo tenha sido desenvolvido, sem que a doença tenha sido completamente compreendida. A depressão é uma doença extremamente comum atualmente, sem que a sociedade tenha realmente descoberto novos terrores. Coincidência? Assim como a peste negra não poderia ter sido o que foi se na Baixa Idade Média a esmagadora maioria da população não vivesse praticamente no lixo e a igreja não levasse ninguém a consultar os céus em vez de observar os fatos, a histeria não poderia ter sido tão comum na Era Vitoriana sem aquela peculiar moralização do sexo que criava entre os impulsos e os pensamentos a pior relação possível.
A depressão suicida é tão comum hoje porque por um lado deixamos aquele autoritarismo explícito que designava a cada um seu papel, enquanto por outro mantemos um autoritarismo implícito que impede que cada um faça o que quer fazer com sua liberdade, através do medo da humilhação. Ninguém determina para nós quem somos, mas aprendemos a colocar mil barreiras entre nós e aquilo que queremos ser, e assim passamos os dias sentindo como se fossemos nada.*² A sensação que se pode notar nos registros do século 20, de um mundo em estado transitório entre a civilização de sempre e um novo mundo livre, se foi. O passado foi destruído e ridicularizado, mas a falta de coragem fez com que o futuro se perdesse de vista, fez com que os sonhos evaporassem. E assim continuamos arrastando este limbo. Nada deprime mais que o tédio. Todos aqueles que são honestos o bastante para ver que os rebuliços das redes sociais são tolices e fachadas podem ver nossa sociedade como está: hipocrisia e tédio, com alguns lampejos de inspiração. Cabe a nós multiplicá-los -- ou entupir todos os depressivos com remédios. " É um distúrbio químico! Não faz sentido de outra forma ! " ...
Somos todos únicos, repletos de potencial e de ideias que podem ser cultivadas ou reprimidas. Quando um indivíduo cria algo, seu potencial se realiza e uma ideia sua se efetiva como parte do mundo. Existe nisso um profundo poder que fortalece o indivíduo e melhora o coletivo. O indivíduo que cria não precisa ser validado por outros, não precisa viver buscando a opinião alheia, mendigando elogios e temendo a humilhação, ele encontra a segurança em seu caminho, naquilo que decidiu fazer. E aquilo que ele decidiu fazer traz beleza ao mundo, traz a sua beleza ao mundo. Alguns tratam a criatividade como instrumento, afirmando que surge periodicamente um tipo excêntrico que cria algo grandioso que compensa os anos de letargia por parte dos demais, que nós podemos ( e devemos ) simplesmente apreciar os resultados dos grandes, sem preocupar-nos com isso tudo. Minha objeção a isso, que poucos parecem entender, é artística e ética. É injusto com os grandes incumbi-los dos tantos sacrifícios que ir contra tudo e todos envolve, e é grotesco organizar a sociedade dessa forma, como um vasto campo frígido no qual explosões vulcânicas ocorrem esporadicamente. A futilidade e a gravidade poderiam ser melhor equilibradas entre os dois lados, não? Os gênios não precisam ser privados das coisas mundanas e as coisas mundanas não precisam ser tão frívolas. O valor absoluto do indivíduo não precisa ser algo abstrato, um " direito " seja lá o que isso for. Esse valor pode se dar através da afirmação artística, filosófica e afetiva do indivíduo.*³
É neste sentido que a humanidade pode evoluir, no indivíduo e na espécie : Elevando a força, o amor e a diversidade ao limite, e elevando também esse limite. E isso não se realiza entre narcisistas, que cultivam a certeza na própria identidade e nada mais, nem entre aqueles que abandonam a razão em favor da liberdade que é apenas um meio para que a determinação venha de dentro ( isso é poder ), nem entre cínicos que não têm olhos para o que está latente , nem entre fracos que usam a comunicação constante como forma de disfarçar o vazio, nem entre santos que prometem e buscam outro mundo se negando a dar beleza a este, nem entre os examinadores frios e superficiais que querem despojar todas a belezas do mundo chamado-as de ilusões, nem entre os agitadores que escondem o fato de que amam o caos e a violência, e não a sociedade ou " os direitos ", nem entre os mestres da torre de marfim que inventam mil razões para tudo e censuram outras mil, mas nunca fazem ou criam nada de valor, nada honesto, e isso também não se realiza entre os resignados que acreditam que todo desejo de mudança passa com a juventude, uma forma de propagar os próprios erros em vez de corrigi-los. Um mundo livre, forte e belo -- todos temos muito a fazer e mudar em nós e na sociedade até que isso seja completamente criado, nossa Magnum Opus.
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*1 - Sem ofensa, Lebrun! Alguém precisa dizer " o espírito francês chegou à décadence ". Mas os mortos, incluindo aqueles que ainda respiram por aí, podem descansar em paz... Eu vivo.
*2 - Não ignoro que existem barreiras práticas para que nos tornemos quem queremos ser. Certamente uma pessoa criada sem liberdade civil nenhuma, seja por razões políticas ou econômicas, se resigna por uma razão distinta do medo da humilhação. Note, porém, que depressão e sofrimento são diferentes, e que a condição para a depressão é a liberdade sem propósito. Somos educados para cultivar a liberdade como um ideal e como uma necessidade do ego, mas não somos educados para tomar decisões por conta própria e assumir compromissos. Em outras palavras, a sociedade não nos ensina a obter poder, apenas a sonhar com possibilidades, e esse sonhar sem agir nos devora.
*3 - Foi isso que os defensores da ética deontológica, do valor absoluto do indivíduo como causa e fundamento do restante da moralidade, não perceberam ou souberam expressar. Isso também é mal compreendido pelas éticas pragmáticas e utilitaristas, que trocam ouro por cobre, subestimando esse potencial em favor de ganhos simples. O valor do indivíduo não é abstrato nem é uma convenção necessária. A intensidade intelectual e emocional que cada indivíduo pode trazer ao mundo é insubstituível. Disso decorre que a sociedade tem o dever de dar ao indivíduo ferramentas, de não lhe ser uma ameaça, de não lhe tornar vazio, nem lhe dar razões para ser violento e destrutivo com os outros indivíduos, porque desse valor absoluto se segue que o amor é o único caminho para a sociedade, que tudo aquilo que destrói e separa os indivíduos, por dentro ou por fora, é por essência perverso, fraco e grotesco. Nenhuma lei pode substituir esse conhecimento, o fundamento único da justiça.
sábado, 5 de dezembro de 2015
Verdade como objetividade
Existe uma distinção carregada de profundas implicações que está aceita quase que universalmente
nos debates que envolvem alguma espécie de conhecimento científico ou filosófico. Trata-se da distinção entre subjetividade e objetividade. Essa distinção é adotada atualmente nos mais diversos espaços como se fosse algo intrínseco ao pensamento racional, uma compreensão auto-evidente e fundamental para a construção do conhecimento. Os adeptos dessas duas definições e dessa categorização do pensamento costumam, quando engajados em um debate, buscar evidências de que suas teses se baseiam em juízos objetivos e não subjetivos, enquanto seus adversários muitas vezes tentam provar o inverso, como uma estratégia de desqualificação do discurso em questão.
Tudo isso pode nos parecer, por hábito, muito natural. Mas se nos determos por um momento nessas duas importantes palavras e na forma como elas são usadas em distinção, podemos fazer algumas constatações importantes. Subjetividade, no uso corrente*1, significa a experiência da consciência tal como é para cada indivíduo em particular, ou seja, cada indivíduo tem uma subjetividade formada por sua experiência única do mundo, por suas sensações e por seus próprios conteúdos mentais. Objetividade, também no uso corrente, significa o conjunto de informações baseadas em fatos do mundo ou extraídas dos mesmos por um processo confiável de raciocínio, ou seja, a objetividade se refere ao conjunto dos juízos de conhecimento propriamente ditos, ou ao menos à capacidade humana de buscar a melhor aproximação possível disso. Nessa forma comum de pensar essas duas categorias, a subjetividade não constitui conhecimento porque cada indivíduo tem escolha ou a sensação de ter escolha sobre grande parte do que se passa em sua consciência, e nada impede que um indivíduo trate os produtos de sua imaginação como entidades reais. Em contrapartida, a objetividade constitui conhecimento porque é baseada em noções que não dependem da arbitrariedade da imaginação, seja porque essas noções correspondem diretamente a fatos observados no mundo por qualquer indivíduo com suas faculdades mentais intactas ou porque são formadas por um rigoroso procedimento que é aprendido socialmente através de um processo de disciplina intelectual que reprime os caprichos individuais de cada sujeito, os substituindo por "pensamento crítico", como se diz atualmente. A partir disso podemos constatar que as definições por si mesmas resultam na separação entre um domínio e outro. Reconhecemos que existe um domínio interior e reconhecemos que existe um domínio exterior . Uma segunda constatação importante é que esse uso corrente das noções em questão assume que podemos delimitar de alguma maneira esses domínios. Por exemplo, uma afirmação pode ser definida como objetiva e não subjetiva ou pode considerada subjetiva sem ser objetiva. Dessa forma fica estabelecido que a verdade é atingida através da objetividade, isto é, de um certo método lógico e empírico que se adapta a cada área do conhecimento e às suas demandas.*2
Penso que existe uma infinidade de preconceitos e dogmas contida na simples separação entre sujeito e objeto *3. As noções de subjetividade e objetividade são elas mesmas construções suspeitas independentemente de seus usos. Se acreditamos que existe um princípio espiritual onipotente, onipresente e onisciente no universo, que a inteligência humana tem um propósito especial nesse universo e que para que esse propósito possa ser atingido cada ser humano tem um poder intelectual de influência sobre si mesmo e sobre o mundo ao seu redor que chamamos de "livre-arbítrio", não pode existir sujeito nem objeto. Nessa perspectiva, a existência não é dada em dois planos, dentro e fora do indivíduo, mas apenas no plano de uma consciência absoluta e de uma vontade intrínseca ao universo em si mesmo. As ideias são nesse ponto de vista tão efetivas no mundo quanto os fenômenos da matéria, porque tanto a matéria quanto a inteligência, ou a alma, são criações da mesma vontade suprema e são intrinsecamente ligadas. Se acreditamos que não existe nenhum princípio oculto ou propósito geral no universo, que a inteligência humana é um desdobramento complexo da matéria e que, portanto, há tanta liberdade em nós quanto há no mar ou no céu, igualmente não pode existir sujeito nem objeto. A existência é dada aqui também em um único plano, o da matéria, e a conexão entre o interior e o exterior de nossas mentes é de causa e efeito simplesmente. Em outras palavras, se assumimos que existe livre-arbítrio, o universo e as mentes individuais devem estar intrinsecamente conectados, porque apenas assim a consciência individual pode ter poder sobre a matéria, sobre as ideias, sobre os indivíduos e sobre a realidade em geral, e se assumimos que existe apenas um universo material, a conexão entre a matéria exterior e a matéria interior deve ser necessária e direta, um mecanismo. Não existe nenhum abismo entre cada parte e o todo. A separação entre a consciência e o mundo é de qualquer maneira incorreta em qualquer visão de mundo consistente, e levanta uma série de problemas que são no fundo enganos possibilitados pela linguagem.*4Podemos nos servir dos termos "sujeito" e "objeto" para fins de comunicação, como formas de referência, mas não como descrições de uma separação que existe de fato.
Reconhecer que não podem coexistir uma realidade interior com suas regras próprias e outra realidade exterior com outras regras contraditórias com as primeiras elimina tanto o solipsismo quanto o determinismo, posto que os pensamentos , com isso admitido, são resultado do mundo e são partes atuantes no mesmo, nem completamente arbitrários nem completamente determinados. Como, porém, admitimos que cada consciência e seu respectivo exterior são discerníveis, os argumentos anteriores não são suficientes para colocar em questão a separação entre subjetividade e objetividade enquanto estratégia de pesquisa e de organização. Poderíamos ainda considerar que é positivo que afirmações baseadas em uma perspectiva subjetiva não sejam consideradas válidas na construção do conhecimento, e que apenas afirmações constituídas de um rigoroso trabalho de adequação do pensamento espontâneo ao pensamento disciplinado e precavido possam constituir o conhecimento, a objetividade, por razões de comunicação, instrumentalização e progresso.*5
Essa perspectiva pragmática de conhecimento se dissolve quando consideramos que, posto que a existência é dada em um único plano, seja uma criação divina ou um curioso acaso, não faz sentido afirmarmos que aquilo que é objetivo pode ser julgado como falso ou verdadeiro enquanto aquilo que é subjetivo não pode. Existe tanta realidade na sua crença de que você está lendo um texto quanto na sua crença de que a internet existe. De um ponto de vista filosófico e científico, desqualificar aquilo que se manifesta espontaneamente a cada consciência individual como se fosse irreal ou impossível de ser avaliado significa ignorar praticamente metade daquilo que podemos conhecer e falar sobre, dado que nós nunca nos separamos de nossa consciência até o momento da morte. Essa desqualificação da subjetividade é particularmente perigosa na ciência política, na antropologia, na psicologia e na neurociência. Quando se faz uma descrição científica sobre indivíduos tomando suas experiências subjetivas como irrelevantes, como ilusões ou como epifenômenos, não são emitidos juízos de conhecimento mas, simplesmente, preconceitos e imposições. Não se pode esperar nenhum progresso científico ou político dessa postura, apenas confusão e dispersão.
Para além da noção de que invalidar a subjetividade resulta em uma grande perda de informação, podemos considerar também as implicações éticas, políticas e até mesmo econômicas da valorização da objetividade como critério de verdade. A objetividade nada mais é que uma abordagem pragmática que admite como realidade aquilo que pode ser facilmente instrumentalizado e recusa a discussão acerca de tudo aquilo que não pode. Quando essa parte instrumentalizada da realidade se torna o critério de verdade ao qual cada sujeito deve aderir, se desprendendo tanto quanto possível de si mesmo, a verdade se confunde muito facilmente com obediência. Um indivíduo é julgado nas instituições de ensino com base na sua capacidade de obedecer e reproduzir, enquanto sua riqueza interior é ignorada pelas suas figuras de autoridade e por seus colegas, todos interessados apenas nos benefícios práticos de se aderir a uma determinada forma de discurso. Uma vez que o indivíduo nunca é recompensado pelo fortalecimento e aprofundamento de sua subjetividade, apenas pela sua adequação à objetividade, ele é formado pela sociedade como um indivíduo pouco criativo, com uma grande propensão a imitar (afinal, o objetivo é sempre externo) e uma grande dificuldade em conceber ideias e projetos originais. Não se cria nada de valor sem o conhecimento do mundo e não se conhece nada sobre o mundo sem construções e experiências próprias.
É muito comum atualmente que a subjetividade seja tomada como uma ilusão psicológica que deve ser, em todos os espaços sérios, corrigida de acordo com a objetividade. Essa objetividade é estabelecida politicamente e historicamente, e nem sempre racionalmente. Sendo corrigido por essa objetividade que esconde forças políticas, o indivíduo cede seu juízo politicamente. A partir disso se explica a perseverança do forte etnocentrismo europeu na filosofia brasileira, colocado em disputa apenas por um etnocentrismo norte-americano. A educação acadêmica em filosofia consiste no Brasil em um processo no qual o indivíduo aprende que deve louvar os autores norte-americanos e europeus, por consequência a louvar também a cultura da Europa e da America do Norte, e por última consequência a louvar o próprios europeus e norte americanos. Sendo a autoridade baseada principalmente em privações*6, conforme o indivíduo aprende a ceder seu juízo, ele aprende também a se submeter a autoridades. Inversamente, o indivíduo que não admite que sua consciência contém menos valor que as normas que lhe são impostas dificilmente encontra motivos para obedecer, apenas para respeitar e cooperar.
A ideia de objetividade como um critério de verdade organiza e operacionaliza certas noções como racionalidade, disciplina, esforço, eficiência e humildade de uma forma que parece de início bastante satisfatória. Mas eu observo que as consequências da aplicação social desse critério de verdade são uma redução drástica no número de espaços nos quais a criatividade e a riqueza interior são desenvolvidas, a perpetuação da autoridade de umas culturas sobre as outras e a formação de uma lógica corporativa nas universidades que se reflete na forma como o público em geral lida com debates. Se fosse verdade que o conhecimento se constrói objetivamente, a maior riqueza intelectual estaria na legião de comentadores de textos famosos e revisores de literatura científica, e não naqueles poucos indivíduos que criaram obras segundo seus critérios próprios e que testaram hipóteses originais com métodos originais. A separação entre subjetividade e objetividade no conhecimento ignora o principal conselho que a filosofia oferece à humanidade*7 e cobre a realidade com uma névoa de discussões e práticas vazias.
* 1 - O senso comum em relação a esses termos é observável tanto dentro quanto fora do meio acadêmico, e nas mais diversas áreas. Um físico, um antropólogo e um empresário não encontram motivos para divergir sobre a suposta importância de se separar subjetividade e objetividade.
* 2 - Cada grupo em questão encontra diferentes formas de lógica e de base empírica, mas o padrão pode ser observado quase como uma regra universal. Observe que nas ciência humanas não existe para muitos assuntos base empírica possível tal como se encontra nas ciências naturais, mas os acadêmicos em ciências humanas cobrem essa falta chamando a leitura e citação de textos clássicos de "embasamento". É curiosos notar que na neurociência, que une tanto assuntos investigáveis a partir das ciências naturais estritamente quanto assuntos que dependem do tipo de especulação que existe nas ciências humanas, podemos observar ambas as tendências em seus respectivos campos. Quando um neurocientista estuda a forma como os neurônios interagem uns com os outros, ele o faz a partir da observação experimental dos neurônios e daquilo que pode ser inferido dos dados correspondentes. Quando um neurocientista estuda um tipo de percepção (ex. percepção de distância), ele utiliza conceitos propostos por acadêmicos respeitados no meio, como "embasamento" para cobrir a parte de seus objetos que o método anterior não é capaz de acessar atualmente, e que talvez nunca o seja. De qualquer forma persiste a noção de que se está realizando um "trabalho científico objetivo", apesar da grande diferença entre um caminho e outro.
* 3 - Note que afirmar que existe separação entre dois objetos é algo mais que afirmar que existe distinção entre os mesmos. Por exemplo, podemos dizer que ondas e partículas são distintas querendo dizer com isso apenas que se tratam de duas entidades reconhecíveis e diferenciáveis, ou podemos dizer que ondas e partículas são separadas querendo dizer que aquilo que é uma onda não pode nunca ser também uma partícula. Igualmente, podemos dizer que a experiência individual e o mundo são diferenciáveis sem afirmarmos com isso que o indivíduo e o mundo exterior participam de domínios distintos da realidade, ou seja, que há separação entre sujeito e objeto.
* 4 - Visões de mundo que misturam diferentes metafísicas, ou que carecem de qualquer uma, colocam os objetos em questão em uma organização categórica contraditória ou incompleta. Por exemplo, a visão de Descartes de que alma e matéria são inteiramente distintas e não partilham do mesmo tipo de fenômeno. Essa visão aplica à natureza o mecanicismo e ao ser humano o cristianismo, embora o ser humano deva ser, necessariamente, parte da natureza. Dessa forma umas características humanas são explicadas de forma determinista enquanto outras são associadas ao livre-arbítrio, sem que seja possível que se estabeleça qual é o ponto de encontro ou mediação entre esses dois aspectos dos mesmo ser ( a hipótese da glândula pineal não resolve o problema). Disso surge uma distinção entre sujeito e objeto que contém em si o problema " como é possível que mente e matéria se comuniquem? ", ou o problema mente-corpo, como preferirem. Se trata de um problema que nunca teria surgido em uma metafísica consistente, como a de Schopenhauer.
*5 - Por exemplo, é muito comum nas universidades brasileiras o seguinte tipo de discurso por parte de professores: "Não aceito achismos, apenas argumentos embasados em referências bibliográficas e dados empíricos confiáveis.". Note, porém, que se um estudante apresentar em um trabalho um raciocínio extremamente interessante e singular, expressado simplesmente por um texto autoral excelente, seja uma impecável demonstração ou alguns belíssimos aforismos, esse aluno quase certamente terá seu trabalho reprovado, e essa probabilidade atinge 101 % se estivermos falando de um trabalho de doutorado. Isso porque o "embasamento" se refere a um conjunto específico de autores ( e portanto de argumentos) consagrados pela tradição acadêmica, além de dados aceitos pela academia. As regras de "embasamento" não são uma sábia cautela que almeja nos aproximar da verdade, mas apenas uma estrutura criada para padronizar e instrumentalizar obras filosóficas, científicas e artísticas. Nenhum acadêmico com o cérebro em atividade poderia negar que é possível que uma obra diletante supere de longe as obras acadêmicas, inclusive porque grande parte das referências acadêmicas é constituída dessas obras originais, mas é bastante raro encontrar um acadêmico que não utiliza a abordagem instrumental mencionada sob uma perspectiva pragmática, sob a justificativa de que a superioridade da originalidade é possível, mas é também pouco provável. Nisso se mostra uma preferência por poucos riscos e pequenos resultados.
*6 - Um indivíduo ou grupo chega a ser uma autoridade a partir do ponto em que é capaz de oferecer algo exclusivamente ou a partir do ponto em que é capaz de privar indivíduos daquilo que eles têm (ou impedi-los de oferecer algo). Por exemplo, um especialista passa a ser tratado como autoridade em um determinado campo porque ele oferece conhecimentos e serviços que especialistas de outro tipo não são capazes de oferecer. Quanto mais única for a especialização, maior será a sensação de autoridade do indivíduo. O outro tipo de autoridade pode ser exemplificado com a polícia ou com o exército, que realizam o monopólio da violência, através da qual diversas regras são mantidas em prática através das mais diversas sanções .
*7 - "Conhece-te a ti mesmo". Esse passo é anterior e posterior a todos os demais.
Tudo isso pode nos parecer, por hábito, muito natural. Mas se nos determos por um momento nessas duas importantes palavras e na forma como elas são usadas em distinção, podemos fazer algumas constatações importantes. Subjetividade, no uso corrente*1, significa a experiência da consciência tal como é para cada indivíduo em particular, ou seja, cada indivíduo tem uma subjetividade formada por sua experiência única do mundo, por suas sensações e por seus próprios conteúdos mentais. Objetividade, também no uso corrente, significa o conjunto de informações baseadas em fatos do mundo ou extraídas dos mesmos por um processo confiável de raciocínio, ou seja, a objetividade se refere ao conjunto dos juízos de conhecimento propriamente ditos, ou ao menos à capacidade humana de buscar a melhor aproximação possível disso. Nessa forma comum de pensar essas duas categorias, a subjetividade não constitui conhecimento porque cada indivíduo tem escolha ou a sensação de ter escolha sobre grande parte do que se passa em sua consciência, e nada impede que um indivíduo trate os produtos de sua imaginação como entidades reais. Em contrapartida, a objetividade constitui conhecimento porque é baseada em noções que não dependem da arbitrariedade da imaginação, seja porque essas noções correspondem diretamente a fatos observados no mundo por qualquer indivíduo com suas faculdades mentais intactas ou porque são formadas por um rigoroso procedimento que é aprendido socialmente através de um processo de disciplina intelectual que reprime os caprichos individuais de cada sujeito, os substituindo por "pensamento crítico", como se diz atualmente. A partir disso podemos constatar que as definições por si mesmas resultam na separação entre um domínio e outro. Reconhecemos que existe um domínio interior e reconhecemos que existe um domínio exterior . Uma segunda constatação importante é que esse uso corrente das noções em questão assume que podemos delimitar de alguma maneira esses domínios. Por exemplo, uma afirmação pode ser definida como objetiva e não subjetiva ou pode considerada subjetiva sem ser objetiva. Dessa forma fica estabelecido que a verdade é atingida através da objetividade, isto é, de um certo método lógico e empírico que se adapta a cada área do conhecimento e às suas demandas.*2
Penso que existe uma infinidade de preconceitos e dogmas contida na simples separação entre sujeito e objeto *3. As noções de subjetividade e objetividade são elas mesmas construções suspeitas independentemente de seus usos. Se acreditamos que existe um princípio espiritual onipotente, onipresente e onisciente no universo, que a inteligência humana tem um propósito especial nesse universo e que para que esse propósito possa ser atingido cada ser humano tem um poder intelectual de influência sobre si mesmo e sobre o mundo ao seu redor que chamamos de "livre-arbítrio", não pode existir sujeito nem objeto. Nessa perspectiva, a existência não é dada em dois planos, dentro e fora do indivíduo, mas apenas no plano de uma consciência absoluta e de uma vontade intrínseca ao universo em si mesmo. As ideias são nesse ponto de vista tão efetivas no mundo quanto os fenômenos da matéria, porque tanto a matéria quanto a inteligência, ou a alma, são criações da mesma vontade suprema e são intrinsecamente ligadas. Se acreditamos que não existe nenhum princípio oculto ou propósito geral no universo, que a inteligência humana é um desdobramento complexo da matéria e que, portanto, há tanta liberdade em nós quanto há no mar ou no céu, igualmente não pode existir sujeito nem objeto. A existência é dada aqui também em um único plano, o da matéria, e a conexão entre o interior e o exterior de nossas mentes é de causa e efeito simplesmente. Em outras palavras, se assumimos que existe livre-arbítrio, o universo e as mentes individuais devem estar intrinsecamente conectados, porque apenas assim a consciência individual pode ter poder sobre a matéria, sobre as ideias, sobre os indivíduos e sobre a realidade em geral, e se assumimos que existe apenas um universo material, a conexão entre a matéria exterior e a matéria interior deve ser necessária e direta, um mecanismo. Não existe nenhum abismo entre cada parte e o todo. A separação entre a consciência e o mundo é de qualquer maneira incorreta em qualquer visão de mundo consistente, e levanta uma série de problemas que são no fundo enganos possibilitados pela linguagem.*4Podemos nos servir dos termos "sujeito" e "objeto" para fins de comunicação, como formas de referência, mas não como descrições de uma separação que existe de fato.
Reconhecer que não podem coexistir uma realidade interior com suas regras próprias e outra realidade exterior com outras regras contraditórias com as primeiras elimina tanto o solipsismo quanto o determinismo, posto que os pensamentos , com isso admitido, são resultado do mundo e são partes atuantes no mesmo, nem completamente arbitrários nem completamente determinados. Como, porém, admitimos que cada consciência e seu respectivo exterior são discerníveis, os argumentos anteriores não são suficientes para colocar em questão a separação entre subjetividade e objetividade enquanto estratégia de pesquisa e de organização. Poderíamos ainda considerar que é positivo que afirmações baseadas em uma perspectiva subjetiva não sejam consideradas válidas na construção do conhecimento, e que apenas afirmações constituídas de um rigoroso trabalho de adequação do pensamento espontâneo ao pensamento disciplinado e precavido possam constituir o conhecimento, a objetividade, por razões de comunicação, instrumentalização e progresso.*5
Essa perspectiva pragmática de conhecimento se dissolve quando consideramos que, posto que a existência é dada em um único plano, seja uma criação divina ou um curioso acaso, não faz sentido afirmarmos que aquilo que é objetivo pode ser julgado como falso ou verdadeiro enquanto aquilo que é subjetivo não pode. Existe tanta realidade na sua crença de que você está lendo um texto quanto na sua crença de que a internet existe. De um ponto de vista filosófico e científico, desqualificar aquilo que se manifesta espontaneamente a cada consciência individual como se fosse irreal ou impossível de ser avaliado significa ignorar praticamente metade daquilo que podemos conhecer e falar sobre, dado que nós nunca nos separamos de nossa consciência até o momento da morte. Essa desqualificação da subjetividade é particularmente perigosa na ciência política, na antropologia, na psicologia e na neurociência. Quando se faz uma descrição científica sobre indivíduos tomando suas experiências subjetivas como irrelevantes, como ilusões ou como epifenômenos, não são emitidos juízos de conhecimento mas, simplesmente, preconceitos e imposições. Não se pode esperar nenhum progresso científico ou político dessa postura, apenas confusão e dispersão.
Para além da noção de que invalidar a subjetividade resulta em uma grande perda de informação, podemos considerar também as implicações éticas, políticas e até mesmo econômicas da valorização da objetividade como critério de verdade. A objetividade nada mais é que uma abordagem pragmática que admite como realidade aquilo que pode ser facilmente instrumentalizado e recusa a discussão acerca de tudo aquilo que não pode. Quando essa parte instrumentalizada da realidade se torna o critério de verdade ao qual cada sujeito deve aderir, se desprendendo tanto quanto possível de si mesmo, a verdade se confunde muito facilmente com obediência. Um indivíduo é julgado nas instituições de ensino com base na sua capacidade de obedecer e reproduzir, enquanto sua riqueza interior é ignorada pelas suas figuras de autoridade e por seus colegas, todos interessados apenas nos benefícios práticos de se aderir a uma determinada forma de discurso. Uma vez que o indivíduo nunca é recompensado pelo fortalecimento e aprofundamento de sua subjetividade, apenas pela sua adequação à objetividade, ele é formado pela sociedade como um indivíduo pouco criativo, com uma grande propensão a imitar (afinal, o objetivo é sempre externo) e uma grande dificuldade em conceber ideias e projetos originais. Não se cria nada de valor sem o conhecimento do mundo e não se conhece nada sobre o mundo sem construções e experiências próprias.
É muito comum atualmente que a subjetividade seja tomada como uma ilusão psicológica que deve ser, em todos os espaços sérios, corrigida de acordo com a objetividade. Essa objetividade é estabelecida politicamente e historicamente, e nem sempre racionalmente. Sendo corrigido por essa objetividade que esconde forças políticas, o indivíduo cede seu juízo politicamente. A partir disso se explica a perseverança do forte etnocentrismo europeu na filosofia brasileira, colocado em disputa apenas por um etnocentrismo norte-americano. A educação acadêmica em filosofia consiste no Brasil em um processo no qual o indivíduo aprende que deve louvar os autores norte-americanos e europeus, por consequência a louvar também a cultura da Europa e da America do Norte, e por última consequência a louvar o próprios europeus e norte americanos. Sendo a autoridade baseada principalmente em privações*6, conforme o indivíduo aprende a ceder seu juízo, ele aprende também a se submeter a autoridades. Inversamente, o indivíduo que não admite que sua consciência contém menos valor que as normas que lhe são impostas dificilmente encontra motivos para obedecer, apenas para respeitar e cooperar.
A ideia de objetividade como um critério de verdade organiza e operacionaliza certas noções como racionalidade, disciplina, esforço, eficiência e humildade de uma forma que parece de início bastante satisfatória. Mas eu observo que as consequências da aplicação social desse critério de verdade são uma redução drástica no número de espaços nos quais a criatividade e a riqueza interior são desenvolvidas, a perpetuação da autoridade de umas culturas sobre as outras e a formação de uma lógica corporativa nas universidades que se reflete na forma como o público em geral lida com debates. Se fosse verdade que o conhecimento se constrói objetivamente, a maior riqueza intelectual estaria na legião de comentadores de textos famosos e revisores de literatura científica, e não naqueles poucos indivíduos que criaram obras segundo seus critérios próprios e que testaram hipóteses originais com métodos originais. A separação entre subjetividade e objetividade no conhecimento ignora o principal conselho que a filosofia oferece à humanidade*7 e cobre a realidade com uma névoa de discussões e práticas vazias.
* 1 - O senso comum em relação a esses termos é observável tanto dentro quanto fora do meio acadêmico, e nas mais diversas áreas. Um físico, um antropólogo e um empresário não encontram motivos para divergir sobre a suposta importância de se separar subjetividade e objetividade.
* 2 - Cada grupo em questão encontra diferentes formas de lógica e de base empírica, mas o padrão pode ser observado quase como uma regra universal. Observe que nas ciência humanas não existe para muitos assuntos base empírica possível tal como se encontra nas ciências naturais, mas os acadêmicos em ciências humanas cobrem essa falta chamando a leitura e citação de textos clássicos de "embasamento". É curiosos notar que na neurociência, que une tanto assuntos investigáveis a partir das ciências naturais estritamente quanto assuntos que dependem do tipo de especulação que existe nas ciências humanas, podemos observar ambas as tendências em seus respectivos campos. Quando um neurocientista estuda a forma como os neurônios interagem uns com os outros, ele o faz a partir da observação experimental dos neurônios e daquilo que pode ser inferido dos dados correspondentes. Quando um neurocientista estuda um tipo de percepção (ex. percepção de distância), ele utiliza conceitos propostos por acadêmicos respeitados no meio, como "embasamento" para cobrir a parte de seus objetos que o método anterior não é capaz de acessar atualmente, e que talvez nunca o seja. De qualquer forma persiste a noção de que se está realizando um "trabalho científico objetivo", apesar da grande diferença entre um caminho e outro.
* 3 - Note que afirmar que existe separação entre dois objetos é algo mais que afirmar que existe distinção entre os mesmos. Por exemplo, podemos dizer que ondas e partículas são distintas querendo dizer com isso apenas que se tratam de duas entidades reconhecíveis e diferenciáveis, ou podemos dizer que ondas e partículas são separadas querendo dizer que aquilo que é uma onda não pode nunca ser também uma partícula. Igualmente, podemos dizer que a experiência individual e o mundo são diferenciáveis sem afirmarmos com isso que o indivíduo e o mundo exterior participam de domínios distintos da realidade, ou seja, que há separação entre sujeito e objeto.
* 4 - Visões de mundo que misturam diferentes metafísicas, ou que carecem de qualquer uma, colocam os objetos em questão em uma organização categórica contraditória ou incompleta. Por exemplo, a visão de Descartes de que alma e matéria são inteiramente distintas e não partilham do mesmo tipo de fenômeno. Essa visão aplica à natureza o mecanicismo e ao ser humano o cristianismo, embora o ser humano deva ser, necessariamente, parte da natureza. Dessa forma umas características humanas são explicadas de forma determinista enquanto outras são associadas ao livre-arbítrio, sem que seja possível que se estabeleça qual é o ponto de encontro ou mediação entre esses dois aspectos dos mesmo ser ( a hipótese da glândula pineal não resolve o problema). Disso surge uma distinção entre sujeito e objeto que contém em si o problema " como é possível que mente e matéria se comuniquem? ", ou o problema mente-corpo, como preferirem. Se trata de um problema que nunca teria surgido em uma metafísica consistente, como a de Schopenhauer.
*5 - Por exemplo, é muito comum nas universidades brasileiras o seguinte tipo de discurso por parte de professores: "Não aceito achismos, apenas argumentos embasados em referências bibliográficas e dados empíricos confiáveis.". Note, porém, que se um estudante apresentar em um trabalho um raciocínio extremamente interessante e singular, expressado simplesmente por um texto autoral excelente, seja uma impecável demonstração ou alguns belíssimos aforismos, esse aluno quase certamente terá seu trabalho reprovado, e essa probabilidade atinge 101 % se estivermos falando de um trabalho de doutorado. Isso porque o "embasamento" se refere a um conjunto específico de autores ( e portanto de argumentos) consagrados pela tradição acadêmica, além de dados aceitos pela academia. As regras de "embasamento" não são uma sábia cautela que almeja nos aproximar da verdade, mas apenas uma estrutura criada para padronizar e instrumentalizar obras filosóficas, científicas e artísticas. Nenhum acadêmico com o cérebro em atividade poderia negar que é possível que uma obra diletante supere de longe as obras acadêmicas, inclusive porque grande parte das referências acadêmicas é constituída dessas obras originais, mas é bastante raro encontrar um acadêmico que não utiliza a abordagem instrumental mencionada sob uma perspectiva pragmática, sob a justificativa de que a superioridade da originalidade é possível, mas é também pouco provável. Nisso se mostra uma preferência por poucos riscos e pequenos resultados.
*6 - Um indivíduo ou grupo chega a ser uma autoridade a partir do ponto em que é capaz de oferecer algo exclusivamente ou a partir do ponto em que é capaz de privar indivíduos daquilo que eles têm (ou impedi-los de oferecer algo). Por exemplo, um especialista passa a ser tratado como autoridade em um determinado campo porque ele oferece conhecimentos e serviços que especialistas de outro tipo não são capazes de oferecer. Quanto mais única for a especialização, maior será a sensação de autoridade do indivíduo. O outro tipo de autoridade pode ser exemplificado com a polícia ou com o exército, que realizam o monopólio da violência, através da qual diversas regras são mantidas em prática através das mais diversas sanções .
*7 - "Conhece-te a ti mesmo". Esse passo é anterior e posterior a todos os demais.
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