sábado, 30 de maio de 2015

Sobre a ignorância

Muitos acreditam que a ignorância é uma benção, que nós vivemos em um mundo confortável e de infinitas possibilidades até o momento no qual descobrimos os fatos. Mesmo entre aqueles que se dedicam ao conhecimento, essa opinião é muito popular. Diversos intelectuais fazem a distinção entre os ignorantes felizes e os sábios necessariamente amargurados. Mas há algo muito estranho nessa crença, e também nessa postura de martírio que muitos intelectuais assumem.  

Primeiramente, independentemente de suas convicções religiosas, filosóficas ou científicas, você deve saber que o que separa um ser humano dos demais animais é, essencialmente, sua mente. Os seres humanos sobrevivem melhor que qualquer outra espécie do planeta porque nós fazemos previsões complexas, nos comunicamos extremamente bem, registramos observações, etc. Nosso conhecimento nos traz poder sobre a natureza, o que significa que a ignorância é falta de poder. Isso significa que "a ignorância é uma benção" não pode fazer sentido nenhum no âmbito prático.

Conhecer um objeto nos ensina sobre diversas possibilidades de ação sobre ele. Nisto está um dos fundamentos principais da ciência e, ao mesmo tempo, da criatividade artística. Conhecer a nós mesmos fortalece e aprofunda nossas mentes, elevando esse potencial que chamamos de liberdade. Conhecer outras pessoas possibilita que tenhamos sentimentos poderosos e laços duradouros. De todas as formas, a ignorância não pode ser algo positivo na teoria, na arte ou nas relações humanas. As interpretações formadas a partir do pensamento profundo são muito mais poderosas que aquelas formadas com pouca ou nenhuma consciência, e enfrentar as emoções negativas de frente traz amadurecimento, força e uma maior apreciação dos momentos felizes.

A ignorância não poupa trabalho, porque as confusões resultantes agravam os problemas existentes e geram novos, e também não amplia a imaginação porque o vazio não pode ser fonte de inspiração. Apesar da ignorância não ser algo positivo nem na teoria nem na prática, aqueles que sustentam a opinião comum se baseiam em uma experiência também bastante comum. Todos nós testemunhamos muitas vezes ao longo da vida casos nos quais um sujeito se desespera após receber uma informação relativa a um problema que lhe era desconhecido. Como isso pode ser possível, considerando o que foi explicado anteriormente?
A explicação para isso não está em um problema com a verdade, mas sim em determinadas posturas em relação a ela.

Aqueles que acreditam que uma informação pode atormentar alguém se esquecem de que a obsessão também é uma forma de ignorância. É evidente que saber de fatos desagradáveis traz sofrimento a um indivíduo, mas também deveria ser evidente que vivemos em um mundo extremamente vasto que possibilita que durante todos os dias um sujeito pense em diversas coisas diferentes. Nós, porém, muitas vezes fixamos uma única informação como base para interpretar uma infinidade de fenômenos. Assim, não é o conhecimento que traz sofrimento, mas sim o erro de repetir obsessivamente algum pensamento desagradável. Se colocadas em contexto devidamente, mesmo as informações que individualmente trazem sofrimento se tornam fonte de aprendizado e amadurecimento. "O que não mata fortalece." Além disso, aprender sobre uma impossibilidade permite que nós não mais gastemos energia com algo fútil, como uma mosca tentando atravessar uma vidraça.

A postura de mártir que muitos intelectuais assumem também é baseada em erros. Um desses erros está claro na alegoria da caverna, de Platão. Os habitantes da caverna são acorrentados, um símbolo de um destino infeliz, não de uma escolha preguiçosa. O indivíduo que vê a luz não fica aterrorizado, mas sim maravilhado, e chega a sentir pena dos prisioneiros das sombras. Por que aquele que viu a luz sentiu pena daqueles que viam apenas as sombras? Por que em vez de desfrutarem de um mundo de possibilidades, os prisioneiros davam nomes às sombras e criavam disputas sobre esses nomes, se orgulhando disso como tolos. Não é exatamente isso que a maioria dos acadêmicos faz? A infelicidade desses pretensos intelectuais não vem do conhecimento, mas sim da forma de ignorância chamada pretensão.

Em geral, a ignorância aparece como uma benção quando o conhecimento é mal compreendido, "Saber é poder". A alegria, a beleza, a virtude e a criatividade são, claramente, formas de poder.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Filosofia da Religião I

Nós nascemos nesta terra, como quaisquer outros animais. Nossos corpos retêm vitalidade por pouco tempo por obedecerem as mesmas leis da matéria inanimada. Nossas mentes são limitadas pela experiência, assim como nosso controle sobre nossos próprios impulsos. Somos seres limitados. Mesmo assim, dentro dos limites dos sentidos, nós imaginamos o cosmos. Observando tudo que é efêmero nós imaginamos o eterno, experimentando nada além da matéria nós imaginamos o espírito.

Pelos seus mecanismos fisiológicos, o intelecto humano não deveria ser capaz de nenhuma transcendência. Mas foi neste intelecto que ocorreu a mais profunda epifania: "Se o mundo é tão profundamente inteligível, talvez ele seja em si inteligente". A possibilidade de outros planos de existência além do sensível possibilitou um plano superior de pensamento. Buscando o pensamento do absoluto, mentes humanas formaram ideias como razão, beleza, virtude, verdade, justiça, eternidade e, é claro, alma e divino. Da imaginação do cosmos surgiu a própria essência da humanidade. Isso diz algo sobre o mundo, ou apenas sobre nós mesmos? Independentemente de onde vieram tais profundas ideias, delas provém uma tarefa. A partir do momento em que se imagina o belo, se imagina também o grotesco e decadente. A partir do momento em que se imagina o divino, se imagina também o profano. Pela luz se revelam as trevas, e foi no meio da escuridão que os antigos se perceberam. A condição humana sempre foi distante das belas ideias.

Com a vontade de evoluir nossos corpos e mentes, e mesmo a natureza ao nosso redor, algumas mentes ao longo das eras buscaram caminhos para superar a simples condição humana e aproximar o particular do todo. Mas, nem todos aqueles com um anseio espiritual entendem a profundidade do intelecto, e uma grande parte da humanidade ignora esse anseio. Assim, aqueles que acreditam ter contemplado a verdade deixam suas doutrinas e métodos para que a humanidade em geral desfrute dos resultados,embora não participe do processo. Nós, hoje em dia, estamos muito mais acostumados com os resultados do que com os processos. Nós usamos um artífice sem compreender sua engenharia, nós usamos um método sem compreender sua essência e sua intuição inicial. Perdemos nosso passado e a essência da razão de vista.

Atualmente, nós damos grande preferência a tudo aquilo que é seguro e automático quando tratamos com problemas de organização. A nossa forma de educação mostra isso com clareza, especialmente no contexto acadêmico. Nós tratamos o conhecimento como uma série de resultados coletados e procedimentos a serem seguidos que resulta naturalmente em progresso, em descobertas e em lucro, principalmente. A maioria dos interessados na ciência se adapta com facilidade a esse modelo, e alguns poucos não se adaptam, mas insistem. Os que se adaptam bem raramente produzem algo para a posteridade, porque tendem a reproduzir as doutrinas já estabelecidas, enquanto os que não se adaptam e não desistem costumam romper as doutrinas de suas épocas e construir as doutrinas do futuro

A noção de ciência que é propagada pelas massas é a ideia de um trabalho que gera produtos pelos mesmos mecanismos que qualquer outro trabalho. Um cientista aprende e segue as regras, e assim produz descobertas, segundo essa noção. Essa ideia também caracteriza a "ciência de laboratório" como algo em perfeita continuidade com aquilo que os pensadores clássicos chamavam de ciência. Essa noção de ciência é falsa nos dois aspectos. Nenhuma descoberta pode ser feita reciclando os sistemas conceituais existentes, e mesmo novas experiências empíricas são limitadas por tal prática, porque o conhecimento desperta através da experiência mas não está na experiência em si mesma, e sim nos conceitos formados para explicá-la, como muitos filósofos compreenderam. As descobertas de maior impacto são feitas por indivíduos que compreendem o conhecimento em sua essência e, portanto, não se se apoiam na estrutura automática que rege as universidades e o mercado. Também é falso que a ciência como compreendida atualmente seja a evolução da ciência clássica. Características como a burocracia, o mercado e a individualidade como entendida atualmente, além do foco em experimentos absolutamente controlados , são aspectos que mudam a própria essência do que, por exemplo, um metafísico do século XVII chamaria de ciência.O misticismo é bastante nítido nas formas antigas de ciência e tecnologia, e existe um motivo para isso.

Aqueles que tomam a ciência como uma busca são mal compreendidos pelo senso comum atual e pelos acadêmicos que misturam os criadores e os imitadores. O trabalho científico profundo responde justamente ao mesmo anseio inicial da religião. A melhora e embelezamento do corpo, a cura do incurável. O conhecimento do microcosmo ao macrocosmo. A descrição e o domínio sobre o cérebro. A artificialização da natureza. Os traços da ciência profunda são semelhantes aos da religião profunda, no seguinte sentido. A verdadeira pesquisa científica não é uma contemplação inútil, como um lazer para a classe média. nem é um movimento por algum benefício em particular.A verdadeira pesquisa busca a evolução da humanidade como um todo. A ciência, quando compreendida em sua profundidade, depende de várias proposições das quais a religião também depende, e por isso as tensões entre aqueles que entendem religião e ciência como polos opostos sempre retorna. A ciência depende da ideia de que existe uma verdade, isto é, que o mundo existe independe da percepção para existir, e também da ideia de que essa verdade é mais profunda que aquilo que a experiência ingênua pode alcançar, e que uma série de doutrinas e métodos nos aproximam dessa verdade. 

A ciência entendida de forma mesquinha é oposta à espiritualidade porque nasceu de uma cultura de objetificação, simplificação, automatização e particularização. Em uma palavra, "desencanto", como disse Weber. Nessa forma mal compreendida, os textos relevantes são lidos mal e ensinados dogmaticamente. Os vivos servem o trabalho deixado pelos mortos, em vez do contrário, e o progresso se torna impossível, porque as instituições relacionadas são dominadas pela hipocrisia e pela falta de distinções importantes. Discursos progressistas se unem a estruturas de autoridade extremamente retrógradas. A consequência da ciência ser praticada fora de contexto, como uma profissão voltada para o lucro e para o narcisismo é que cada vez maior é o número de pesquisadores com pouco conhecimento epistemológico, pesquisadores que simplesmente seguem as regras e imitam aquilo que parece funcionar, não sabendo distinguir entre fatos, teorias, experimentos, experiência, realidade, ilusão, falsidade, verdade, validade, etc.

Uma semelhante perda de essência ocorre hoje com as grandes religiões, também. A preferência pelo automático, particular e superficial desestrutura as instituições religiosas tanto quanto as científicas. Isso porque a religião em geral absolutamente não é um investimento particular, por definição, porque é a busca pelo todo, pelo absoluto, pelo eterno. Apesar desse senso de comunidade, ou comunhão, é necessário a essa busca a liberdade intelectual, que não pode existir quando um indivíduo interpreta o mundo direcionado pelo raciocínio de outro indivíduo. Cada indivíduo precisa observar os fatos e criar representações por conta própria, e apenas depois compartilhar e receber ideias com outros. Infelizmente isso pouco ocorre hoje, porque textos como a bíblia são lidos de maneira incrivelmente superficial, fora de contexto histórico e simbólico, e pregados à população que aceita esse dogmatismo por uma mistura de medo, ignorância e preguiça.  

Por exemplo, é notável na bíblia um código moral extremamente severo em relação à sexualidade e à reprodução. Claramente o texto bíblico condena a homossexualidade e também as relações heterossexuais que não tem a reprodução como finalidade. Mas será que um cristão deve hoje sustentar esses ideais? Em geral, conhecer os motivos por traz de uma proposição é mais importante que a conhecer a proposição em si. Se imaginarmos a quantidade de pessoas que habitava a Terra e a precariedade dos conhecimentos médicos, além da ausência do cosmopolitismo, no período e na região na qual a bíblia provavelmente foi escrita, nós podemos compreender que naquela época a decisão de não ter filhos poderia de fato ser igualada a cometer um crime, assim como toda decisão que desorganizasse a estrutura familiar, porque a espécie humana corria de fato risco de se extinguir em doenças, guerras e períodos de escassez. É nesse sentido em que a bíblia deve ser lida com o contexto em mente, porque hoje em dia o contexto é um tanto diferente. A interpretação é mais importante que o texto interpretado. Aquilo que lemos deve servir aos vivos e honrar os mortos, e não servir como um modo de viver no passado como fazem os cegamente conservadores.

Com uma interpretação literal da bíblia, a única interpretação que ambos ateus e cristão dogmáticos estão dispostos a aceitar, as instituições religiosas se tornam espaços de hipocrisia, porque é evidente que práticas descritas na bíblia como o apedrejamento de mulheres adúlteras não são toleráveis atualmente, mas as passagens com esse conteúdo são também lidas como a revelação literal e analítica de Deus. Sustentar uma tese que não pode ser aplicada é o início da hipocrisia que corrompe moralmente uma instituição. De algumas poucas hipocrisias chegamos ao ponto no qual existe o cristianismo não praticante, o ponto no qual ateus são frequentemente mais cristãos que os auto declarados cristãos, porque a hipocrisia quanto as fundamentos ruins se alastra aos fundamentos bons. Qualquer doutrina se degenera se não for administrada e renovada através da razão. Além disso, qualquer doutrina pode ser utilizada como forma de manipulação.

Os nossos erros atuais em relação à espiritualidade são provocados por uma trama complexa. A religião em geral foi usada em inúmeros períodos históricos como justificativa política para guerras e hierarquias de riqueza, mas assim se consolidaram as maiores tradições religiosas que temos hoje, porque através da infraestrutura (riqueza e poder) erguida por líderes aparentemente corruptos se propagaram os discursos religiosos que ainda contém algo do conhecimento e do propósito dos antigos, mas é frequentemente difícil discernir o conhecimento das tradições pragmáticas. Os próprios religiosos têm essa dificuldade, mas aqueles que tentam criticar as religiões de fora a têm em um grau ainda maior e geram insegurança nos religiosos, que recorrem a figuras de autoridade, prática que é justamente uma das principais causas da confusão em relação aso textos religiosos.  

É muito infeliz que os textos religiosos sejam tão mal interpretados e usados ou repudiados tão banalmente. Nós estamos justamente em uma época na qual o estabelecimento de valores profundos é dificultada pela falta de distinção entre sujeito e objeto, ou melhor, pelo respeito do universo enquanto subjetividade absoluta. Assim como a histeria era a doença psicológica da era vitoriana, por causa da repressão moral ao corpo. as doenças de nossa época são a depressão, a impossibilidade de direcionar próprias energias para algo, e o narcisismo, a impossibilidade de direcionar as energias para algo além do próprio sujeito, ou seja, males causados pelo impacto da cultura de objetificação quando recusada ou aceita, respectivamente.

Como uma busca de conhecer o absoluto, o espírito, o sentido da existência e tudo que se relaciona a isso, a religião em geral pode despertar muitas coisas profundas em seu estudo adequado, em seu estudo que pretende não simplesmente seguir ou recusar regras mas sim evoluir teorias e dar continuidade a um legado de conhecimento e evolução.  

sábado, 4 de abril de 2015

Karma

Você provavelmente já ouviu falar em Karma, como um princípio de ação e reação envolvendo nossas ações e intenções. Na interpretação mais comum desse conceito, ele significa algo como" ações boas terão um retorno positivo, e ações más terão um retorno negativo", algo bem próximo da noção de justiça divina, sustentada por muitos cristãos.

Essa é uma interpretação válida, mas não creio que ela seja nem a mais adequada nem a mais proveitosa. Primeiramente porque é falso que agir com maldade resulta sempre em punições, e também é falso o inverso. Se uma sociedade está organizada de maneira corrupta, ela irá em todos os aspectos recompensar justamente seus corruptores. Uma sociedade de mercenários recompensa os que lucram sem escrúpulos, uma sociedade de hipócritas recompensa os mentirosos, e assim por diante. Igualmente, em uma sociedade de mercenários aqueles que recusam o lucro indigno são motivo de riso, e em uma sociedade de hipócritas os indivíduos sinceros são odiados.

Existem algumas particularidades importantes na filosofia budista em comparação com as ideias mais comuns sobre a natureza humana no ocidente, Na filosofia budista não existe um "eu" separado de nossas ações no mundo, o que significa que nós somos aquilo que fazemos. Além disso, não existe separação entre pensamento e ação. Pensar também é agir. As consequências dessas ideias simples são muito interessantes. Nós não causamos nada no ambiente ao nosso redor sem causarmos antes algo semelhante em nós mesmos. Se conto uma mentira, afasto de mim mesmo a verdade antes de fazê-lo com qualquer outro indivíduo, eu enfraqueço e manipulo a mim mesmo por gastar energia formulando uma falsidade e por preservar em mim o hábito da covardia.

Com esses pressupostos em mente você pode entender minha proposta sobre o significado de Karma. O Karma significa que praticar ações( isto inclui pensar, lembre-se) de um certo tipo nos leva a praticar mais ações da mesma natureza. Se procuro praticar atos de generosidade, a tendencia é que eu pense nisso com cada vez mais facilidade, frequência e foco, e que eu esteja cada vez mais cercado de situações nas quais minha generosidade é útil ou até esperada por outros. Isso não significa que "Deus me pagará em dobro", como costuma-se dizer. Pelo contrário. Toda virtude tem seu custo. A beleza de se praticar uma ação virtuosa está no cultivo da virtude, não em uma de troca interesseira. De fato, aqueles que sempre priorizam as recompensas imediatas e particulares raramente desenvolvem virtudes, e nunca o fazem de maneira profunda e duradoura. Afinal, quando agimos com egoísmo afastamos de nós os generosos, porque nossos pensamentos e intenções são mais aparentes do que gostaríamos de imaginar.

Essas ideias me agradam. Acredito que nós gostamos de superestimar nossa capacidade de ocultar, como se nós tivéssemos um santuário interno imaculado por nossas ações e palavras maldosas e tolas. A forma como nós separamos sujeito e meio externo favorece a ignorância e a preguiça porque corta pela metade processos de causa e efeito que deveriam ser observados de maneira ampla. A ideia de Karma, do poder das ações sobre as futuras ações, favorece que um indivíduo cultive artisticamente em si o que deseja vivenciar no mundo, o que é a verdadeira base da virtude.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Arte e Liberdade

A partir da arte, criamos diversas fontes de entretenimento, como filmes, videogames, espetáculos teatrais, literatura, etc. Infelizmente, muitos indivíduos são levados ao engano de reduzir a arte ao entretenimento, assim como muitos reduzem o conhecimento à ciência, por prestarem atenção apenas aos benefícios práticos, particulares e previsíveis da racionalidade.

Dessa redução resulta o que Adorno e Horkheimer chamaram de "indústria cultural", um modelo de produção de obras de arte como mercadorias. É evidente que se o lucro é a finalidade principal de um artista, suas obras serão tão próximas quanto possível daquilo que já é consumido pelo público, e nunca irão conter nenhuma mensagem que possa questionar esse público. Enquanto a arte é respeitada entre os filósofos como uma forma de trazer ao público novas experiências impactantes, a arte enquanto mercado dá ao público aquilo que a propaganda o ensina a querer.

Qualquer um que já assistiu uma seleção de videoclipes em algum canal de televisão sabe que alguns músicos são apenas fenômenos passageiros e intensos gerados pela propaganda enquanto outros são verdadeiros artistas,embora não alcancem um público tão amplo quanto os artistas comerciais. As músicas mais consumidas são justamente as de menor qualidade, produzidas por artistas claramente sem talento e sem nada de interessante a dizer, com letras e melodias vergonhosas. O gosto do público parece ser controlado pela propaganda, tanto quanto as características dos artistas medíocres.

A industria dos videogames também sofre semelhante fenômeno. As franquias que mais repetem clichês tanto nos roteiros quanto na jogabilidade são as mais lucrativas e com maior publicidade. "Homem virtuoso tem a família morta por alguma espécie de terrorista e parte em uma jornada para se vingar do principal responsável, No meio do caminho, percebe que está salvando o mundo. Trata-se de um jogo de tiro. " Acredito ter descrito com poucas perdas mais de dez mil jogos recentes.

Quanto mais criativo for um artista, maior será a influência de sua personalidade, de suas experiências e de suas ideias em suas obras. Disso resulta que não é possível que um trabalho artístico profundo toque a alma de todo o público, ou mesmo da maioria do público, por uma questão de afinidade. Por isso a arte que reproduz e recicla aquilo que o público já contém gera enormes lucros em comparação com a arte criativa. É evidente que a indústria cultural favorece mulheres seminuas e pseudo-gangsters cantando idiotices sobre o amor, por exemplo. Esses esteriótipos sempre ganham atenção, seja por amor ou por ódio.

Essa manipulação e massificação da arte gera uma perda ainda maior que a redução no número dos grandes artistas. Você, leitor(a), talvez conheça que Goethe foi reconhecido por inúmeros intelectuais como um magnífico filósofo, embora não tenha escrito tratados filosóficos. Enquanto isso, os filósofos profissionais foram e são desprezados entre os profundos. Qual é a razão para isso?

Joseph Beuys, um artista do século XX, é famoso por algumas performances como passar horas trancado em um quarto com um coiote não domesticado e construir uma enorme parede de gordura animal.  Quando interrogado sobre seus motivos para tais atos, sua respostas frequentemente era que a arte liberta a humanidade elevando a criatividade e a intuição a partir de experiências. Mas como isso funciona? -- A propósito, você pode conferir ele mesmo se explicando neste link https://www.youtube.com/watch?v=Mo47lqk_QH0  , se quiser.

Tudo que nós pensamos depende em alguma medida de nossas experiências com o mundo. Nosso pensamento não é diretamente determinado pela experiência, mas é determinado a ser influenciado por ela. Isso significa que se mantemos contato sempre com as mesmas coisas, manteremos sempre as mesmas ideias, e que se temos contato com muitas coisas inesperadas, provavelmente mudamos nossas ideias. Além disso, a criatividade não é um talento ou uma anomalia, nem nada místico. A criatividade é simplesmente o conhecimento do mundo revelando aquilo que pode ser transformado, ou seja, a união do conhecimento com o desejo de transformação. Por isso afirmei que certos artistas, os que produzem arte e não mercadorias, são mais criativos que demais, porque eles criam usando experiências e ideias autênticas e pessoais, em oposição aos outros que criam com base em esteriótipos e em uma projeção do público alvo, igualmente estereotipada, uma projeção que visa apenas prever o lucro.

A partir disso podemos afirmar que quando um artista produz uma experiência sensorial como uma expressão artística de seu ser, seu público tem a oportunidade de ter uma experiência única. Ter tal experiência fornece elementos novos para o pensamento e, portanto, para a criatividade. Além disso, ter contato com o trabalho de pessoas que superaram a racionalidade fria que a humanidade instaurou sobre si mesma nos lembra de que isso é possível.

Como já defini em outros textos, a liberdade é o potencial de construir com a racionalidade algo diferente daquilo que atualmente existe ao nosso redor, possibilitando que transformemos nosso meio e a nós mesmos a partir de nossa vontade. Para tanto, é necessário que conheçamos esse meio, observando naquilo que é aquilo que poderia não ser, e também o inverso. Se nossa experiência é limitada, também é limitada nossa liberdade, porque desconhecemos a existência das possibilidades. Dessa forma, o trabalho artístico é capaz de libertar a humanidade, oferecendo a nós experiências cada vez mais repletas de ideias e emoções, além de um ímpeto criativo cada vez maior.

No desperdício desse potencial todo está a terrível perda causada pela indústria cultural. Em todas as épocas a humanidade foi libertada inicialmente, especialmente de suas próprias idealizações da natureza, não por filósofos e obviamente não por cientistas ou sacerdotes, mas sim por artistas, que criaram experiências que provocaram pensamentos e emoções de maneira não invasiva, diferentemente dos sistemas racionais que costumam pesar sobre nosso pensamento com um excesso informações e dogmas. O fato da maior parte da produção artística de hoje ser viciada de alguma maneira pelo mercado é a base para a perpetuação de nossa reprodução cega dos dogmas e da rotina, e a expressão máxima de uma racionalidade fria que nos reduz a algo menor.

A arte tem o potencial para ser a faísca da liberdade, e também aquilo que a preserva uma vez estabelecidas a ciência e a religião. A virtude depende essencialmente da liberdade, porque sem a capacidade de agir segundo ideais, não somos capazes de resistir ao meio que é frequentemente cruel e dominado por vícios sem absorver essas características. Sendo assim, não é surpreendente que em nossa época a maioria se vende com tanta facilidade e passividade. Fizemos de nossa arte um comércio e transformamos a contemplação em consumo. Estamos vendendo nossa alma a  Mefistófeles, e por muito pouco.  

segunda-feira, 23 de março de 2015

O Custo da Tirania

Conhecemos com clareza que a escravidão custa muito ao escravo. Como resultado, temos uma abundância de discussões sobre como podemos nos libertar de nossos opressores, e sobre quem eles são. Entretanto, é notável nas discussões abundantes na internet que o termo "opressão" está sendo usado de maneira irregular e superficial. Talvez isso se deva ao fato de que nossa discussão sobre o poder está incompleta. Temos uma noção clássica de poder, a de uma influência que um ente exerce sobre o outro. Isso não é o suficiente. O que a escravidão custa ao tirano? O que o poder exerce sobre aquele que parece ser dominante em uma relação?

O que nos falta é a compreensão de que todas as partes envolvidas em uma relação de poder são igualmente influenciadas por ela. Isso porque para que possamos causar algo, precisamos ter determinadas propriedades que nos concedam um potencial de influência e, principalmente, não ter outras propriedades neutralizariam esse potencial. Por exemplo, para que eu seja capaz de coagir alguém pela força bruta, preciso ter força bruta e crueldade, e preciso não ser razoável. Para que eu mantenha meu poder, preciso manter minhas propriedades. Se eu me transformar, vou perder meu poder e sofrer a vingança dos meus escravos, que certamente me punirão tão severamente quanto eu os puniria se eles tivessem sido os primeiros a tentar romper nossa relação de poder. A tensão violenta entre um tirano e seus escravos se acumula em ambas as partes. Dessa forma, um tirano de qualquer espécie se degenera intelectualmente e emocionalmente tanto quanto seus escravos. Em ambas as partes o potencial humano não se realiza, neutralizado por uma relação de poder corrupta.

Além disso, para que alguém faça um papel em relação a mim, eu também preciso fazer um determinado papel correspondente. Por exemplo, se eu pretendo me casar com uma mulher que seja uma "dona de casa" submissa e absolutamente dependente de mim, precisarei reduzir a mim mesmo a um estereótipo para esse fim, precisarei ser o homem trabalhador autoritário e sem fraquezas. Para condenar alguém a um papel, preciso me condenar a ser a contraparte. É a falta dessa compreensão que leva algumas feministas a não compreenderem que o machismo não é necessariamente favorável na opinião um homem, ou mesmo necessariamente desfavorável na opinião de uma mulher. Ambos homens e mulheres podem ser corruptos por esse tipo de relação de poder, e ambos são igualmente capazes de desejar algo diferente.

Não acredito que seja possível o fim de todas as relações de poder, mas parece claro que podemos abandonar certas relações em particular. Todos nós, obviamente, não queremos ser escravos. Porém, muitos de nós acreditam que manipular aos outros lhes é favorável, não percebendo que pagam por esse crime com a própria humanidade. Para reter prisioneiros, é preciso tornar-se carcereiro, ou seja, é preciso viver na prisão. O primeiro passo para evitar as relações corruptas de poder é, portanto, a auto-crítica, talvez até uma autodestruição controlada. Que não haja dúvida: Os vícios de nossos semelhantes são também os nossos. Nós nos distanciamos dos monstros quando compreendemos o quanto eles nos são próximos.

sábado, 21 de março de 2015

Deus e a Banana

Eu tenho uma incrível e profunda tese sobre o mundo, um sistema perfeito de conceitos capaz de interpretar absolutamente todos os nossos conhecimentos atuais e futuros e que, ao mesmo tempo, não força a nós uma única interpretação sobre cada coisa. A suprema tese é...

O mundo é uma banana. Sim! Pense em uma banana. Imagine como a sua parte saborosa e nutritiva
é coberta por uma casca que não parece de forma alguma apetitosa. Ora, todas as coisas do mundo
são assim! As pessoas são bananas porque é preciso ir além da superfície para conhecer suas virtudes,
todos nossos objetivos são bananas porque é preciso ter o trabalho de descascar a realidade ao nosso redor para obtê-los. A ciência é uma banana, o aspecto inicial das teorias científicas não é atraente, mas se a descascamos encontramos seu maravilhoso fruto. A arte, a filosofia, a religião, todas bananas! Estamos sempre desvelando o meio bruto para colher seus frutos, encontrando e descascando bananas!
Ah! A vida é um infinito cacho de bananas!

Esta tese lhe parece ridícula? Isso não pode ser. Você raciocina assim com muita frequência!
Não dizendo que o mundo é uma banana, mas que o mundo é a dialética ou o materialismo histórico, que tudo que ocorre com a vida é evolução das espécies, que todas as relações sociais são opressão. Você e eu somos muito parecidos! Esforce-se para me entender.

Se penso em uma pessoa como uma banana, trato-a como se seu valor estivesse além de sua aparência e sou recompensado por isso, vou achar que minha tese da banana é válida e vou tentar aplicá-la a outros contextos. A pior parte é que conforme eu trato de assuntos mais amplos, como a dinâmica social, a explicação para a vida e, finalmente, o sentido do universo, eu trato de assuntos sobre os quais não sou capaz de fazer um único teste por tentativa e erro, então assumo que aquele teste inicial bem sucedido significa que minha teoria seria testável nos contextos mais amplos também, se eu tivesse meios para isso. Assim posso argumentar sobre o infinito. "Portanto, Deus é a Banana!"

Isso fica pior, acredite. Quando entro em debates com meu conceito de banana, sou simplesmente incorrigível. Tudo que ouço meu interlocutor dizer é interpretado por mim como uma tentativa fracassada de chegar ao conceito de banana. Se me mostram que sou contraditório, respondo que Banana é em si dual ("casca e fruto!") e contraditória. Quando pesquiso, onde quer que a racionalidade possa ser usada para resolver um problema, começo e termino me perguntando se estou diante da casca ou do fruto, se estou diante de uma banana, de um cacho ou de uma bananeira. Estudo aquilo que criei. Estudo a Banana, escrevo livros sobre ela, escrevo livros sobre diversos assuntos interpretados sob o conceito de banana.

Outras pessoas com uma necessidade de simplificar o mundo e obter autoridade intelectual sem perder o direito de dizer idiotices se tornam adeptas da minha escola de pensamento. Minhas criaturas da Banana vagam o mundo dizendo disparates e acusando indivíduos de ignorância ou ceticismo. Os eruditos nos estudos sobre a Banana debatem desdobramentos da minha tese como " Será que a casca é mesmo separada do fruto? Ah! Talvez a casca seja o fruto!". Meus discípulos escrevem livros e lucram com eles. Títulos como "A arquitetura da banana", que discute como os espaços são todos bananas porque apenas sabemos qual é o verdadeiro propósito de uma construção quando estamos dentro dela. A pior parte disso tudo é que minha teoria da banana sequer é minha criação. Eu simplesmente distorci o que encontrei em uma certa doutrina filosófica, ou simplesmente no senso comum, com novas palavras, unindo verdade e falsidade com maestria, comendo da carcaça de Deus.

Não me lembro se fiz isso acidentalmente ou intencionalmente. Quem sabe? Quem se importa?
Meus erros se propagam,  minha estupidez reverbera em inúmeras mentes. Mas isso já não é mais problema meu. Eu morri há mais de um século, rico e contente. Quem sou eu? Eu sou helenista, sou iluminista, sou positivista, sou liberal, sou marxista, sou pós-moderno, sou evolucionista, sou crente e sou ateu.
Sou qualquer coisa em qualquer lugar. Eu sou um sofista, como você!

segunda-feira, 2 de março de 2015

Ilusão e Realidade

Nós frequentemente usamos as noções de real e ilusório. Falamos em "vida real" em comparação a filmes, videogames, experimentos, sonhos, etc. Chamamos de real um determinado contínuo que não está sob nosso controle, e geralmente chamamos de ilusões as imagens mentais que isolam partes desse contínuo. Por exemplo, muitos artigos científicos atualmente falam sobre a ilusão do livre-arbítrio, sobre como a ideia de fazer escolhas é apenas uma ilusão que torna a vida interessante, mas que não encontra nenhum lugar na explicação científica do universo.

Estamos fazendo bom uso desses conceitos? Isto é algo bem sutil, mas costumamos usar a palavra "ilusão" como se implicasse também em falsidade. Ilusão e falsidade são ideias bem diferentes. Uma ilusão é uma imagem mental, subjetiva, que é mantida através da concentração e da manipulação de aspectos da realidade. Por exemplo, certamente podemos dizer que os eventos de um filme são uma ilusão. Nós olhamos para a cena de um filme ignorando a identidade dos atores e o que de fato ocorre no local da filmagem, nós nos deixamos levar pelas ilusões induzidas pela narrativa e pela cenografia. Mas podemos dizer que tais eventos são falsos?

Uma falsidade é um conjunto de palavras que nega aquilo que, por acordo, chamamos de verdade. Por exemplo, é falso dizer que o Sol é frio e tem um brilho azul. Também é falso dizer que não existe um personagem chamado James Bond, ou que esse personagem é um encanador italiano chamado James Mario Bond. Podemos dizer então que James Bond é uma ilusão, mas não podemos dizer que ele é uma falsidade, que ele não exerceu influência alguma sobre nós e não existe em nosso universo. É falso dizer de uma ilusão que ela não existe. Uma ilusão é a realidade repartida, distorcida e selecionada sob alguma intenção. Uma ilusão pode exercer poder sobre nós e sobre os demais animais. A moralidade é baseada em ilusões, nossos modelos teóricos são ilusões. A falsidade, porém, não tem nenhum poder sobre a realidade e se origina do erro e da corrupção de caráter.

Aqueles que se empenham em erradicar nossos artífices mentais não imaginam o mal que estão praticando. São como Platão querendo expulsar os artistas da república. A erradicação da ilusão erradicaria também o caráter moral e as relações humanas estáveis e profundas. Confúcio foi superior a Platão quando disse que enquanto a música floresce os criminosos são menos numerosos. Quando pensamos apenas em como as coisas são, nos tornamos incapazes de realizar transformações, além de sermos mentirosos. Pensar como as coisas deveriam ser é construir uma ilusão, colocar as próprias expectativas sobre algo que independe delas, mas esse exercício é extremamente importante. Por exemplo, se nenhuma mulher alguma vez tivesse deixado de pensar sobre o ser para imaginar o dever ser, nenhum movimento de libertação feminina teria ocorrido, porque as mulheres teriam todas admitido as regras machistas como se elas não fossem arbitrárias. A maior parte de nossa existência é guiada por imagens mentais e arbitrariedades, precisamente isto nos faz humanos. Um projeto de restringir a humanidade aos fatos nos reduziria a algo menos que macacos. Os fatos são apenas nossa matéria prima, a interpretação é mais importante que o texto.

Isso coloca a questão do livre-arbítrio sob uma forte luz, não? É evidente que se procuramos a liberdade fora de nossas próprias mentes, não a encontramos. Não há evidências de que, no processo causal infinito que parece existir na natureza, existam seres capazes de agir de maneira indeterminada. Entretanto, nós pensamos na liberdade e ela tem poder causal sobre nós e, portanto, sobre o meio aparentemente determinista que nos cerca. Pensar em uma ideia que por definição nos coloca a parte do processo causal determinista e por consequência nos faz atuar sobre esse processo pode parecer de início uma contradição, mas observe atentamente seu pensamento. Se você pensa em ter livre-arbítrio, você sente que é livre. Se você pensa em não ter livre arbítrio, você se sente coagido(a) pelas forças da natureza. Isso satisfaz exatamente a noção clássica de livre-arbítrio, sem nenhum conflito com a causalidade do meio.