sábado, 21 de março de 2015

Deus e a Banana

Eu tenho uma incrível e profunda tese sobre o mundo, um sistema perfeito de conceitos capaz de interpretar absolutamente todos os nossos conhecimentos atuais e futuros e que, ao mesmo tempo, não força a nós uma única interpretação sobre cada coisa. A suprema tese é...

O mundo é uma banana. Sim! Pense em uma banana. Imagine como a sua parte saborosa e nutritiva
é coberta por uma casca que não parece de forma alguma apetitosa. Ora, todas as coisas do mundo
são assim! As pessoas são bananas porque é preciso ir além da superfície para conhecer suas virtudes,
todos nossos objetivos são bananas porque é preciso ter o trabalho de descascar a realidade ao nosso redor para obtê-los. A ciência é uma banana, o aspecto inicial das teorias científicas não é atraente, mas se a descascamos encontramos seu maravilhoso fruto. A arte, a filosofia, a religião, todas bananas! Estamos sempre desvelando o meio bruto para colher seus frutos, encontrando e descascando bananas!
Ah! A vida é um infinito cacho de bananas!

Esta tese lhe parece ridícula? Isso não pode ser. Você raciocina assim com muita frequência!
Não dizendo que o mundo é uma banana, mas que o mundo é a dialética ou o materialismo histórico, que tudo que ocorre com a vida é evolução das espécies, que todas as relações sociais são opressão. Você e eu somos muito parecidos! Esforce-se para me entender.

Se penso em uma pessoa como uma banana, trato-a como se seu valor estivesse além de sua aparência e sou recompensado por isso, vou achar que minha tese da banana é válida e vou tentar aplicá-la a outros contextos. A pior parte é que conforme eu trato de assuntos mais amplos, como a dinâmica social, a explicação para a vida e, finalmente, o sentido do universo, eu trato de assuntos sobre os quais não sou capaz de fazer um único teste por tentativa e erro, então assumo que aquele teste inicial bem sucedido significa que minha teoria seria testável nos contextos mais amplos também, se eu tivesse meios para isso. Assim posso argumentar sobre o infinito. "Portanto, Deus é a Banana!"

Isso fica pior, acredite. Quando entro em debates com meu conceito de banana, sou simplesmente incorrigível. Tudo que ouço meu interlocutor dizer é interpretado por mim como uma tentativa fracassada de chegar ao conceito de banana. Se me mostram que sou contraditório, respondo que Banana é em si dual ("casca e fruto!") e contraditória. Quando pesquiso, onde quer que a racionalidade possa ser usada para resolver um problema, começo e termino me perguntando se estou diante da casca ou do fruto, se estou diante de uma banana, de um cacho ou de uma bananeira. Estudo aquilo que criei. Estudo a Banana, escrevo livros sobre ela, escrevo livros sobre diversos assuntos interpretados sob o conceito de banana.

Outras pessoas com uma necessidade de simplificar o mundo e obter autoridade intelectual sem perder o direito de dizer idiotices se tornam adeptas da minha escola de pensamento. Minhas criaturas da Banana vagam o mundo dizendo disparates e acusando indivíduos de ignorância ou ceticismo. Os eruditos nos estudos sobre a Banana debatem desdobramentos da minha tese como " Será que a casca é mesmo separada do fruto? Ah! Talvez a casca seja o fruto!". Meus discípulos escrevem livros e lucram com eles. Títulos como "A arquitetura da banana", que discute como os espaços são todos bananas porque apenas sabemos qual é o verdadeiro propósito de uma construção quando estamos dentro dela. A pior parte disso tudo é que minha teoria da banana sequer é minha criação. Eu simplesmente distorci o que encontrei em uma certa doutrina filosófica, ou simplesmente no senso comum, com novas palavras, unindo verdade e falsidade com maestria, comendo da carcaça de Deus.

Não me lembro se fiz isso acidentalmente ou intencionalmente. Quem sabe? Quem se importa?
Meus erros se propagam,  minha estupidez reverbera em inúmeras mentes. Mas isso já não é mais problema meu. Eu morri há mais de um século, rico e contente. Quem sou eu? Eu sou helenista, sou iluminista, sou positivista, sou liberal, sou marxista, sou pós-moderno, sou evolucionista, sou crente e sou ateu.
Sou qualquer coisa em qualquer lugar. Eu sou um sofista, como você!

segunda-feira, 2 de março de 2015

Ilusão e Realidade

Nós frequentemente usamos as noções de real e ilusório. Falamos em "vida real" em comparação a filmes, videogames, experimentos, sonhos, etc. Chamamos de real um determinado contínuo que não está sob nosso controle, e geralmente chamamos de ilusões as imagens mentais que isolam partes desse contínuo. Por exemplo, muitos artigos científicos atualmente falam sobre a ilusão do livre-arbítrio, sobre como a ideia de fazer escolhas é apenas uma ilusão que torna a vida interessante, mas que não encontra nenhum lugar na explicação científica do universo.

Estamos fazendo bom uso desses conceitos? Isto é algo bem sutil, mas costumamos usar a palavra "ilusão" como se implicasse também em falsidade. Ilusão e falsidade são ideias bem diferentes. Uma ilusão é uma imagem mental, subjetiva, que é mantida através da concentração e da manipulação de aspectos da realidade. Por exemplo, certamente podemos dizer que os eventos de um filme são uma ilusão. Nós olhamos para a cena de um filme ignorando a identidade dos atores e o que de fato ocorre no local da filmagem, nós nos deixamos levar pelas ilusões induzidas pela narrativa e pela cenografia. Mas podemos dizer que tais eventos são falsos?

Uma falsidade é um conjunto de palavras que nega aquilo que, por acordo, chamamos de verdade. Por exemplo, é falso dizer que o Sol é frio e tem um brilho azul. Também é falso dizer que não existe um personagem chamado James Bond, ou que esse personagem é um encanador italiano chamado James Mario Bond. Podemos dizer então que James Bond é uma ilusão, mas não podemos dizer que ele é uma falsidade, que ele não exerceu influência alguma sobre nós e não existe em nosso universo. É falso dizer de uma ilusão que ela não existe. Uma ilusão é a realidade repartida, distorcida e selecionada sob alguma intenção. Uma ilusão pode exercer poder sobre nós e sobre os demais animais. A moralidade é baseada em ilusões, nossos modelos teóricos são ilusões. A falsidade, porém, não tem nenhum poder sobre a realidade e se origina do erro e da corrupção de caráter.

Aqueles que se empenham em erradicar nossos artífices mentais não imaginam o mal que estão praticando. São como Platão querendo expulsar os artistas da república. A erradicação da ilusão erradicaria também o caráter moral e as relações humanas estáveis e profundas. Confúcio foi superior a Platão quando disse que enquanto a música floresce os criminosos são menos numerosos. Quando pensamos apenas em como as coisas são, nos tornamos incapazes de realizar transformações, além de sermos mentirosos. Pensar como as coisas deveriam ser é construir uma ilusão, colocar as próprias expectativas sobre algo que independe delas, mas esse exercício é extremamente importante. Por exemplo, se nenhuma mulher alguma vez tivesse deixado de pensar sobre o ser para imaginar o dever ser, nenhum movimento de libertação feminina teria ocorrido, porque as mulheres teriam todas admitido as regras machistas como se elas não fossem arbitrárias. A maior parte de nossa existência é guiada por imagens mentais e arbitrariedades, precisamente isto nos faz humanos. Um projeto de restringir a humanidade aos fatos nos reduziria a algo menos que macacos. Os fatos são apenas nossa matéria prima, a interpretação é mais importante que o texto.

Isso coloca a questão do livre-arbítrio sob uma forte luz, não? É evidente que se procuramos a liberdade fora de nossas próprias mentes, não a encontramos. Não há evidências de que, no processo causal infinito que parece existir na natureza, existam seres capazes de agir de maneira indeterminada. Entretanto, nós pensamos na liberdade e ela tem poder causal sobre nós e, portanto, sobre o meio aparentemente determinista que nos cerca. Pensar em uma ideia que por definição nos coloca a parte do processo causal determinista e por consequência nos faz atuar sobre esse processo pode parecer de início uma contradição, mas observe atentamente seu pensamento. Se você pensa em ter livre-arbítrio, você sente que é livre. Se você pensa em não ter livre arbítrio, você se sente coagido(a) pelas forças da natureza. Isso satisfaz exatamente a noção clássica de livre-arbítrio, sem nenhum conflito com a causalidade do meio.          

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Sobre a hierarquia

A ideia de que alguns de nós devem ser colocados acima dos demais na organização de nossas tarefas persiste mesmo nas sociedades democráticas, que postulam a igualdade entre os indivíduos. Por que estabelecemos hierarquias? O que ganhamos e perdemos com isso? Como uma hierarquia pode ser estabelecida e mantida da melhor forma possível?

A maioria de nós não consegue, se não com muita dificuldade, encontrar motivos para o engajamento em projetos sem benefícios imediatos e particulares. Em qualquer dada área do conhecimento e da arte, a maioria não deseja nada além do lucro particular, e usa quaisquer atividades como um meio para isso. Esses indivíduos são úteis, até certo ponto, para realizar operações. Em contrapartida, existem sempre alguns indivíduos que apreciam suas atividades por si mesmas, indivíduos que buscam primeiramente a virtude e aceitam o lucro como recompensa pelo trabalho digno. Esses são aqueles que desenvolvem novos conhecimentos, que aprimoram as artes, portanto não é correto que eles sejam encarregados de seguir ordens e realizar operações simples.

Quando um indivíduo mesquinho e medíocre ganhar autoridade, ele irá mandar com os mesmos fins mesquinhos que o motivam a servir. Um aluno que simplesmente estuda para impressionar aos outros com palavras sofisticadas e que pretende lucrar com uma mera fachada de conhecimento manterá exatamente os mesmos objetivos quando for professor. Por esse motivo estabelecer alguém como mestre simplesmente porque o indivíduo recebeu um diploma, um simples título burocrático,irá na maioria dos casos colocar os alunos sob uma má orientação. Um empregado que não compreende a importância social da empresa em que trabalha, na medida em que for promovido, irá intervir nas carreiras de seus colegas sem compreender que cada um deles tem sua importância, gerando a longo prazo um estado de ineficiência e desconfiança.

A função da hierarquia é estabelecer o bom exemplo. A maioria de nós faz o que é útil. Alguns fazem o que é belo. Se aqueles que buscam a verdade, a virtude e a beleza forem colocados acima dos demais, a massa egoísta irá olhar para os virtuosos como exemplos, buscando aprender suas virtudes, mesmo que inicialmente por egoísmo. Se sujeitos egoístas são colocados no poder, como acontece hoje em nosso sistema de ensino que considera apenas os títulos de autoridade, a massa não encontra motivos para cultivar as virtudes e a sociedade passa a se parecer com uma guerra de todos contra todos.    

É claro que ninguém deve ser colocado acima dos demais absolutamente. Um mesmo indivíduo é excelente e dedicado em alguns campos do conhecimento e da arte e, ao mesmo tempo, incompetente e mesquinho em diversos outros. É importante, porém, que em cada área apenas aqueles que a consideram um fim em si sejam encarregados da autoridade e recompensados com regalias. Se a autoridade em uma área é concedida a hedonistas vulgares, logo ela se degenera. É por isso que nossa forma automatizada de conceder títulos de autoridade nos causa mais problemas que benefícios. Quem usa a fachada de superioridade que os títulos podem conceder, toma a autoridade como uma regalia e usa suas falsas virtudes e seus conhecimentos isolados para fazer mal aos outros.

O respeito deve ser conquistado constantemente através de ações a favor de um bem maior. Nunca alguém deve ser respeitado porque obedeceu por tempo o suficiente para herdar um título de autoridade,porque essa é uma dedicação em si  mesquinha. Até mesmo no estabelecimento da hierarquia, o apelo à autoridade é uma falácia, e o respeito deve ser conquistado através da expressão de racionalidade elevada e de um caráter virtuoso. A autoridade não deve ser entendida como uma regalia em si, e sim como um dever ainda maior do que aquele dos que obedecem. Quem aceita a liderança apenas a partir de suas verdadeiras virtudes busca transmiti-las aos demais e conduz a sociedade ao progresso. 

          

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Sobre a criatividade

Qualquer um que examina a história ou mesmo a realidade presente com atenção percebe como a humanidade é movida por obras que se destacam entre as demais por serem inovadoras e, ao mesmo tempo, de qualidade excepcional. Realizar tais obras científicas, filosóficas ou artísticas costuma nos parecer uma tarefa impossível para a maioria das pessoas. É notável que a grande maioria, diante de uma escolha, faz a opção por produzir segundo uma tradição já estabelecida atingindo de maneira segura um padrão de qualidade determinado pelos próprios adeptos da tradição. O medo dos riscos envolvidos na criatividade e na inovação é aparente em tal escolha. Mas em que consiste o poder criativo de certos intelectuais e artistas e por que isso falta em seus admiradores?

Primeiramente, vamos explicar um termo importante. Vamos definir "criatividade". Eu nunca presenciei alguém desprezando a criatividade em si mesma como se fosse um vício. Parece ser nosso consenso que ela é uma virtude, algo a ser cultivado. Embora a criatividade seja elogiada, sua expressão é sempre esperada como algo espontâneo, até mesmo misterioso. Nenhuma prática didática é empregada por nós para favorecer seu surgimento, principalmente porque não a compreendemos corretamente. É evidente que a criatividade dos grandes gênios da humanidade não é um milagre e deve ter surgido através de alguma espécie de treino ou estudo. Disso se segue que se nós não nos submetemos a equivalente treinamento, não nos tornaremos criativos como eles.

O que é a criatividade? O que significa criar? Objetivamente, é impossível para um humano criar algo. A máxima de Lavoisier  "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" explica uma quantidade impressionante de fenômenos. Os fenômenos da natureza, segundo praticamente todas as nossas evidências, seguem essa regra. Os fenômenos da cultura, aparentemente, também. Quando falamos em criação, devemos então estar falando de algo subjetivo, isto é, algo que faz sentido de uma perspectiva particular e diretamente correspondente às nossas expectativas psicológicas. Nós nos acostumamos tanto com determinados hábitos de pensamento, que uma obra elaborada por pensamentos diferentes nos parece algo novo que antes estava ausente.

Isso é apenas uma aparência. Tudo aquilo que aparece nas obras revolucionárias está presente sob outras formas nas obras antecessoras ou na realidade vivida pelo criador. As possibilidades percebidas estavam presentes na natureza desde o início, apenas não tinham ganhado atenção. Criar é, então, transformar elementos da realidade dando a eles um aspecto diferente do atual que desperta percepções inesperadas e elucida outras possibilidades que não as usualmente concebidas. A imensidão da natureza e da diversidade humana faz da criação uma possibilidade infinita, a decadência natural de nossas instituições e doutrinas faz da criação uma eterna necessidade.

Ser criativo significa observar bem a realidade a ponto de perceber no arranjo atual das coisas e das ideias alguma combinação possível. A criatividade é a vontade de conhecer unida ao desejo de transformar. É possível transformar sem conhecer, mas isso caracteriza experimentos muito rudimentares e de pouca utilidade em comparação com esforços mais inteligentes. Conhecer sem transformar também é possível, como é o caso da maioria dos eruditos. Esta definição nos mostra que não há nenhuma contradição entre o trabalho artístico e o científico, embora concepções específicas de conhecimento possam excluir por engano a arte, ou o caso inverso. O conhecimento que não revela possibilidades de criação raramente é algo além de um aglomerado de dogmas, enquanto a arte que não revela a realidade em seu processo pode ser chamada de exibição vazia.

Com este rápido exame da noção de criatividade, não desvelamos o segredo das grandes obras?
As grandes obras rompem paradigmas, ao mesmo tempo os superando, porque os grandes mestres da humanidade compreendem perfeitamente as ideias contidas no paradigma vigente, usando de todo seu potencial para gerar uma proposta mais adequada ao futuro próximo do que aquelas arrastadas pelos eruditos conservadores em resistência ao passar do tempo. O desejo de transformar a realidade, de dar a ela um aspecto novo e mais inspirador, seja isso progresso ou a renovação de um eterno ciclo,motiva alguns indivíduos a conhecer as coisas e ideias com profundidade, o que faz de seus trabalhos ao mesmo tempo inovadores e excelentes segundo a tradição.

Para a maioria dos eruditos, que conhecem com desinteresse na prática, apenas é possível elaborar obras com uma linguagem muito complexa e com uma riqueza de estudos em obras consagradas. Estas obras são, por mais que contenham grande esforço e tratem de assuntos cruciais para a sociedade, irrelevantes para o progresso -- ou renovação -- e simplesmente desaparecem com o tempo, ou são recicladas durante alguns anos pelos herdeiros desses eruditos. Em todo caso essas obras não mudam a sociedade e geram apenas lucro e fama para o indivíduo responsável, porque seu desprezo pelo senso comum se torna recíproco.

Para a maioria dos inovadores, que atuam na prática sem interesses teóricos, apenas é possível elaborar obras excêntricas e polêmicas. Tais obras, por mais que sejam chamativas de início, com pouco tempo se mostram um movimento de aparências sem muito conteúdo que desafia a tradição sem conservar dela o que há de valoroso. Isso se mostra claro quando fazemos o exame dos movimentos políticos atuais em comparação com aqueles que marcaram a história porque de fato geraram resultados. O sucesso de um movimento depende de seu teor científico e filosófico. Pouco duram os resultados das palavras belas em si mesmas e das insatisfações irrefletidas.

Temos um jogo entre as tradições conservadoras, que unem muitos dogmas aos conhecimentos que de fato preservam para que o status quo seja mantido, e os movimentos revolucionários, que recusam os dogmas para transformar a realidade de acordo com as novas demandas sem preservar os verdadeiros conhecimentos. Isso se reflete na ciência, na arte, na filosofia, na religião e na política. Assim, os idólatras das grandes obras enfatizam a erudição, a tradição e a técnica ou a audácia, a inovação e o aspecto crítico presentes em tais trabalhos. A maioria da população se enquadra em alguma dessas categorias, e por isso as grandes obras são raras, porque nós repartimos entre nós os pedaços do que um gênio seria como um todo. Eu diria que uns têm o coração, outros a cabeça.

Como isso poderia mudar em nossa educação? Penso que o desejo de mudança é natural à juventude. Eu diria que nosso problema é que o conhecimento é há vários séculos obtido em um modelo baseado na hierarquia entre autoridades intelectuais, um modelo no qual o constrangimento costuma acompanhar o estudo e os argumentos ad hominem são assustadoramente comuns. Assim, com sua permanência em tal meio, um indivíduo obtém os conhecimentos que poderia usar para dar poder às suas criações, mas é contaminado simultaneamente por um certo cinismo diante da realidade social que está além desse jogo político, que passa a ocupar sua mentalidade completamente. Os eruditos são muitas vezes mais artistas vazios do que conhecedores cínicos, dependendo do quanto se encantam pelo jogo de poder associado ao conhecimento de tradições intelectuais e artísticas cultuadas. Separar a autoridade do conhecimento parece ser o primeiro passo. Quantas possibilidades se abririam diante de uma educação clássica sem narcisismo?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

É possível ensinar?

Todos compreendemos que a educação é algo fundamental para a sociedade, e é muito frequente
no Brasil a noção de que nossa deficiência social está associada ao nosso ensino precário.
São extremamente comuns discursos a favor de um investimento público maior na educação,
mas eu me pergunto se nosso problema é realmente financeiro. É claro que a infraestrutura é
importante para qualquer instituição, mas o objetivo de cada instituição é o que determina seu
sucesso. Se nossa noção de ensino for incorreta, capital nenhum corrigirá nossa deficiência.

A ideia mais comum de ensino é a de que um sujeito que tem conhecimento de algo transmite
esse conhecimento a outro que não tem. Existem vários problemas nessa noção aparentemente
simples e eficiente. É impossível causar conhecimentos em outras pessoas segundo nossa vontade.
O conhecimento sempre parte da disposição do próprio indivíduo para conhecer. Nenhum grau
de coerção física é capaz de fazer com que alguém mude suas convicções e teorias. Nenhuma
exposição a ideias pode fazer com que um sujeito aceite uma tese, ou mesmo a racionalidade
em geral, se o indivíduo em questão não estiver disposto a criticar sua próprias opiniões.

É a própria vontade do indivíduo que o leva a conhecer. Qual é então o papel do transmissor de
conhecimento? Em primeiro lugar, compreender que não é um transmissor, que o pensamento
alheio não pode ser manipulado de acordo com seu próprio e que ideias apenas são compartilhadas
se um ambiente adequado para isso for estabelecido. Além disso, o sujeito a ser educado talvez
já tenha conhecimentos relevantes no caso, e isso precisa ser percebido e respeitado.
Um educador, de alunos ou de seus próprios filhos, estabelece o ambiente adequado para o
aprendizado e para sua valorização, em vez de se preocupar com ideias particulares.

Existem alguns métodos gerais para estabelecer o ambiente para o aprendizado.
O primeiro e mais comum é a coerção. Nós podemos fazer com que um indivíduo se disponha
a aprender o cercando por todos os lados com ameaças e recompensas estratégicas. Por exemplo,
se um aluno não reproduz os raciocínios que seu professor espera transmitir, ele será reprovado,
provavelmente punido por seus familiares, e será coagido a repetir o exame até alcançar o
resultado esperado, sendo atrasado e punido todas as vezes que falhar. Em oposição, se um
aluno reproduz o comportamento e o discurso que seu professor espera, ele será aprovado, livrado
do exame constante e elogiado por diversas pessoas como um indivíduo bem sucedido e moralizado.
Assim, a recompensa é oferecida em contraste com a punição, reforçando o peso de ambas e
coagindo o indivíduo ao esforço intelectual exigido por suas autoridades.
  
Esse é o método mais frequentemente empregado em nossa sociedade, a partir da educação
familiar até o ensino superior. Qualquer um pode observar isso a partir da própria experiência.
A vantagem desse método é que ele funciona com uma alta taxa de sucesso. Fazer com que
a falta de conhecimento custe ao indivíduo sua dignidade e sua liberdade esgota ao longo
do tempo qualquer resistência. As desvantagens desse método nos revelam o segredo da
precariedade de nossa educação e de nossa deficiência intelectual em geral.

Quando um indivíduo aprende pela via da coerção, ele não apreende um dado conhecimento, apenas os hábitos correspondentes.  Por exemplo, é possível forçar um aluno, pelo método descrito, a estudar matemática. Porém, tal aluno não compreende o pensamento axiomático e analítico da matemática, embora seja capaz de reproduzir as operações básicas exigidas pelo seu professor. Além disso, como é natural que um indivíduo procure se livrar da coerção assim que possível, o aluno educado nesse modelo tende a evitar os estudos que foi forçado a desempenhar assim que obtém o direito de tomar decisões. Dessa forma, o modelo de ensino que nós mais frequentemente utilizamos educa operadores, indivíduos capazes de memorizar orientações e aplicá-las no contexto relevante.

O que esses indivíduos não são capazes de fazer é dar continuidade ao legado do conhecimento. Nossa massa de operadores não é capaz de improvisar, fazendo acréscimos aos sistemas teóricos aprendidos de acordo com as demandas correntes, e é ainda menos capaz de gerar novas teorias filosóficas e científicas. Indivíduos constrangidos aprendem a prezar pela segurança em todos os casos, e a criatividade é impossível sem a admissão de riscos e tolerância ao erro. O aluno que tem sua dignidade esmagada se convence de que é mais conveniente garantir uma vitória pequena sem correr riscos do que apostar em
um projeto ambicioso e aceitar todas as dificuldades decorrentes.

Eu proponho outro modelo geral para propiciar o aprendizado. Um educador pode, em vez de se focar em coagir a mente alheia, mudar a própria de acordo com o que espera transmitir. Se pretendemos educar sujeitos criativos e capazes de pensar profundamente, devemos nós mesmos adotar essas características e transmitir o bom exemplo. É impossível que um operador de matemática estimule alguém a ser matemático. Nosso maior problema na educação é que formamos geração após geração de intelectuais sem nenhuma coragem ou dignidade restante, estabelecendo hierarquias perniciosas em todas nossas instituições do conhecimento.

Novamente, é impossível coagir alguém a aprender genuinamente. Pela coerção apenas forçamos alguns resultados operacionais para acalmar nossa própria consciência, em detrimento do potencial para o sucesso de nossos alunos. A ideia de dar uma educação voltada para o pensamento crítico para as massas é mais que uma "mentira branca", é algo que falsifica o significado da educação. Um educador apenas atinge seu fim sendo ele mesmo um sujeito sábio e demonstrando sua forma de raciocinar aos seus alunos, esperando que alguns deles aprendam a admirar o conhecimento a partir do anseio pela virtude, e deixando que os desinteressados sejam desinteressados, em vez de forçá-los a admitir nossa própria hipocrisia.

É claro que agora estamos em uma situação na qual o ensino de massas está estabelecido de maneira economicamente precária e geradora de dependência, o que faz o abandono imediato desse modelo de ensino algo inviável.Porém, cabe a todos os genuinamente interessados na educação de um público esclarecido e filosófico esclarecer que nosso maior problema no ensino é um problema relacionado aos nossos hábitos intelectuais preguiçosos que insistimos em transmitir. Uma vez feita a crítica e estabelecidos alguns bons exemplos, a adequação do ideal à realidade poderá começar a ser pensada, e nós talvez encontremos formas para desfazer os erros de nossos antepassados.        

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Saber é poder?

Você já ouviu ou leu a frase "saber é poder"? Essa pequena frase estabelece uma identidade
entre seu conhecimento do mundo e sua capacidade para dominá-lo.

Perceba que essa forma de pensar depende de uma noção antiga de poder, que ainda hoje domina
o senso comum. É a noção de que um sujeito contém o poder e o exerce sobre os outros e sobre
os objetos inanimados. Assim,  "ter poder" se tornou idêntico a "ser livre". Mas, aparentemente,
o poder não funciona assim. Para ganharmos um tipo de poder precisamos ter ou ganhar as
características necessárias, e ter certas características nos impede de ter outras. Isso significa
que ter poder para algumas coisas limita nossas possibilidades em relação a outros tipos de
poder. Afinal, exercer influência exige tempo e nosso tempo é curto.

Por exemplo, se eu quiser me tornar um grande pianista, terei que passar muito tempo pensando
sobre música, praticando, apreciando obras clássicas, etc. Durante esse tempo, não poderei
sustentar outros planos, como me tornar um boxeador profissional, possibilidades que eu
tinha antes de optar por ser pianista. Não apenas sofro essa limitação no processo, mas também
depois que atingir meu objetivo. Uma vez que me torno um grande pianista, dediquei muito da
minha vida ao instrumento, e se eu quiser ter alguma espécie de sucesso em minha curta vida,
é irracional que eu mude de ideia, e racional que eu me dedique cada vez mais à carreira escolhida.
    
Nossa sociedade nos leva a crer que ter habilidades é sempre libertador. "Se eu aprendo a tocar piano,
me torno livre para tocar piano". O correto seria " Se eu optar por aprender a tocar piano, terei que
que tocar piano." Igualmente, nossa sociedade digitalizada nos leva a crer que receber informação é
sempre libertador, sempre uma expansão de nossas possibilidades. Isso também é falso.

O poder da mente, a sabedoria, não é um caso muito diferente das habilidades como tocar piano.
A capacidade da mente para receber e registrar informação é limitada, assim como sua capacidade
de análise, de criação e de mudança. Além disso, a certas ideias são conectadas outras, de tal forma que pensar sobre algumas coisas significa pensar em outras, isso tudo consumindo tempo e exigindo dedicação. Conhecer não possibilita, conhecer determina.

Assim, da mesma forma que optar por um projeto material ou outros é uma escolha séria,
conhecer umas coisas ou outras e optar por um projeto intelectual também é uma escolha
com amplas consequências, raramente previstas de início. Schopenhauer percebeu isto quando
escreveu " Não ler os livros ruins é um pré-requisito para ler os bons, porque o tempo e a energia
são escassos e a vida é curta." Saber é poder e ter poder é ser determinado. Estamos, então.
condenados a ter nossas mentes ocupadas por toda a informação que chega a nós atualmente?

Nós estamos determinados a essa regra, de tal forma que uma vez que recebemos uma informação
e a aceitamos, aceitamos também uma série de outras, aceitamos gastar tempo pensando naquilo
e, em muitos casos, escolhemos nos comportar de uma certa forma. Mas não estamos determinados
aceitar tais informações, nem mesmo a aceitar buscá-las. Na essência humana está liberdade, que
não é idêntica ao poder. Liberdade é a extensão das possibilidades através do caos, da negação e
da destruição. Nossa capacidade de abstração nos permite perder ou distorcer o que sabemos.

Dessa forma, para quem pretende cuidar da própria mente e realizar alguma obra intelectual,
é muito importante recusar a grande maioria das trocas de ideias, e ter dedicação profunda às
conversas, pesquisas e reflexões que parecem dignas de uma mente nobre. A grande maioria
dedica tempo a descobrir e divulgar a trivialidades da vida alheia e da própria, à repetição
incessante de debates inconclusivos, à propagação de mentiras e, o caso que me desagrada
em particular, à produção de obras intelectuais com o objetivo de receber glórias e riquezas
não merecidas, com um ar de disciplina e sobriedade.

Em outras palavras, a grande maioria da população usa todo o tempo dedicado a lidar com
informações e a cuidar da mente da mesma forma que usa o restante da vida. Trata-se de uma
forma normal, confusa e amedrontada de viver. As pessoas são educadas para atribuir os grandes
objetivos a figuras distantes, passando pela vida repetindo discursos irracionalmente, ou melhor,
com uma racionalidade interesseira. Suas pesquisas e debates são completamente egoístas e,
na maioria dos casos, simplesmente reciclam o mesmo conteúdo várias e várias vezes.

Por esse motivo temos uma massa, um rebanho, de indivíduos que se consideram todos egoístas
e livres, talvez até felizes. O hábito de se entreter com as más ideias e com os maus debates
é hoje mais perigoso do que em qualquer outro tempo. Com o poder de transmissão de informação
que temos hoje, e com ferramentas como o Facebook, realmente temos a possibilidade de gastar
dias inteiros trocando boatos e julgamentos ou reciclando debates como "teísmo versus ateísmo",
buscando propositalmente as más ideias por medo dos desafios impostos pelo pensamento profundo,
que é por essência livre e portanto destrói as bases firmes e questiona a ordem vigente, além de, nas
últimas consequências, estabelecer outras bases para as quais a massa não está preparada.

Esses também são motivos para que aqueles que se dedicam ao ensino considerem com muito cuidado a quantidade e a qualidade das informações que transmitem a seus alunos. Replicar
discursos segundo o costume, de forma servil e covarde tende a formar os estudantes com esses
traços. Do contrário, uma educação minimalista, elaborada como uma obra de arte, seja ela
oferecida por um verdadeiro mestre ou buscada por conta própria, resulta naquilo que os medíocres
da posterioridade vão chamar de talento inato ou de genialidade.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Poder e Liberdade

Você pensa no poder como algo diretamente ligado com a liberdade?
Penso que devo explicar bem essa pergunta. Quado falamos em poder, geralmente nos referimos
a um potencial de influência, como poder econômico, poder político, carisma, força bruta, etc.
Quando falamos em liberdade geralmente falamos na extensão de nossas possibilidades,
como liberdade civil, libertação dos oprimidos, liberdade de expressão, livre-arbítrio, etc.

A relação entre a liberdade e o poder, definidos dessa forma, me parece mais misteriosa
que para a maioria das pessoas, aparentemente. Parece claro para a maioria das pessoas,
por exemplo, que dinheiro é poder e liberdade. Mas não será isso um resultado ideológico?
Nossa sociedade ainda carrega aquele cansado sonho americano de individualidade e vitória.

Vejamos. Para que tenhamos possibilidades em um contexto, não podemos ter algo que
determine esse contexto. Quanto menos determinantes temos, e quanto menos intensa
for a determinação em um contexto, mais possibilidades existem. Por "determinante" eu
me refiro a alguma entidade que influencie as outras. Por "intensidade da determinação"
eu me refiro a quantas possibilidades um determinante é capaz de eliminar.

Imagine um objeto sem  nenhuma propriedade conhecida, mas que pode ser reconhecido
e observado por nós. Pelo que sabemos, é impossível prever qualquer coisa sobre esse
objeto. Não sabemos nada sobre suas relações de causa e efeito, até onde sabemos ele pode
se mostrar o fim de todas as regras e previsões em que confiamos. Suas possibilidades são
infinitas até que suas propriedades comecem a ser desveladas. Na medida em que conhecemos
que influência aquele objeto pode exercer ou receber (sua massa, sua energia,etc.) aprendemos
também que suas possibilidades não são infinitas, e que existem certas reações que aquele objeto
não pode ter sem destruir aquilo que o caracteriza. Quando o conhecemos suficientemente, o que
antes era a Caixa de Pandora passa a ser mais um mecanismo útil e previsível à nossa disposição.

As possibilidades do objeto aumentam ou diminuem com base em nosso conhecimento de
suas propriedades porque a possibilidade é fundamentalmente um produto da mente humana.
Somos nós quem abstraímos aspectos da realidade com a imaginação para perceber no
presente aquilo que é ou poderia ser ausente. Por isso nós somos a referência para pensar
na liberdade. A determinação dos objetos inanimados e sem experiência psicológica é
quase completamente irrelevante para a discussão acerca da liberdade humana.

Penso agora que todo ser humano é capaz de fazer tais abstrações em sua consciência, e que,
até que nós façamos escolhas com base  -- ou não -- em possibilidades pensadas, nossas
possibilidades materiais correspondem as possibilidades imaginadas. Na medida em que
fazemos escolhas eventos são associados fisicamente e mentalmente a nós, nossas
possibilidades diminuem, porque uns eventos excluem outros. Se você imaginar, com
base em seu estado agora, que coisas você poderia estar fazendo na próxima hora, você
poderá pensar em diversas possibilidades e elas correspondem ao seu estado físico. Se
você optar por uma, ou por algumas conciliáveis entre si, você já não terá fisicamente
todas as possibilidades imaginadas. Depois de agir segundo suas ideias, as memórias
do vivenciado talvez façam com que as possibilidades imaginadas também se limitem.
 
Vamos pensar no poder. Para termos poder é preciso termos propriedades definidas que nos
permitam influenciar nosso meio e talvez a nós mesmos. Para que um humano tenha
alguma propriedade é preciso que eventos físicos e mentais sejam associados profundamente
ao indivíduo em questão. Se não for assim, ele poderá imaginar incessantemente possibilidades
e será sempre muito livre, mas sem nenhum poder.   Por exemplo, para que eu seja rico,
não apenas em uma fantasia mental mas de fato, eu preciso passar por uma série de eventos
que me validem como tal, para que eu possa exercer grande influência econômica.

O poder precisa de algumas determinações para existir, ele nunca poderia ser abstrato e
existe na natureza independentemente de nossas mentes. Animais pouco inteligentes podem ter
poder, elementos químicos podem ter poder, o  Sol tem poder. Para que a liberdade possa existir
é preciso que não sejamos completamente determinados pelo meio, é preciso que tenhamos a
capacidade de pensar em abstração e em atribuir ao meio físico os objetos dessas abstrações.
A liberdade nunca poderia ser concreta e não existe sem seres capazes de raciocinar, imaginar
e abstrair. A liberdade é nítida para aquele que experimenta e um absurdo para aquele que observa.

Se você acompanhou esse raciocínio como um todo, você percebe a complexidade da relação entre
o poder e a liberdade. O poder não gera a liberdade, ele é seu oposto metafísico.O poder é, porém,
uma pré-condição para a liberdade. Toda a série de eventos relacionada a algum poder
limita nossas possibilidades. Se me torno rico, minha vida se torna em grande parte
definida por esse status, e o mesmo pode ser dito sobre as outras formas de poder. O poder
traz uma série de obrigações relacionadas à sua manutenção e sua determinação dos eventos
é mais intensa conforme ele aumenta. Mas é com base no que está estabelecido que nós
imaginamos possibilidades. Se nossa mente e o mundo ao nosso redor fossem isentos de
determinações, eu duvido que nós seriamos capazes de pensar, considerando que o pensamento
tem ligação estreita com fenômenos físicos do cérebro. O que iríamos negar e abstrair se nada
estivesse afirmado ao nosso redor? Nós sequer existiríamos.

Não é coincidência que Deus seja frequentemente descrito como um ente absolutamente poderoso mas muito raramente como um ente absolutamente livre, e que a noção religiosa de liberdade seja
a de um livre-arbítrio concedido por tal entidade. A afirmação máxima do poder é uma ordem
absoluta. A negação máxima do poder é o caos total. O que é a razão humana se não a inteligência
animal mais capaz de encontrar fraquezas e outras possibilidades naquilo que está estabelecido?
Com essa inteligência , nós rearranjamos o poder na natureza, provocando caos e instaurando
ordem de acordo nossos desejos e convicções. Subjetivamente, somos capazes de destruir e desordenar aquilo que nos desagrada. Objetivamente, nada do que fazemos realmente perturba
a ordem da natureza, porque fazemos parte dela e é apenas nela que podemos pensar e agir.

Por partilharmos todos dessa essência caótica e por participamos todos da ordem da natureza
é que as nossas ações e ideias podem realizar muito contra ou em favor da humanidade mas nada
contra e, provavelmente, nada em favor da natureza.